31 janeiro 2007

Ásperas certezas

Árduas e ásperas
as línguas das mulheres
as razões dos homens
abrem feridas
inauguram afectos
rasgam gargantas
perpetuam raízes.

Árduas e ásperas
as certezas inumanas
nas fronteiras da vida.

(pintura de Paula Rego: mulher-cão)

Perigosas inanidades

Será que, se não tivesse havido a mediatização do caso Esmeralda, o Tribunal Constitucional demoraria 4, 5 ou 10 anos a pronunciar-se, em vez dos infindáveis DOIS ANOS que demorou?

Foi demasiada a coincidência. E se esta comoção social ajudou a acelerar o processo, por muito positivo que isso seja, é um sintoma terrível num estado democrático que se pretende de direito, as decisões andarem "a reboque” das emoções veiculadas e amplificadas.

Este Estado torna-se perigoso, inseguro e injusto para os seus cidadãos, que pretende servir.



O Ministro Manuel Pinho deveria ser proibido de falar. Tanta infelicidade até dá dó, principalmente do país! Vai acenar-se com a cenoura dos baixos salários para a China??? Pelos vistos o Ministro está a pensar reduzi-los um pouco mais, para ficarem mais baixos que os dos chineses!!!

30 janeiro 2007

Faltam 11 dias

Goste-se ou não do estilo de Fátima Campos Ferreira, o programa Prós e Contras tem-se afirmado como um programa de informação obrigatório. Após o exemplo do que não se deve fazer, quando o tema foi o caso da menor que é disputada pelo pai biológico e pela família de acolhimento, em que se criou um ambiente quase intimidador para os que questionavam a conduta do Sargento, nomeadamente para o magistrado e para o advogado que representava o pai biológico, ontem houve um bom programa de informação.

Não quer isto dizer que tenha sido muito informativo. Mas houve a oportunidade de ouvir defensores de ambas as opções.

Algumas coisas ressaltaram no meio do embrulho em que se tenta transformar o referendo:


  1. Não sei em que mundo vivem Isabel Galriça Neto, João Paulo Malta, Laurinda Alves, Katia Guerreiro, que só conhecem mulheres que, apoiadas (ninguém explicitou como), acabam por não abortar. O mundo que eu conheço é um mundo ligeiramente diferente, talvez mais parecido com o de Lídia Jorge. Conheço mulheres que engravidaram sem querer, ou porque não usaram métodos anticonceptivos, ou porque estes falharam, ou porque os usaram mal, ou porque são muito jovens e imaturas, ou porque estão na menopausa e as irregularidades menstruais enganam-nas, levando-as a pensar que não engravidarão.
    Algumas destas mulheres, após o choque inicial, aceitam a ideia de ser mães, com ou sem apoio, com ou sem maridos, companheiros, namorados, mães e futuras avós, com ou sem censura social ou familiar.
    Outras não aceitam de forma nenhuma a hipótese de levar a gravidez até ao fim, não reconhecem como facto o terem um ser humano dentro delas, apenas sentem que têm uma coisa, como muito bem expôs Lídia Jorge, uma coisa que a todo o custo rejeitam, que querem que desapareça, quanto mais depressa melhor.

  2. O poema de Rita Ferro espelha exactamente o problema de fundo de toda esta discussão – a inferiorização, apoucamento e menorização da mulher. Infere-se que esta, se não aceita a sua gravidez, está a negar a sua essência feminina, o seu destino, o seu objectivo na vida, ou seja a maternidade. Daí o arrepio pelo facto de ser por opção da mulher. No fundo não se lhe reconhece o direito e a capacidade de decidir.

  3. O assassinato de Aguiar Branco, ao responder a uma pergunta venenosa de Vasco Rato, quando reconheceu que votou afirmativamente a pergunta do referendo, usando agora como estratégia o ataque à forma e pertinência da pergunta.

  4. A tentativa desesperada dos defensores do “não” de desinformarem, apoiando objectivamente o aumento da abstenção.

  5. Já agora, Aguiar Branco afirmou que o problema do aborto clandestino após as 10 semanas não fica resolvido. Acho este raciocínio absolutamente absurdo: se o aborto for despenalizado até às 10 semanas as mulheres terão a possibilidade de o fazer dentro do tempo legal e seguro, sem medo e, portanto, a escassa minoria de abortos que existem após as 10 semanas provavelmente desaparecerá.

29 janeiro 2007

Participar

Este referendo não tem a ver com posições partidárias nem com cargos políticos, nem com professores Marcelos. Tem apenas a ver com cada um de nós, como cidadão, como homem e mulher, de si para consigo.

Queremos ou não mudar a lei? Concordamos que uma mulher que aborte, até às 10 semanas de gestação, seja condenada a pena de prisão?

É a essa pergunta que deveremos responder.

Por outro lado este é o 3º referendo efectuado até agora. Se, pela 3ª vez, a participação for inferior a 50%, será provavelmente o último.

Votar é um acto de cidadania e de responsabilidade. É uma forma de intervenção na vida comunitária.

Eu vou votar SIM.


(Picasso: grávida)

28 janeiro 2007

Auschwitz, há 62 anos (2)

Tive pela primeira vez a uma noção do que poderia ter sido o Holocausto quando vi uma excelente série documental na televisão: O Mundo em Guerra (The World at War, da Thames Television, 1973). Tudo, desde a apresentação, à música de abertura, à voz de Laurence Olivier, era absolutamente arrepiante, pregando-me à cadeira, hipnotizada. Os episódios que narravam a deportação e o extermínio dos judeus, os campos de concentração e a sua libertação, eram aterradores.

A banalidade do mal, a máquina administrativa e bem oleada do Estado Alemão, o esforço daquele país na guerra, a alienação do povo, a luta pela sobrevivência, o despojamento de tudo o que significa ser humano, da dignidade, da identidade, tudo me horroriza. Do que podemos ser capazes!

Depois disso já li muita coisa sobre o Holocausto. A Escolha de Sofia, de William Styron, foi o primeiro, Sem Destino, de Imre Kertész, o último, e o que mais me impressionou. Com este livro nos apercebemos de como nos podemos adaptar ao mal absoluto e absurdo, fazendo do inenarrável o quotidiano, no sofrimento, no adormecimento das funções cerebrais superiores, como nos adaptamos a sobreviver encurralados, como a simples ideia de comer pode ocupar a totalidade da existência.

Assusta-me que a memória colectiva se vá esvaindo, permitindo haver quem ponha em causa a existência do Holocausto. É o primeiro passo para a repetição do horror. Não percebo porque não são obrigatoriamente mostrados filmes e documentários nas escolas, porque não se mostra aos nossos filhos o que a banalização do mal pode fazer.

Fui dar a estes 2 sites: Fórum de comemoração do 60º aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau; museu de Aushwitz-Birkenau.

Para que ninguém esqueça, para que nunca se repita.

27 janeiro 2007

Auschwitz, há 62 anos

First they came for the Jews
and I did not speak out
because I was not a Jew.

Then they came for the Communists
and I did not speak out
because I was not a Communist.

Then they came for the trade unionists
and I did not speak out
because I was not a trade unionist.

Then they came for me
and there was no one left
to speak out for me.

(poema de Martin Niemöller)

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Alcance

Pelo que fizemos
dos dias
sem montes
sem ventos
sem qualquer átomo
de incerteza,
pelo que absorvemos
distraidamente
sem saborear
sem experimentar,
pelo que queremos
e não perdoamos,
a vida nos alcance.


(pintura de Conchita Carambano: contemplation)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...