27 março 2016

Do obscurantismo

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Tenho estado a ver os dvds editados no fim do ano passado pela Cinemateca - Jornal Português - que consiste num grupo de documentários realizados entre 1938 e 1951, que eram exibidos nos cinemas antes dos filmes, produzidos pela Sociedade Portuguesa de Actualidades Cinematográficas para o Secretariado da Propaganda Nacional.


 


Ainda vou em 1940 e é extraordinário como era possível manter todo um povo na total ignorância do que se passava no mundo e no próprio país, para além das partidas e chegadas do Presidente da República, dos aniversários dos Pupilos do Exército, dos prémios literários, dos ranchos folclóricos, da aldeia mais portuguesa de Portugal com o seu galo de prata, as inaugurações dos quartéis da GNR ou as paradas da Legião Portuguesa.


 


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Não se fala da vizinha Espanha, na guerra civil, na II Guerra Mundial, havendo de vez em quando uma alusão aos refugiados polacos, aos actores que passavam em Lisboa a caminho dos EUA, com uma única referência à guerra nos oceanos pela salvação de uns sobreviventes de um navio bombardeado pelos alemães.


 


Há um documentário que fala das cheias no Tejo (1940), mostrando vilas totalmente alagadas e falando de luto e desgraça, mas nada mais. É muito difícil imaginar a vida naqueles tempos mas uma coisa parece certa: o País retratado naqueles documentários não tinha nada a ver com o real.


 


A informação livre é um bem inestimável a que não damos a devida importância. Tal como à democracia, à paz, à segurança. Tudo valores que são perecíveis.


 

23 março 2016

Alguma palavra

 


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Alguma palavra que transforme


o sangue em água para alimento.


Alguma palavra que levante


o sangue em asas para linimento.


 


Procuramos o silêncio


de quem troveja para que possa ouvir


a serenidade da paz a indizível harmonia


do pão. Que na cruz da esperança desfeita


a palavra murmure


amanhã.

22 março 2016

O reinado do medo

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Não há mais palavras para condenar estas acções bárbaras de criminosos sem escrúpulos.


 


O reinado do medo, propagado por carnificinas transmitidas directamente pelas televisões, não pode ser justificado por qualquer deriva ideológica de todos os que, democraticamente, são eleitos e representam os povos em que a liberdade é o estandarte, como tenho assistido em posts no facebook, ao mencionarem Bush, Aznar, Tony Blair e Durão Barroso como cabecilhas dos atentados. Independentemente de todas as divergências entre pessoas e povos, o respeito pela nossa forma de vida deve ser exigido a todos os povos e culturas, como o exigimos nas nossas sociedades democráticas.


 


O que está em causa é a nossa forma de viver, a nossa liberdade e a nossa democracia. É muito, muito difícil, mas não podemos ceder ao medo.


 

20 março 2016

Teresinha


Chico Buarque & Zizi Possi


 


 


O primeiro me chegou


Como quem vem do florista:


Trouxe um bicho de pelúcia,


Trouxe um broche de ametista.


Me contou suas viagens


E as vantagens que ele tinha.


Me mostrou o seu relógio;


Me chamava de rainha.


 


Me encontrou tão desarmada,


Que tocou meu coração,


Mas não me negava nada


E, assustada, eu disse "não".


 


O segundo me chegou


Como quem chega do bar:


Trouxe um litro de aguardente


Tão amarga de tragar.


Indagou o meu passado


E cheirou minha comida.


Vasculhou minha gaveta;


Me chamava de perdida.


 


Me encontrou tão desarmada,


Que arranhou meu coração,


Mas não me entregava nada


E, assustada, eu disse "não".


 


O terceiro me chegou


Como quem chega do nada:


Ele não me trouxe nada,


Também nada perguntou.


Mal sei como ele se chama,


Mas entendo o que ele quer!


Se deitou na minha cama


E me chama de mulher.


 


Foi chegando sorrateiro


E antes que eu dissesse não,


Se instalou feito um posseiro


Dentro do meu coração.

