
A Inspecção Geral de Saúde (IGS) está a conduzir uma investigação aos médicos que mais prescrevem, no sentido de despistar relações perigosas entre a prescrição medicamentosa e o financiamento de viagens aos médicos prescritores.
Levantou-se imediatamente o Bastonário da Ordem dos Médicos (OM) classificando esta investigação de “perigosa”, “inaceitável” e “difamatória”.
Em primeiro lugar parece-me que a IGS tem o direito e o dever de inspeccionar tudo o que, no seu entender, puser em causa a correcta gestão de dinheiros públicos, assim como investigar eventuais casos de corrupção activa e passiva.
Em segundo lugar, se o problema a investigar é a relação entre a prescrição a mais e os financiamentos por laboratórios farmacêuticos aos médicos, não me parece que seja mais eficaz se for por método aleatório, conforme sugere o Bastonário da OM. Por outro lado, e concordo plenamente que a adequação do receituário ao problema de saúde deve ser determinada por peritos médicos, com certeza que a IGS poderá consultar os peritos sempre que isso for necessário. Para além disso, a OM e os tribunais existem para denunciar medidas e actuações ilegais, procedendo em conformidade.
Assim, eu gostaria de ter ouvido o Bastonário da OM elogiar esta investigação, demarcando-se de todos os médicos prevaricadores, salvaguardando e defendendo a honra e a dignidade daqueles que, todos os dias e nem sempre nas melhores condições, atendem os doentes com o seu melhor saber e profissionalismo.
Ou será que o Bastonário não ouve os rumores sobre médicos que prescrevem a mais? Ou sobre turismo médico? Ou sobre relações perigosas entre indústria farmacêutica e médicos?
Há dois pontos em que concordo com o Bastonário: é tão mau prescrever a menos como prescrever a mais; a escolha deste timing para noticiar a investigação (que está a decorrer desde Março) faz parte duma estratégia global do governo, em que se fazem sair notícias contra uma determinada classe profissional, preparando terreno para um grupo de medidas difíceis, que dizem respeito a essa mesma classe. Foi assim com os juízes, com os professores, adivinha-se que assim será também com os médicos.
Parece-me pouco ético que o faça. O que interessa é que a OM não se pode deixar arrastar para uma posição de confronto corporativista, fechando-se e negando o óbvio. Os médicos precisam de quem os defenda verdadeiramente, exaltando a honra e a dignidade de quem trabalha, realçando o muito de muito bom que há na profissão médica e não enjeitando iniciativas destinadas a identificar e isolar o pouco de mau que também há.
bem vinda Sofia, já estava com saudades...
ResponderEliminarPois... concordo. Parece-me razoável e bem fundamentado. E bem escrito, por sinal.
ResponderEliminarBeijos
Obrigada à Ana Luisa e ao Vasco Pontes. Voltem sempre!
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