01 março 2026

Apelo

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Sly as a Fox

Richard Clifton

 

Falta-me uma raposa de dentes finos e agudos

Olhos rasgados e cauda de fogo

Falta-me esse apelo agreste e selvagem

Para que me liberte

E procure o alimento nas estrelas sem saber

Do amanhã

Arroz de sardinhas

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Nada de mais básico, que este arroz de sardinhas. Quando falo em sardinhas refiro-me a filetes das mesmas, congelados.

Muita cebola, muito alho, muito tomate, muitos pimentos de várias cores, sal, pimenta, coentros, folhas de louro, vinho branco. Tudo ao lume a refogar e a abrir e a misturar.

Os filetes, descongelados anteriormente, polvilhados de sal e regados com sumo de limão, colocam-se em cima dos legumes e deixam-se cozinhar por muito pouco tempo (10 minutos, se tanto). Mas atenção. Há aqui um truque, bastante importante.

A pele dos ditos filetes vem sem escamar. Ou seja, ou se tiram a pele e as escamas, ou se tiram as escamas, antes de irem ao tacho.

Depois de cozinhados, retiram-se e reservam-se. Junta-se o arroz (eu uso sempre basmati, mas há quem prefira carolino) e, quando já estiver quase, quase pronto, juntam-se os filetes. Ou comem-se à parte (que foi como resolvi servir).

Acompanhar com um belo vinho branco e boa companhia.

Muito, muito bom.

Berlim

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Foram muitos Berlins, em mim.

A dolorosa aventura de uma viagem a só, o receio de se ver perdida num grupo desconhecido, a descoberta de uma cidade luminosa, grande, larga, em que todos os passos nos guiam pela História do séc. XX. A biblioteca vazia, as inúmeras homenagens às vítimas dos nazis, o museu judaico, a biblioteca vazia, o museu da Resistência, as pedras da calçada com nomes de mortos, as memórias da noite de cristal, a estação de comboios que transportavam os judeus para os locais de aniquilação, a plataforma 17, a contabilização quase diária da humanidade que se assassinava. O muro, os restos do muro, a história do muro, a STASI, o medo, os informadores, a tortura, a censura. E a queda do muro, a libertação, os Trabanti, o tempo que parou, os consumíveis, a morte de quem queria a liberdade.

E a descoberta de outras formas de viajar, de que um grupo de desconhecidos pode transformar-se num grupo de companheiros, os silêncios e as conversas, as cervejarias, os Apfelstrudel, o aprender, o conhecer o que foi para saber o que poderá ser.

Berlim, o recomeço da abertura ao mundo.

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Inquietude

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La desserte

Henri-Matisse

 

A pouco e pouco, vai reencontrando o equilíbrio. A velha inquietude, arrasada e desaparecida, refaz o caminho.

O sol também começa a aparecer e os corpos abrem-se às amenas claridades.

Nada como a alegria do convívio, os gestos com que cozinha, mistura os cheiros, abre as garrafas de vinho.

E depois a porta que se abre, as vozes, os abraços, a conversa.

A partilha das palavras, dos olhos, das mãos, o comungar da refeição, das preocupações, das incertezas da vida.

A vida que vai acontecendo.

À espreita, uns olhinhos espantados, observadores, risonhos, uma vozinha que derrete todos os medos e tristezas, vai absorvendo o estar junto de quem se gosta.

A continuidade.

15 fevereiro 2026

Somos democracia

Apesar de André Ventura ter apelado desesperadamente para o adiamento das eleições presidenciais, com o argumento de “que se lixem as eleições”, Portugal demonstrou que a democracia não é alguma coisa que se possa menorizar. Ns difíceis condições que tanta gente está a sofrer, as eleições decorreram com uma afluência assinalável, em que o esforço e a cidadania de quem votou e de quem ajudou a votar ensinou a este populista que a democracia não se adia.

António José Seguro venceu e venceu bem. Tem uma legitimidade reforçada pelo expressivo número de votos conseguidos. O seu discurso de vitória foi muito bom. Foi apaziguador, assertivo e esperançoso.

Finalmente, este Presidente disse, tal como a sua mulher, aquilo que é óbvio e lógico, mas que uma bafienta mole de gente não aceita: na República Portuguesa é eleito um ou uma Presidente e não um casal presidencial; a Constituição não contempla Primeiras damas, esse epíteto ridículo e reacionário.

Grande satisfação pela declaração de Margarida Maldonado Freitas - "Sou farmacêutica e não primeira-dama" e do Presidente recém-eleito - "Respeitarei sempre aquilo que forem as suas decisões. (...) A minha mulher é uma empresária independente, é uma mulher com vida própria e respeito isso".

O regime democrático foi reafirmado e celebrado da melhor forma possível – elegendo o nosso Presidente.

14 fevereiro 2026

Fala do homem nascido

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António Gedeão

 

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é agua a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

08 fevereiro 2026

Votar amanhã chama-se Democracia

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"Portugueses,

Hoje, como sempre, falo para todos vós.

Mas falo, em especial, para os que perderam familiares e próximos, os que ficaram sem casa ou sem casa com condições para nela viverem, os que perderam culturas agrícolas, lojas, oficinas, fábricas, os que ficaram dias e noites sem água, luz, telefone, os que viram florestas vergarem, os que sofreram e sofrem cheias imprevisíveis, os que desanimaram, tiveram medo, se sentiram isolados, angustiados ou desesperados.

Para essas centenas de milhares, em cidades, vilas, aldeias, lugares, casas perdidas nas serras.

A todos vós e a todos que vos têm dado o que podem e não podem, agradeço a resistência, a coragem, a determinação de não ceder, de não desistir, de não largar um centímetro do que é vosso.

A todos vós agradeço a resposta dada no dia 1, quatro dias apenas depois da calamidade de 28 de janeiro.

A vossa resposta foi votarem. Votarem em massa. E, também, nas áreas devastadas. Também no voto antecipado.

Tal como há cinco anos foi votarem em pandemia, em todo o País, sem vacinas, com hospitais a transbordarem, com mortes a subirem, com contágios a galoparem.

Somos assim há novecentos anos. E por isso somos das Pátrias, das Nações, mais antigas da Europa e do Mundo.

Nascemos para resistirmos e resistirmos até vencermos. Somos um país de lutadores.

Votar amanhã é como votar na pandemia, em estado de emergência, ou, agora, quatro dias depois da tragédia.

Votar amanhã chama-se vencer a calamidade e refazer o nosso futuro.

Votar amanhã chama-se liberdade.

Votar amanhã chama-se Democracia.

Votar amanhã chama-se, acima de tudo, Portugal!"

Mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...