31 março 2020

Samba da utopia


Jonathan Silva


 


Se o mundo ficar pesado


Eu vou pedir emprestado


A palavra POESIA


 


Se o mundo emburrecer


Eu vou rezar pra chover


Palavra SABEDORIA


 


Se o mundo andar pra trás


Vou escrever num cartaz


A palavra REBELDIA


 


Se a gente desanimar


Eu vou colher no pomar


A palavra TEIMOSIA


 


Se acontecer afinal


De entrar em nosso quintal


A palavra tirania


 


Pegue o tambor e o ganza


Vamos pra rua gritar


A palavra UTOPIA


 

Das inaceitáveis desautorizações

Felizmente somos uma democracia e, apesar do declarado estado de emergência, a liberdade de expressão e a inexistência de censura são uma realidade.


Nas conferências de imprensa diárias, a DGS e um representante do governo, para além de outras pessoas de outras instituições, prestam contas e respondem a perguntas dos jornalistas. Ontem assim aconteceu e, a partir dos 32:17, a DGS responde a quem questiona o porquê da falta da cerca sanitária no Porto quando tal já tinha sido pedido.


A resposta, ao contrário do que foi amplamente replicado nas redes sociais, não me pareceu nada desastrada. Apenas foi a resposta a uma pergunta, ainda por cima fundamentada (a pergunta) numa carta que teria sido enviada por Rui Moreira ao MAI.


Não se pode pedir transparência e verdade aos responsáveis das Instituições e exigir que não respondam às perguntas politicamente incómodas. Pode e deve criticar-se aquilo que, tecnicamente, impede uma análise rigorosa da situação, como os problemas da colheita de dados para reporte, por exemplo. Pode e deve criticar-se a DGS por incongruências e inconsistências.


No entanto aquilo que Rui Moreira fez é inaceitável seja em que circunstâncias forem. Rui Moreira não tem que aceitar nem deixar de aceitar a autoridade da DGS. E se ontem alguém houve que não esteve à altura das suas responsabilidades foi precisamente o Presidente da Câmara do Porto, que resolveu assumir o papel de vítima numa situação em que apenas deverá imperar a avaliação do que poderá controlar o melhor possível, o avanço do contágio do vírus. Tal como aconteceu em Ovar.


Já agora convém perceber que as previsões de picos e de planaltos e dos momentos em que poderão acontecer dependem da evolução da epidemia e isso, como de resto tudo o que diz respeito a esta situação, tem uma reavaliação e reajustamento diários.


Graça Freitas está cansada? É natural, estamos todos. Eu estou particularmente cansada de tantos especialistas em COVID-19 que pululam na nossa sociedade. Apesar de tudo, as coisas até não estão a correr mal, pelo menos por enquanto. Assim se reconhece fora do país mas nós, como de costume, preferimos denegrir-nos.


(vale a pena ler este texto de Tiago Barbosa Ribeiro)

30 março 2020

O fado dos confinados

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Raul Pina Vicente


 


Quem diria que este fado


Seria algum dia escrito


Com o país confinado


Num reduto tão restrito


 


À janela como o gato


Estamos ao sol a crestar


E à noite sem recato


À lua vamos cantar


 


Vozes altas afinadas


Dedos soltos e trementes


As palavras libertadas


No louvor aos mais valentes


 


E o fado prisioneiro


Solta-se enquanto chora


Que o fado é sempre o primeiro


A voar pela noite fora


 

O circuito dos confinados

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Vou do quarto para o banho


e do banho prá cozinha


dou um salto até à sala


onde aceno à vizinha.


 


A seguir a esta volta


esta grande caminhada


vou deitar-me ao trabalho


numa sesta abençoada.


 


É obrigatório estar


sempre a par das novidades


e ouvir com atenção


o falar das Entidades


 


Cada um na sua toca


solitário no seu ninho


mas luzindo com o olhar


transbordante de carinho.


 

29 março 2020

Da preparação olímpica confinada

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Pois se pensava que a quarentena iria livrar-me dos treinos dantescos a que sou submetida, a minha PT decidiu que estava mesmo na altura de me preparar para os jogos olímpicos, visto que foram adiados.


E no meio dos escombros de umas obras suspensas pelo estupor do SARS-CoV-2, depois de salvar a passadeira, que tinha estado adormecida por vários anos e coberta de uma espessa camada de pó, afundada no meio de latas de tinta e tijolos, sempre de Skype (não confia em mim se apenas me ouvir dizer que estou a cumprir as repetições, que estou a encolher a barriga e a juntar as omoplatas), serei das poucas pessoas, se não a única, que vai ultrapassar a quarentena surgindo bela e elegante após o confinamento.


Mas a verdade é que os materiais de fitness estão esgotados em toda a parte – não há pesos, nem TRX, nem bombas para encher bolas de Pilates, tudo equipamentos absolutamente indispensáveis para o fitness at home.


Pensava eu! Porque cá em casa e através da janelinha do computador, as instruções incluem levantar garrafões de água de 5 litros, agachamentos com paus de vassoura e abdominais com tijolos. Portanto, não há desculpas para a inacção.


Sempre a treinar, seja ao ar livre seja no meio das obras, nada fará empalidecer o brilho da próxima medalhada olímpica da classe das sexagenárias – eu mesma!


 

Espelho meu espelho meu - há alguém mais desgrenhado do que eu?

mafalda desgrenhada.jpg


 


Fecho a porta nego o vírus


escondo-me com afinco


sabe lá se estou ou não


faço de morta e minto


 


Penteio-me a preceito


com pente escova e desvelo


palha d’aço esbranquiçada


arremedo de cabelo.


 


Da sua cor não me lembro


se bordeaux se acastanhado


a última vez que o vi


era louro envergonhado.


 


Agora tem listas brancas


e amarelas desbotadas


cabelo crespo e singelo


de pontas arrepiadas.


 


Quando pudermos sair


desta toca de coelho


o melhor é nem olharmos


para o pobre do espelho!


 

27 março 2020

Os Velhos

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Ai Weiwei


 


Diz-se que há-de vir


uma era justa e boa


em que o valor da pessoa


se mantém quando envelhece.


Está no trabalho que fez.


Para conseguir uma coisa como esta


dava o sangue que me resta.


E era como se tivesse


nascido mais uma vez.


 


Deram-nos este banco de avenida


onde a sombra nos dói e a tarde gela


e daqui vemos nós passar a vida


Sem que a vida nos sinta perto dela.


 


Assim nos atiraram para fora


das coisas que ajudámos a fazer.


Ai, como o sol aquece pouco agora.


Ai, muito custa à noite adormecer.


 


Fomos pedreiros, varredores, ardinas


fizemos casas, cultivámos terras,


criámos gado, entrámos pelas minas,


demos os filhos para as vossas guerras.


 


Demos as filhas para vos servir,


cortámos lenha para a vossa fogueira.


E o tempo a ir-se, e a gente a pressentir


que vos demos sem querer a vida inteira.


 


E ainda é sangue o que nas veias corre.


Ainda é raiva o que nos dobra a mão.


Ainda ecoa um sonho que não morre


no nosso velho e atento coração.


 


Hélia Correia

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Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...