07 maio 2006

Fala de mãe

Tenho os melhores filhos do mundo.

Quando bebés iam para a cama à 9 da noite e raramente precisaram que lá estivesse para os adormecer. Foram alimentados a biberão, por mim, pelo pai, pelas senhoras que ficavam com eles em casa, pelas avós, enfim, por quem fosse preciso.

Choravam, riam, sujavam-se e brincavam como todas as outras crianças. Raramente nos fizeram passar noites em claro. Acordavam todos os dias muito cedo e nós com eles. Éramos os primeiros na praia e os primeiros nos restaurantes.

Adaptaram-se bem ao infantário e à escola. Não gostaram muito da natação mas nadaram até ao 5º ano. Portaram-se sempre bem nas aulas, enfrentando as reprimendas dos professores quando tal acontecia. Sempre fizeram os trabalhos de casa sozinhos, pedindo ocasionalmente esclarecimentos. Sempre trataram eles próprios das mochilas e dos fatos de treino. Sempre gostaram de se vestir, calçar sapatos e tomar banho sozinhos.

Sempre acompanharam as nossas refeições, do princípio ao fim, sem deitarem comida no copo de água, sem se levantarem 30 vezes e sem berrarem, como mal educados, que se queriam ir embora. Sempre cumprimentaram as pessoas crescidas e tentaram receber os filhos das ditas, mesmo sem os conhecerem.

Sempre comemoraram os seus anos em casa, com alguns amigos, excepto uma vez em que me armei em mãe moderna (jurando para nunca mais, após 3 horas de tentar domesticar 20 selvagens destruidores, aos urros).

Sempre perceberam que cada um tem a sua individualidade e direito a privacidade. Sempre entenderam que podem contar comigo e com o pai, que precisamos de tempo para nós, como eles. Nunca lhes revistei as mochilas, os cadernos, os amigos. Nunca precisei de lhes confiscar telemóveis. Entram e saem, organizam a sua vida de acordo com regras universais, lógicas para todos.

Zangamo-nos muitas vezes, porque é assim que deve ser, cada um defendendo acaloradamente os seus pontos de vista e os seus territórios. Vivemos uma democracia musculada em que os pais têm a palavra final. São bons estudantes e bons conversadores. Têm um espírito crítico acutilante e um humor imparável. Cumprem as tarefas domésticas que lhes estão atribuídas sempre a resmungar.

Agora tratam-me com a condescendência e o carinho com que se tratam as peças de porcelana, ligeiramente periclitantes e a ficar fora de prazo. Dizem que sou peculiar. Respeitam-me.

Adoro os meus filhos, que são os melhores filhos do mundo. E acho que eles também gostam de mim.


(pintura de Almada Negreiros)

3 comentários:

  1. Anónimo19:14

    Tenho uma sobrinha que é uma pérola... não de cultura, mas muito culta!
    Quando estou sem síria a sua presença, o seu saber, o seu sentido de humor a
    sua amizade, fazem sentir-me remoçada e com alegria de viver. Uma tia grata.

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  2. Sofia Loureiro dos Santos19:15

    Grata sou eu por lhe merecer tanto carinho. Muitos beijos.

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