12 novembro 2023

A democracia encontrará um caminho


Jurassic Park


Os acontecimentos da última semana em Portugal, em que um Parlamento eleito há cerca de 1 ano, com uma maioria absoluta que suporta um governo, é dissolvido por causa da queda do mesmo, são muito preocupantes.


António Costa pede a demissão após as diligências resultantes de investigações a membros do seu governo, envolvidos em supostos casos de corrupção, assim como a existência de suspeitas relativas ao seu próprio comportamento, por ter sido mencionado em escutas telefónicas.


O Presidente aceita a demissão, resolve dissolver a Assembleia da República e marcar novas eleições, mantendo o governo e o Primeiro-ministro em funções, até à aprovação do OE para 2024.


Era mesmo necessário que fosse António Costa a assegurar o governo, já demitido? Não seria possível a Ministra Mariana Vieira da Silva, Ministra da Presidência, ou qualquer outro dos Ministros, assumir o governo até às eleições?


O comportamento e a morosidade da Justiça em todo o nosso período democrático não é de molde a tranquilizar ninguém. Seja qual for o desfecho, o facto é que houve uma intervenção da Justiça no normal funcionamento das Instituições.


Não havia alternativa às eleições antecipadas. Resta-nos esta esperança: a democracia encontrará um caminho (*).


(*) Life finds a way

09 novembro 2023

No embalo

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Camille Allen


Vou tentar uma balada
No embalo da menina
Que a minha voz sussurrada
Tranquilize a pequenina


Vou cantar a melodia
Com que o colo se arredonda
Um carinho que alumia
Qualquer noite que se esconda


Vou calar a voz que canta
No aconchego da ternura
Envolvendo numa manta
Esta vida em miniatura

14 outubro 2023

Ao décimo terceiro dia do mês de Outubro

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Camille Allen


 


Que nos teus olhos brilhe


a curiosidade de observar


que na tua voz se sinta


a sabedoria do canto


que as tuas mãos segurem


a força de construir


que a tua alma se dê


na felicidade de amar

30 setembro 2023

Enquanto

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Enquanto


 


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio


e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé


para ver como é;


enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas


e correr pelos interstícios das pedras,


pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;


enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,


órfãs de pais e de mães,


andarem acossadas pelas ruas


como matilhas de cães;


enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto


com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,


num silêncio de espanto


rasgado pelo grito da sereia estridente;


enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio


cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas


amassando na mesma lama de extermínio


os ossos dos homens e as traves das suas casas;


enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,


enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,


o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:


ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão

Para quem se esqueceu do essencial


Sérgio Godinho


 


Viemos com o peso do passado e da semente


Esperar tantos anos torna tudo mais urgente


e a sede de uma espera só se estanca na torrente


a sede de uma espera só se estanca na torrente


 


Vivemos tantos anos a falar pela calada


Só se pode querer tudo quando não se teve nada


Só quer a vida cheia quem teve a vida parada


Só quer a vida cheia quem teve a vida parada


 


Ai...


Só há liberdade a sério quando houver


A paz, o pão


habitação


saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


quando pertencer ao povo o que o povo produzir


quando pertencer ao povo o que o povo produzir

25 setembro 2023

Boas notícias que fazem mal ao país


(...) As escolas abrem sem professores, os hospitais não conseguem responder ao aumento da procura, as entidades públicas não conseguem atrair nem reter quadros qualificados devido aos baixos salários que oferecem, os jovens não conseguem viver nas grandes cidades, os estudantes deslocados e/ou de baixos rendimentos não suportam os custos de frequência do ensino superior, os transportes públicos falham diariamente por avarias e falta de material e o investimento público está há uma década em níveis historicamente baixos. Apesar disto tudo, é com regozijo que nos anunciam que o Estado poupa mais do que promete. (...)


 


(...) Se em vez dos 0,4% alcançados em 2022 o Governo tivesse reduzido o défice para 0,9% do PIB – um valor, em qualquer modo, muito abaixo da meta estabelecida no OE (1,9%) –, teria libertado para a economia e para a sociedade cerca de 1,2 mil milhões de euros. Uma verba adicional destas daria, por exemplo, para aumentar o investimento em 500 milhões (ficando ainda assim abaixo do orçamentado), aumentar os salários da função pública em 1,9% (em vez de apenas 0,9%, muito abaixo da inflação registada), mais do que duplicar as verbas da acção social escolar do ensino superior, reintroduzir os estágios remunerados para novos professores dos ensinos básico e secundário (que em tempos ajudavam a atrair recém-licenciados para a profissão) e ainda reservar 300 milhões de euros para recuperar cirurgias em atraso no SNS. (...)


 



Ricardo Paes Mamede, Público, 25/09/2023


 

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Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...