09 setembro 2024

Imaterial

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1.


Não sei para onde me dirigir. Para cima? Para o lado? Para a terra? Nunca irei outra vez ao jardim das gavetas de pedra, porque não é lá que tu estás, só o teu envelope.


Mas então para onde? Era tão mais fácil acreditar que, nalguma etérea dimensão, continuas e me ouves, e te ris de mim, e me aconchegas com o olhar, e que me recebes com a delicadeza das atenções que te envergonhas de assumir, mas que adoras que eu reconheça e tu diga.


Como explico que, antes, gostava de ir até ao rio sozinha, beber café, cirandar, ler o jornal, beber o ar, e agora me faltam as pernas, os olhos, a alma, o interesse, o ânimo? Como explicar o meu anterior gosto pelo isolamento, a minha economia de palavras, que acompanhavas e respeitavas, que agora se transformou numa prisão de letras, sons, significados, de tal forma que se avolumam em mim, não conseguindo impedir o transborde da tristeza? Como posso explicar que não consigo deixar de fechar a porta, já que não estás do outro lado para trocarmos impressões, cada um no seu canto, mas transmitindo opiniões e carinho entre paredes?


Hoje marquei na agenda vários concertos, para que a música me consiga preencher este vazio. Comprei até os bilhetes, muito arrumadinhos na pasta para isso criada no meu computador. Mas depois a quem conto o que ouvi, o que vi, o que senti? Com quem falo dos compositores, das orquestras, dos intérpretes?


Assim não. Assim não. Assim não.


 


2.


Dizem-me que devo chorar sem limites, nem pena, nem pejo, mas se choro lembram-me da força que é suposto ter, da inquestionável fortaleza da minha alma.


Dizem-me que tenho de superar, quando nem ideia fazem do que há para ultrapassar, ou sequer se o quero fazer.


Dizem-me para sair, para me distrair, quando nem desconfiam da revolta que sinto por a vida continuar sem que estejas comigo, quando não percebem que nada me pode distrair.


Dizem-me que tenho de viajar, para longe, para muito longe, quando não entendem que as viagens eram nossas, tu e eu, pelos caminhos de tantos mundos, imaginados ou calcorreados, abraçados ou detestados, tantos livros, tantos sonhos, tudo o que me interessava na vida.


E eu encolho no meio de tanta boa-vontade, no meio da culpa de ensurdecer a tantas sugestões, fechando portas, olhos, luzes, e ficando à espera de que, finalmente, resolvas regressar.


 


3.


Pela casa espalham-se pedaços de uma existência que já foi. Que vazias as roupas, transformadas em trapos sem préstimo nem brilho. Que velhos os livros, repentinamente amarelecidos e quebradiços, as folhas soltas, as letras desvanecidas.


Olho para estes restos que nada são, sem som nem cheiro, e não consigo tocar-lhes, dar-lhes destino. Pela casa estão espalhados fragmentos de uma memória que teimo em querer manter em matéria, quando tudo se tornou imaterial.


 

Vítor Mano

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As minhas incursões pelo desporto obrigatório, mais comummente referidas cá em casa pelos tttttttttttrrrrreeeeeinos, prescritos por uma assertiva endocrinologista que se desesperava da minha difícil perda de peso, já há cerca de 7 anos, fez-me conhecer, também através da querida Enciclopédia que me acompanhava, e que adorava gozar comigo, nomes como Esbela da Fonseca, com quem era sempre comparada.


Esta minha PT, responsável por madrugadas bastante difíceis em que tenta flexibilizar-me, fortalecer o core, curar-me das várias maleitas que me vão acometendo, com uma paciência, um carinho e uma persistência que eu, por vezes, dispensava, desfez-me as contraturas do pescoço, devolveu-me a mobilidade da articulação do ombro e, mais recentemente, para além dos vários problemas rotulares, também fez a necessária fisioterapia ao braço, depois de uma fratura bem fraturada.


Pois para além da Esbela da Fonseca, que se transformou no meu nickname, também fiquei a saber que todos os dias me encontrava com uma das filhas de um grande atleta, de seu nome Vítor Mano, cujos principais feitos foram, segundo o site Atletismo Estatística:



  • Ex- recordista nacional de 100 m e 60 m (pista coberta)

  • Líder nacional dos 100 m entre 1976 e 1981

  • 12 vezes campeão nacional


Vítor Mano foi detentor de outras marcas e recordes pessoais e nacionais, treinador de hóquei em patins e professor de Educação Física.


Como outros atletas, Rosa Mota e os irmãos Castro, por exemplo, é de uma geração em que o atletismo era uma prática pouco apoiada mas que, como hoje, dava grandes alegrias e numerosos oportunismos políticos quando, à custa do abnegado esforço dos atletas, apareciam as medalhas, os recordes, o reconhecimento mediático.


Ontem a Câmara de Montemor-o-Velho dedicou o dia a uma homenagem precisamente a Vítor Mano. Fiquei feliz por uma vez ou outra os nossos representantes reconhecerem o esforço e a dedicação dos nossos atletas, e o seu exemplo de cidadania.


Parabéns ao Atleta Vítor Mano e a quem lhe dedicou esta homenagem. E também à minha PT, pelo orgulho de ter um pai com aquela estatura. E eu sou bem testemunha de quão bem lhe seguiu o exemplo.


E amanhã, há tttttttttrrrrrrrreeeeeeeino outra vez...

Choose Freedom

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NPR

Fuga de Vale de Judeus

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Isto É GOZAR com quem TRABALHA

Candidatos presidenciais

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08 setembro 2024

Funeral Blues

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Sam Walsh



Nemo Shaw


 


Stop all the clocks, cut off the telephone,


Prevent the dog from barking with a juicy bone,


Silence the pianos and with muffled drum


Bring out the coffin, let the mourners come.


 


Let aeroplanes circle moaning overhead


Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.


Put crepe bows round the white necks of the public doves,


Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


 


He was my North, my South, my East and West,


My working week and my Sunday rest,


My noon, my midnight, my talk, my song;


I thought that love would last forever: I was wrong.


 


The stars are not wanted now; put out every one,


Pack up the moon and dismantle the sun,


Pour away the ocean and sweep up the wood;


For nothing now can ever come to any good.


 


W. H. Auden

02 setembro 2024

Mar de Setembro

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O mar de Setembro, passos lentos, jornal, mãos dadas, carinho no espalhar do bronzeador.


Os banhos, as conversas, os sussurros, as sestas, os já habituais restaurantes, tão velhos como velhos estamos, uma série às escuras, no ecrã gigante, com um licor bem gelado de acompanhamento.


Quantas vezes ainda te verei ao meu lado, nas nossas convencionais férias, nos nossos convencionais gostos, nos nossos tão nossos convencionais amores?

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...