31 janeiro 2011

Em falta

 



 João Jacinto


 


Cortaram os ramos da árvore


em frente à minha janela.


Sei que apenas eu a via


filtrando luz e vento


estendendo folhas e pássaros.


 


Terei que desenhar verdes e troncos


usar os dedos como moldes


semear a imagem que falta


em frente da minha janela.


29 janeiro 2011

Holocausto

 











 

 


Já não são corpos já não são gente


bonecos desarticulados em posições angulosas


sem cabelos dentes carne.


São ossos que nos furam a alma


palhaços tristes trapos imundos


daqueles que se erguem como máquinas


impenetráveis aos nossos olhos


daqueles para quem a morte se engole


com o pão de todos os dias.


 


Já não são corpos já não são gente


são vozes que de todos os cantos do mundo


gritam e choram para sempre.


 

Com que voz









Luís de Camões & Alain Oulmain


Amália Rodrigues


 

 

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.


 

 

Do apuramento de responsabilidades

 


Passou uma semana desde o dia das eleições presidenciais. A demissão de Rui Pereira tem sido pedida todos os dias, com aumento de tom e de intensidade.


 


Como disse no próprio dia das eleições, considero lamentável que tenha havido pessoas, muitas ou poucas, que tenham tido dificuldade em votar por incúria dos respectivos departamentos estatais, seja por problemas técnicos, seja por não terem previsto e acautelado a situação, seja por não terem efectuado o que se lhes tinha determinado. Como é óbvio, é urgente que se apurem responsabilidades para que se possa actuar em conformidade.


 


Quando se fala de responsáveis tem que falar-se no Ministro da Administração Interna, responsável por tudo o que acontece sob a alçada do seu ministério, de bom e de mau. Mas acho estranho que, para além do CDS que pediu de imediato a sua demissão, o PSD tenha vindo, primeiro sugerindo depois exigindo a mesma demissão.


 


Em primeiro lugar seria importante saber se houve pessoas verdadeiramente impedidas de votar, e quantas, ou se houve dificuldade em votar, sentindo-se as pessoas dissuadidas por não quererem o desconforto da espera, etc. Não só porque é diferente, mesmo em termos de legalidade do acto eleitoral, como pelo possível significado em termos de resultados eleitorais. Já ouvi falar Paulo Rangel de dezenas de milhar de eleitores impedidos de votar. Se assim foi ainda mais me espanta que os partidos políticos não peçam a repetição do acto eleitoral. Porque se houve pessoas impedidas de votar, para além de tornar a eleição inválida é um problema gravíssimo que, aí sim, exigiria a demissão imediata do Ministro.


 


No entanto, se o caso foi o desconforto da espera e da confusão, levando as pessoas a desistirem de votar, embora o pudessem ter feito, apesar de grave e lamentável, não me parece que seja obrigatória a demissão do Ministro. É obrigatória a urgente conclusão do inquérito (e todos desconfiamos das urgências dos inquéritos) para que, posteriormente, o Ministro Rui Pereira analise a melhor forma de assumir a sua responsabilidade política.


 

Flexi-segurança

 


Em tempo de elevado desemprego, predominantemente de gente nova e qualificada, apercebemo-nos de que são necessárias alterações à forma como entendemos a segurança no trabalho, a produtividade, a formação, a avaliação de desempenho. É incompreensível que se sacrifique a possibilidade de ter pessoas empenhadas, trabalhadores qualificados e motivados, a uma noção de emprego vitalício independente da prestação de quem o detém, tão caro ao nosso sindicalismo.


 


No entanto não consigo perceber o objectivo de reduzir as indemnizações aos trabalhadores despedidos, em número de dias pagos por mês de trabalho e no máximo de meses pagos (12). Da parte dos empregadores mantém-se o paradigma de pagar pouco, cada vez menos, investir pouco, cada vez menos, reivindicar os apoios do estado, apelidando-o de gastador e demasiado interventor, reivindicar redução de impostos e, por fim, poder despedir pessoas com muitos anos de casa com uma indemnização simbólica.


 


Não entendo como é possível dinamizar assim o mercado laboral. Deve ser uma redundância da flexi e um downgrade da segurança.


 

Janeiro

 



Joseph Farquharson: Winter Breakfast


 


 


O corpo pede-me cama. Sábado pede-me preguiça. Janeiro pede-me cobertores, modorra e torradas.


 


Faço-lhes a vontade.


26 janeiro 2011

Que o privado se mantenha privado (de dinheiros públicos)

 


Sobre os protestos dos professores, pais, alunos e donos dos colégios privados, vou citar o Besugo:


 


Tenho cismas mais ou menos semelhantes sobre o Ensino Privado e os Cuidados de Saúde Privados: se são privados e se gostam - e se há tanta gente que gosta deles assim - que façam o favor de prosseguir nessa privada senda e continuem a fazer justiça ao seu bom nome, que se mantenham privados (sobretudo privados de dinheiros públicos).


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...