Tal como disse José Pedro Gomes (em baixo, aos 3 minutos), António Feio fez muito pelo teatro. Tanto que hoje, devido ao António, à noite vai haver teatro a passar na RTP1, na SIC e, ao domingo, na RTP2, coisa raramente vista.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Se a subida de 0,1% na taxa de desemprego, em Maio, era um sinal contraditório e foi ligeiramente desvalorizada, porque só teríamos números reais em Agosto, não seria melhor aceitar com a mesma cautela e o mesmo cepticismo a descida de 0,1% do desemprego em Junho, e continuarmos a esperar pelos números reais de Agosto?
Vale a pena compararmos dois editoriais (distanciados de 1 mês) de Pedro Santos Guerreiro, director do Jornal de Negócios online, para percebermos a coerência, a ideologia, a indignação, os conhecimentos e a presciência deste jornalista:
Uma vergonha atómica
A utilização da "golden share" é inédita, surpreendente e provavelmente ilegal. Vai contra o mercado, contra a administração e contra a decência. E revela um País próximo do subdesenvolvimento económico.
A bomba atómica é a vergonha atómica. Quem quer mandar em empresas não as privatiza. Quem as privatiza não as renacionaliza depois. O que o Governo fez foi extorsão dos direitos dos donos da PT. O recurso à "golden share" é um regresso aos vergonhosos dias em que o Estado vetou a venda dos bancos de Champalimaud ao Santander. Uma experiência que, aliás, deu no que deu: no descalabro do BCP. (...)
(...) A venda da Vivo é má para a PT. Mas não é má para os seus donos. Seja como for, isso é assunto privado. Se o BES, a Ongoing e outros decidiram tratar da sua vida, isso é com eles. O que aconteceu hoje na Assembleia Geral da PT não foi intervencionismo, nem nacionalismo, nem governação. Foi uma derrota. Uma derrota de Portugal. (...)
Vivó Sócrates
(...) Pois o acordo desenhado é favorável a cada um dos quatro lados desta mesa: PT, Governo, Oi e Telefónica. (...)
(...) A “golden share” foi um golpada que surtiu efeito. Do ponto de vista político, capitalizou simpatia na opinião pública, para quem Sócrates é hoje herói. Do ponto do negócio, a intervenção aumentou o preço em mais 350 milhões de euros. (Se, afinal, a “golden share” serve para fazer subir preço, estamos mesmo conversados quanto a interesse nacional… Mas Ricardo Salgado agradeceu antecipadamente a Sócrates por isso). Do ponto de vista da empresa, foi a intervenção de Sócrates que garantiu a manutenção no Brasil. (...)
(...) Foi por accionistas e administração terem estado a remar para lados diferentes que o Governo acabou por intervir, quando percebeu que a sua própria passividade era omissão abusada por alguns. (...) Mas os accionistas podem agradecer a Sócrates por ter conseguido o que eles falharam: mais preço e Brasil. (...)
Absolutamente extraordinário.
Nota: *Mudança para um título mais apropriado, sugerido por um comentador.
A investigação do caso Freeport iniciou-se há cerca de 6 anos. Segundo a TSF, os Procuradores responsáveis pela investigação declararam que não tinham tido tempo de ouvir José Sócrates e Rui Nobre Gonçalves (para os quais tinham, respectivamente, 27 e 10 perguntas a colocar).
Utilizando a aritmética simples isso daria 4,4 perguntas/ano, 0,375 perguntas/mês, 0,0125 perguntas/dia e 1,66 perguntas/ano, 0,138 perguntas/mês e 0,004 perguntas/dia a José Sócrates e Rui Nobre Gonçalves, respectivamente.
É portanto compreensível, ainda mais se nos recordarmos que teriam que ser retiradas as horas correspondentes aos dias feriados e de fins-de-semana, de férias e ainda as horas de dormida, satisfação das necessidades de sobrevivência diária e o mínimo de lazer, que tenha sido manifestamente impossível, até pela celeridade avassaladora do processo, como seria de esperar em processos desta gravidade e deste tipo, a falta de tempo para o cabal esclarecimento da verdade.
Esperam-se adiamentos e novos prazos pois é claro que estas duas personagens têm ainda muito a explicar ao povo português, mais precisamente a uma parcela dele, aquela que escreve em jornais e alimenta telejornais de pornografia informativa, destilando calúnias e difamação por toda a parte, demonstrando diariamente o apego à liberdade de expressão, à ética e à responsabilidade cívica.
Nota: Peço que me desculpem a inexactidão: afinal só a 1 de Outubro de 2008 é que o processo Frreport foi para a mão dos dois Procuradores com falta de tempo. Reforçam-se, assim, as suas razões. Mais transparência e rigor:
José Sócrates - 1,22 perguntas/mês; 0,040 perguntas/dia
Rui Nobre Gonçalves - 0,45 perguntas/mês; 0,015 perguntas/dia
(via Câmara Corporativa)
O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, é um livro brilhante e delicioso. A propósito do interesse de um biógrafo amador do escritor Gustave Flaubert, que procura saber qual o verdadeiro papagaio (Lulu) companheiro de Felicité, heroína de um dos contos - Un cœur simple - que compõem Trois contes, publicado em 1877, somos conduzidos a uma discussão filosófica sobre a arte e o seu autor, sobre a ficção e a realidade, o amor, a dedicação, o descomprometimento e desenraizamento próprio a que o escritor se remete, à solidão, à essência do que significa ser feliz, conceito sempre presente de uma estádio de alma impossível de alcançar ou, sequer, de definir.
Viajamos para Ruão com um médico de 60 anos, viúvo, e procuramos a sua voz na voz de Flaubert, percorremos a sua vida descobrindo a de Flaubert, o homem e o escritor, concluindo que a existência real e palpável é a dos livros e não a da vida que nos calha.
Deixo apenas um parágrafo:
(...) Ellen. A minha mulher: alguém que eu sinto compreender pior do que um escritor morto há cem anos. Isso é uma aberração ou é normal? Os livros dizem: ela fez isto porque. A vida diz: ela fez isto. É nos livros que as coisas nos são explicadas; na vida não são. Não me surpreende que algumas pessoas prefiram os livros. Os livros dão um sentido à vida. O único problema é que a vida a que eles dão sentido são as vidas dos outros, nunca é a nossa. (...)
Aguardo com alguma ansiedade a edição de Nothing To Be Frightened Of, que já tentei ler no original (tal como fiz com Flaubert's Parrot). Infelizmente a minha fluência em inglês literário não é tão boa como gostaria. Por isso espero a tradução que parece estar prevista, também pela Quetzal.
Sócrates foi totalmente excluído das acusações no caso Freeport - não foi corrompido, não procedeu, enquanto responsável pela pasta do ambiente há mais de 5 anos.
Acabou um dos processos que mais utilizados foram para destruir José Sócrates. Finalmente.
É bom que a justiça continue, noutros casos, como os do BCP, BPN, Apito Dourado, Face Oculta, etc. Mas o caminho que foi iniciado com o Freeport é de não retorno e somos todos, enquanto cidadãos e enquanto sociedade democrática, que sofremos com isso.
escultura de Mary Tierney: Standing Feathers
Está muito vento. Saraivada de areia e calor amarelado
meio obscuro. Fecho os olhos e sinto a pele arranhada
açoitada. Entrego-me à penitência sem oferecer resistência.
Era melhor que o vento e a areia
me varressem. Poderiam começar pelos cabelos
depois os olhos depois o resto
pouco a pouco defazendo-se
e desgastando-se pelo ar amarelo e barrento.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...