30 setembro 2016

Um dia como os outros (168)

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(...) Nem a ONU é uma democracia, nem os seus procedimentos são totalmente previsíveis. Estamos no terreno da diplomacia. Mas, desta vez, houve uma promessa de transparência e as provas públicas, debates e avaliações pretendiam melhorar a desgastada imagem das Nações Unidas. O escrutínio, neste tempo de informação global, é outro. E a golpada alemã, que só será bem sucedida se contar com o apoio de americanos e russos, terá efeitos um pouco mais nefastos. (...)


 


Daniel Oliveira


 

25 setembro 2016

Procuro

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Brent Sommerhauser


 


 


Procurei por baixo das tábuas


dentro das cavernas atrás da manta


arrastei as pedras em braços de polvo


apartei os cabelos das neblinas


escavei arduamente para lá das sementeiras.


 


Virei-me para a pele afastei nervos e pó


sequei veias abri vísceras com retorcidos esgares


embrulhei-me de nojo desembaracei nós de fibras


sempre buscando por dentro o que não acho por fora


o que se perdeu sem saber como nem onde


exactamente aquilo que não sei se tenho ou se já tive


mas que vislumbro ouço cheiro


por dentro e por fora do que quero ser.


 

24 setembro 2016

Mecenas

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Hans Blank


 


 


No caso dos mecenas penduramos a alma


piruetas descentradas nos insólitos


medos desequilibrados.


Somos sopranos minguantes em tapetes e grinaldas


no saque dos sorrisos congelados de antemão.


 

Na porta ao lado

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Philippe Guillerm


 


 


É na porta ao lado que se ouve o sino


no alto da corda pendente da memória. Mas ao lado


há murmúrios e meninas


que se lamuriam ao piano. Doces dedos


que lambuzam a tristeza, sem tragédias nem verdadeiros


troncos de fome ou prazer.


 


É na porta fechada que se discutem os mundos avessos


da vida que sem saber vamos acrescentando de miséria.


Aquela angústia de um tempo desperdiçado e sublime


que se esgueira pelo olhar que colamos


ao lado da porta.


 

E se...

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... os números ontem revelados pelo INE, sobre o desempenho orçamental em 2016, tivesse dado razão aos que acusavam o governo de mascarar as contas? Como seriam as capas dos jornais de hoje?


 

Pão de banana com alfarroba

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Parece esquisito, não é?


 


Não fui eu que inventei, longe disso, apenas lhe fiz umas adaptações à minha moda. Explico:


 


Encontrei uma receita que me despertou a curiosidade: "Pão" de banana com amêndoas. Já por diversas vezes copiei receitas deste blogue e nunca me arrependi. Além disso explica-as de uma maneira simples, o que facilita a vida para quem não tem lá muito jeito para decifrar os mistérios culinários.


 


Experimentei o dito pão: peguei em 4 bananas que esmaguei sem medo, com um garfo (tal como quando fazia papa de banana com bolacha Maria e sumo de laranja para os meus filhos). Como não tinha farinha de amêndoa, e eu não sou pessoa para me assustar com esses pequenos problemas, arranjei amêndoas (220g), mesmo com casca, apliquei-lhes a máquina 1-2-3 (mais 4 e 5, para ficar bem moída), e bati tudo numa taça, juntamente com 3 ovos, 35g de azeite e 2 colheres de chá de fermento em pó (Royal). Coloquei numa forma de bolo inglês untada com manteiga, e foi ao forno já quente (médio) a cozer durante 30 minutos.


 


Ficou muito bom. Não ficou doce, mas também não era o que se esperava. Tinha o defeito de se esfarelar um pouco.


 


Fiquei a matutar na farinha de amêndoa. E então, já doutrinada pela autêntica fúria saudável da nova geração que me rodeia (no meu serviço a média etária dos médicos é de 50 anos; a de todos os outros elementos - 30 anos), com doutoramentos vários em grãos e farinhas alternativas (muitas vezes não consigo identificar as iguarias que deglutem ao almoço), lembrei-me de substituir a amêndoa por alfarroba.


 


Mas (há sempre um mas), a farinha de alfarroba tem muito menos gordura que a de amêndoa. Ora se eu substituísse a amêndoa pela farinha de alfarroba talvez precisasse de aumentar o azeite, e isso era já muito complicado para mim. Pensei então em substituir metade da amêndoa por farinha de linhaça (é verdade - há mesmo farinha de linhaça) e a outra metade pela tão ansiada farinha de alfarroba.


 


E hoje foi o grande dia - 4 bananas esmagadas (processo semelhante), 110g de farinha de linhaça, 110g de farinha de alfarroba, 3 ovos, 35g de azeite (é o mesmo que 0,5dl), 2 colheres de chá de fermento em pó Royal e meia colher de chá de canela em pó. Cozeu em forma untada com manteiga, em forno médio já aquecido durante 25 minutos. A forma não é tipo bolo inglês porque a minha fada do lar guardou-a tão bem guardada que eu não a consigo encontrar. Foi mesmo para uma forma redonda com buraco.


 


Está uma delícia, com uma consistência parecida com a do pão e com um sabor ligeiramente adocicado. Um lanche diferente, saudável e dietético (fatias fininhas, claro).


 


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Poema em linha recta

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Amadeo de Souza Cardoso


 


 


Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 


Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.  

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo. 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.  

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó príncipes, meus irmãos, 


Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? 


Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


 


Álvaro de Campos


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...