15 agosto 2023

Títulos versus textos

título e o (um fragmento) texto de um artigo do Público de hoje.


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Nota: O aumento a que se refere o título resulta de um maior número de horas extraordinárias realizadas, ou seja, mais trabalho.

Limites do infinito

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A simplicidade é uma utopia. Mas olhar para o mundo e os seus problemas, complexos e irresolúveis, dividi-lo em pequeníssimas parcelas despidas de ruído, peso, nevoeiro, lodo, limpando-as para que apenas fique o essencial, para que o todo se vá moldando à simplicidade, não é utópico.


O infinito não alcançamos, mas podemos tender para ele, uma expressão da matemática que sempre me fascinou. Se x tende para infinito significa que, numa determinada função, x vai assumindo uma sequência crescente de números até um limite, que seria o infinito, sem nunca o atingir; se x tende para menos infinito, significa que, nessa função, a sequência de números é sempre decrescente, até ao infinitamente pequeno ou inexistente, o que nunca acontece (no conjunto de números reais).


Podemos tender para a simplicidade, sendo cada vez mais simples (mais infinito) ou reduzindo-nos cada vez mais à essência (menos infinito).


É por vivermos na complexidade que ansiamos pela simplicidade, com os limites do infinito.

07 agosto 2023

Da simplicidade

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Parece tão simples e lógico. Ditas pelo Papa as palavras têm uma ressonância ligada à fé, aos preceitos dos que pertencem a uma comunidade religiosa.


Mas o que o Papa disse, de uma forma assertiva e, para a Igreja, revolucionária, é exactamente o fundamento do cristianismo e de todos os que olham para a vida e lhe vêm a essência, o que, de facto, importa.


Uma sociedade inclusiva, que olha e toma conta dos que mais necessitam, que não distingue a etnia, a cor, a religião, o estatuto, o poder, seja ele de que tipo for, uma sociedade que dá mais importância ao outro que a si próprio, que divide, que partilha, que é tolerante, que é livre.


Amar e ser amado, fazer alguma coisa por alguém.


Parece tão simples e lógico.


 



IF I CAN STOP ONE HEART FROM BREAKING


 


If I can stop one heart from breaking,


I shall not live in vain;


If I can ease one life the aching,


Or cool one pain,


Or help one fainting robin


Unto his nest again,


I shall not live in vain.


[Emily Dickinson]


 


AL CABO


 


Al cabo, son muy pocas las palabras


que de verdade nos duelen, y muy pocas


las que consiguen alegrar el alma.


Y son también muy pocas las personas


que mueven nuestro corazón, y menos


aún las que lo mueven mucho tiempo.


Al cabo, son poquísimas las cosas


que de verdad importan en la vida:


poder querer a alguien, que nos quieran


y no morir después que nuestros hijos.


[Amalia Bautista]



 


E é sempre tão difícil.

23 julho 2023

Remate

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À minha esquerda, em cima da secretária, o meu chapéu de palha comprado em Apt. Está calor e sinto um apaziguamento que se vai tornando cada vez mais raro. Na televisão Jessica Fletcher continua a ver Cabot Cove encolher de gente, tantos os cadáveres dos assassinados e, consequentemente, os brilharetes por ela desvendados.


Nada melhor para um sábado de manhã. E o chapéu faz-me lembrar alguns episódios mais ou menos caricatos da nossa viagem por terras de França.


Um episódio digno de nota foi a nossa chegada a Toulon. Armados de waze, seguimos aplicadamente as instruções repetidas desesperadamente quando não virávamos para onde nos era determinado. Mas havia muitas ruas que estavam barradas com pilares, abertas apenas a moradores. Depois de várias voltas, estacionámos o carro e fomos a pé descobrir o hotel.


A nossa atitude de estrangeiros perdidos chamou a atenção de um senhor muito magrinho, com sinais evidentes de cirurgia cervical, com a pele mais escurecida que a nossa, com roupas largas e enxovalhadas. Dirigiu-se a nós simpaticamente e, quando percebeu o que se passava, foi levar-nos ao hotel. Não contente com isso, para nos ensinar o caminho de carro, pois o hotel tinha parque de estacionamento e, a pé, era longe, entrou no carro e indicou-nos o caminho.


Ao chegarmos ao hotel, oferecemos-lhe uma nota para lhe agradecer. Ele recusou veementemente e nós ficámos envergonhadíssimos pelo nosso gesto, com grande receio de o ter ofendido. De facto estamos mais ou menos habituados a esta simpatia da parte de arrumadores de carros. Fiquei a pensar que, provavelmente pelo seu aspecto magrebino, concluímos que fazia parte desse grupo. Ou seja, sentimo-nos horrivelmente mal, espantados e agradecidos pela disponibilidade e generosidade de alguém que nunca tínhamos visto e que não iríamos encontrar mais.


