28 outubro 2012

Samba erudito

 


 



Paulo Vanzolini


Mônica Salmaso


Teco Cardoso & Nelson Ayres


 


 


Andei sobre as águas


Como São Pedro


Como Santos Dumont


Fui aos ares sem medo


Fui ao fundo do mar


Como o velho Picard


Só pra me exibir


Só pra te impressionar


 


Fiz uma poesia


Como Olavo Bilac


Soltei filipeta


Pra ter dar um Cadillac


Mas você nem ligou


Para tanta proeza


Põe um preço tão alto


Na sua beleza


 


E então, como Churchill


Eu tentei outra vez


Você foi demais


Pra paciência do inglês


Aí, me curvei


Ante a força dos fatos


Lavei minhas mãos


Como Pôncio Pilatos


 

Será que o governo está à espera...

 



 


... de que Portugal atinja uma situação idêntica ou pior que a da Grécia, para a inevitável renegociação do memorando? Ou o Primeiro-ministro acredita mesmo que Portugal vai sair miraculosamente da recessão, milagre de anunciação em Agosto, para salvífico orçamento em Outubro?


 

Refundações e desmantelamentos

 


Ninguém percebe o que significa refundar o memorando, talvez porque não signifique absolutamente nada. A conversa sobre as funções do Estado, inaugurada por Vítor Gaspar, tem a enorme vantagem de nos confrontar com a realidade de pagarmos obscenamente serviços de que não usufruímos e que nos dizem, com a maior desfaçatez possível, que não podemos ter.


 


O governos transfigurou as palavras e prepara-se para, à boleia da sua incompetência, após uma execução orçamental totalmente falhada, que errou todos os objectivos, refundar o Estado evaziando-o das suas funções sociais. Assistimos ao espectáculo pornográfico, como se o país fosse uma enorme sala de cinema hardcore, em que se anunciam reduções de 10%, ou mesmo de 6% para subsídios de desemprego, rendimentos mínimos ou de inserção social - os tais que, apesar de miseráveis, alimentam a preguiça dos trabalhadores lusos.


 


No entretanto desmantela-se também o que resta do Estado de Direito, assim como a Constituição na qual se inscrevem os direitos e liberdades e garantias dos cidadãos, com o fenómeno Passos Coelho, que tem prazer e até gosto em que se publiquem as suas conversas privadas. O problema é que não é só ele a sofrer, mais tarde ou mais cedo, com esta colossal declaração, carregada de calculismo político e demagogia bacoca, seremos nós todos, pois a porta que estava aberta à violação da privacidade, escancara-se agora, com estas palavras do Primeiro-ministro.


 


O totalitarismo larvar vai crescendo. Aguiar Branco até já apelida de perigosos inimigos da pátria os comentadores que, não esqueçamos, há pouco mais de um ano eram clarividentes ao massacrarem José Sócrates, da mesma forma que agora massacram os membros deste governo.


 


Tanta mediocridade, essa sim muito perigosa para quem, diariamente, apela à sua própria serenidade, de forma a conseguir levantar-se de manhã e ir vivendo. Em tão poucos meses se destrói o que tantas décadas levou a construir.


 

20 outubro 2012

Espelho

 



Pistoletto:


Mirrors


 


 


Gosto das imagens sem sons em que a mímica


dos rostos me prende e suspende.


Entendo melhor o brilho dos olhos a rugosidade


da pele o tremor das pálpebras,


antecipo a lava destruidora o gelo


das mãos caídas, estremeço nos braços abertos


de alguém que não me vê,


misturo as minhas com as lágrimas do espelho,


devolvo a névoa e o calor em novelo.


 

O cisne



Le Carnaval des animaux: Le Cygne


Camille Saint-Saëns & Jacqueline du Pré


 


Tardam

 


Mais uma vez a justiça faz política. Em todos os jornais a notícia das últimas escutas mediáticas, para arrastar na lama o Primeiro-ministro. As empresas de comunicação são compradas por empresas angolanas. A informação na mão do poder económico na mão de um poder político ditatorial, que não tem qualquer respeito pela liberdade de expressão.


 


Num ano todos os pressupostos mudaram: de uma crise causada pelos governos socialistas, passámos a uma situação que só se resolve na Europa; de uma intervenção externa procurada por toda a oposição de direita e por quase todos os comentadores e economistas da nossa praça, passámos a um país intervencionado e abdicado de soberania e independência; de um memorando de entendimento que era o programa do governo, até pouco ambicioso, passámos a ter um governo que se clama sem alternativa perante as exigências em que já não se revê.


 


Com um PS sem qualquer brilho ou solução, sem um Presidente que sirva, pelo menos, para ouvir e entender a voz do povo, encurralado na sua própria pequenez e enredado na gestão dos vários ódios que alimentou, arrastamo-nos sem qualquer perspetiva de futuro.


 


Para quando a implosão do PS para podermos ter eleições com alguma hipótese de alternativa política? Para quando a implosão do PSD e do CDS? Tardam a apresentar-se os homens e as mulheres acordadas e alertas. Aqui e na Europa.


 

15 outubro 2012

Poeira

 



Sherrie Rennie:


Inner-city Bred


 


 


1.


Nada me aquece neste muro construído


por minhas e outras mãos. Ouço vozes solitárias


de um fado torturado e infinito. Cada vez mais fria a ausência


do teu abraço. Ao meu lado o silêncio esfíngico


de alguém que desiste. Que sem querer mergulha na guitarra


e dedilha a dor permanente da realidade.


 


2.


Nego o passo para o monótono aviso da destruição


nego a inevitável avalanche da tristeza


uma apatia tão sem nexo nem solução


que nega o lampejo e a atração


pelo apetecível abismo.


 


3.


À minha volta a poeira desmaiada da cidade


sem ruas visíveis nem faróis fugazes.


Procuro algumas velas iguais à tremeluzente


incerteza que nos habita na usual capacidade


de apagamento que antecede a idade


das cinzas.


 


4.


Parto aplicadamente o tijolo em que


transformo os velhos pedaços deste


tecido envelhecido que


enforma o todo que já


foi habitado por


mim.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...