Dos golpes muito democráticos

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Como já vai sendo hábito vou degustando lentamente as ofertas cinematográficas do Natal. Este ano uma das séries que aterrou cá em casa, pela mão de alguém muito atento e conhecedor, foi A Very British Coup.


 


Não podia ter sido mais oportuna. Esta série tem 28 anos e parece ter sido realizada hoje. Podemos fazer algumas comparações directas, não só com o que se está a passar no Brasil mas também com o que se passa na Europa.


 


Dilma e Lula cometeram um erro colossal - a primeira por nomear o segundo por aceitar a nomeação. Independentemente do envolvimento real ou manipulado de Lula e/ ou Dilma em corrupção, esta foi a pior forma de contornar o assunto. Nunca se livrarão da suspeita de tentativa de encobrimento político e de fuga à justiça.


 


Não conheço o sistema político nem a Constituição brasileira, mas não duvido da tentativa e da manipulação das forças mais retrógradas e revanchistas da direita brasileira para apear a esquerda vencedora das últimas eleições. Infelizmente a esquerda está a ajudar. 

O caminho faz-se caminhando

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16/ Março/ 2016


 


O orçamento de Estado, contra todas as opiniões mediáticas, jornalistas muito imparciais e comentadores competentíssimos, foi aprovado com o voto e o aplauso dos partidos que suportam o governo, como tinha sido assumido pelos mesmos.


 


António Costa tem-se revelado muito melhor Primeiro-ministro em funções que candidato à função, felizmente para todos nós. A pouco e pouco vão-se delineando as políticas do novo ciclo.



  • O Ministro da Educação arrepiou caminho em relação às obrigatórias provas de aferição para este ano, e fez muito bem. Esperemos que ainda apure o novo modelo e que comece a pensar numa verdadeira modificação tranquila de todo o sistema, adaptando-o aos novos tempos, aproveitando experiências noutros países e não cedendo às pressões de quem nada quer que mude. A coragem política é indispensável e as notícias do aproveitamento das escolas públicas para celebrações religiosas, independentemente das opiniões das associações de pais, é uma péssima notícia. O Estado é laico pelo que é absurdo que se mantenham essas práticas, seja aonde for. A religião tem o seu espaço fora da Escola Pública.

  • O Ministro da Saúde vai fazendo o seu caminho, até agora mais prometido que concretizado. Mas as orientações que expressa são um refrescamento daqueles conceitos que parecia termos esquecido - o SNS não é um serviço para pobres, deve ser pago por todos de igual forma, pois a discriminação é feita através de impostos, é preciso investir nos cuidados primários e no atendimento comunitário e domiciliário. Embora considere importante e necessário o conhecimento e definição dos centros de referenciação, há o perigo de desinvestimento nas restantes unidades de saúde, o que levará a um círculo vicioso e a um depauperamento da confiança dos doentes nos hospitais que os servem e uma degradação dos próprios centros de referência pela exaustão de meios.

  • Outra notícia interessante é a do investimento na modernização do sector dos táxis, com a hipótese de regulamentação dos UBER. Já rufam os tambores da revolta, pois a modernização é avessa ao imobilismo e as Associações dos profissionais apenas parecem apostadas em impedir a concorrência.


Parece que as agências de rating não estão a colaborar com a direita, o que também é uma novidade. Veremos se Bruxelas aprende a respeitar a vontade dos eleitores em Portugal.


 

19 março 2016

Todos os dias

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Derek Wernher


 


Tantas palavras e juras


tantos beijos enviados


tantas virtuais canduras


tantos desejos cantados


 


nos dias das mães dos pais


dos avós tios e tias


e de todos os demais


membros de tantas famílias.


 


E eu aqui escondida


parca de braços e gestos


sem oferta derretida


nem abraços de afetos


 


lembrando tantas viagens


amor a quem tanto devo


apagado das mensagens


vivo nos versos que escrevo.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...