Outro episódio foi o que se passou em Cannes, também no hotel. Ao pequeno-almoço, a senhora que estava a varrer o pátio e a limpar as mesas ouviu-nos falar português, abriu um sorriso cúmplice e cumprimentou-nos também em português. Encetámos uma pequena conversa, ficando a saber que era cabo-verdiana emigrada em França.


O recepcionista, que nos queria esclarecer de alguma coisa, depreendendo que não nos sabíamos exprimir em francês, pediu à senhora que fizesse de intérprete. Gerou-se uma confusão porque nós respondemos em francês, ela já não sabia em que língua deveria falar e o recepcionista ficou todo baralhado.


Como se vê, os hotéis foram sede de várias situações inusitadas. Em Nimes, depois de nos instalarmos a descansar após a viagem, a primeira coisa que o meu encalorado marido fez, como sempre fazia, foi ligar o ar condicionado. No entanto o aparelho ficou mudo e quedo, apesar das várias tentativas e intervenções realizadas pelo meu desesperado companheiro.


Ligou para a recepção, já ligeiramente irritado, e seguiu as instruções que lhe deram. Mas o efeito foi nenhum. Ligou de novo para que alguém fosse reparar a avaria do ar condicionado.


Entretanto, eu tinha-me instalado confortavelmente, recostada na cabeceira da cama, com o portátil sobre os joelhos ligado a uma tomada que estava estrategicamente mesmo atrás da mesa de cabeceira, tendo desligado o inútil candeeiro, a ouvir vagamente a TV.


Quando o recepcionista chegou, muito simpático, olhou para o aparelho e a seguir foi à minha mesa de cabeceira, apontando a tomada onde estava ligado o portátil. Foi explicando sorridente que eu tinha desligado o candeeiro.... e o ar condicionado; por isso não funcionava.


E Apt, para além dos chapéus de palha, deixou-me uma marcada impressão. Suspeito que também eu, embora sem querer, deva ter deixado alguma na Farmacêutica que me atendeu, quando a ela recorri e, no meu mais fantástico francês, pedi que me desse toilettes.


Depois de um silêncio espantado por parte da Farmacêutica, que me olhou com um ar meio assustado, disse: "Ah, mais oui, lingettes!"


Confesso que fiquei sem perceber o alívio dela, mas alguém a meu lado me esclareceu, quando saímos da Farmácia: "Pode dizer-se apropriadamente que a utilização de toilettes dispensa a utilização de lingettes. Em contrapartida, as toilettes são menos portáteis que as lingettes..."


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Enfim, peripécias várias que marcam pormenores de que não nos esquecemos mais.

03 julho 2023

A chave

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Pinheiros


Hasegawa Touhaku


 


A minha mãe vai buscar


O meu anel de noivado


Para que possa enfeitar


O meu amor de brocado


 


A minha mãe vai soprar


As folhas envelhecidas


As aves vão recriar


Melodias esquecidas


 


A minha mãe vai benzer


Bordados que nunca fiz


A fome de bem-querer


Os muros que nunca quis


 


A minha mãe vai guardar


A chave que não me entrega


No cofre do seu olhar


O canto que me sossega

01 julho 2023

Vertigem

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Is There Hope


Gary Christian


Saboreio a solidão
Como um abraço de mar
Perco-me na imensidão
No delírio de afundar

Cubro o mundo com o véu
Que inventei só para mim
Entre os olhos e o céu
Uma fronteira sem fim

No vício desta vertigem
Que me faz voar por dentro
Concentro-me na origem
Buraco negro no centro

Vou morrendo nesta luz
De um silêncio que arrebata
Uma ausência que seduz
Um nó górdio que se ata

Pode ser que venha a paz
Manto seguro e constante
Com que a alma se desfaz
Num futuro já distante

11 junho 2023

Arraial

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Alcindo Barbosa


Não há santo que nos valha


Nem demónio que nos tente


Pois a sorte que nos calha


Está no fado que é da gente


 


Está no fado que é da gente


E no sol que nos aquece


Na saudade que desmente


O que a alma não esquece


 


O que a alma não esquece


Na memória que há da terra


Na viagem que merece


O saber que o mar encerra


 


O saber que o mar encerra


Na vida que o tempo traz


No sonho que me desterra


No vento que me desfaz


 


No vento que me desfaz


Nos braços do meu País


Na casa que colhe a paz


Do mundo que sempre quis

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...