09 outubro 2022

Viver de outra forma

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Quando o confinamento nos foi imposto em 2020 e 2021, li extensos textos sobre o respirar da Terra exausta, a felicidade da paragem da vida, da interiorização e individualidade humanas, odes ao fim do consumismo e do desperdício, à vida saudável, simples e sustentável.


Foram dois anos em que a maior parte das actividades económicas pararam, em que os governos gastaram milhões de euros a apoiar as pessoas que, dentro de portas, não podiam sustentar-se. Não houve défices nem obrigações de pagamentos de dívidas.


Não sei o que esperávamos, mas era lógico que este tipo de situação geraria crises posteriores, com a obrigação dos Estados refazerem as suas economias. Como era de prever, a suspensão das regras europeias e os perdões dos endividamentos dos Estados não durariam para sempre.


Depois a guerra, a inqualificável invasão da Ucrânia pela Rússia, a crise energética, as sanções, o medo, o pessimismo europeu, o arrefecer das perspectivas de reanimação económica, as dificuldades que se avizinham e o desconhecido decorrente de mentes loucas como a de Putin em relação a uma possível guerra nuclear.


Para além disso, as alterações climáticas com as suas secas históricas, as suas cheias monumentais, tufões, etc., que alteram as colheitas, que modificam as estações do ano, que reactivam ou adormecem pragas e pandemias.


É óbvio que teremos de aprender a viver de outra forma, usando pouco, menos, cada vez com mais parcimónia, os recursos naturais. Teremos de racionar os nossos gastos de água, de electricidade, de gás. Teremos de usar menos os carros, as televisões, as máquinas. Teremos de andar mais a pé. Teremos de comer menos e coisas diferentes. Teremos de reduzir, regrar, reutilizar. Nós, mundo ocidental, cuja pequena parcela rica gasta tudo e ainda mais que a enorme maioria da humanidade.


Esperam-nos tempos difíceis, muito difíceis, mais ainda se o pior se concretizar. Olhemos para o futuro com a esperança possível, aproveitando para mudar o que pudermos e associarmos à sociedade uma outra dimensão – a sustentabilidade dos recursos, liderada por nós.

02 outubro 2022

Listas

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Antony Gormley


 


Às vezes penso em listas de coisas


formas de alinhar os dedos as ruas


as paredes. Às vezes penso nas listas


que constantemente nos governam.


Tantas linhas cruzadas vozes indistintas


silêncios indignados ou apenas resignados.


Pedem-nos fé no que não entendem


fé para desdizer a realidade alternativa


entre os olhos fechados e os olhos toldados.


Listas e listas de novos pecados censurados


palavras proibidas palavras decepadas


cada vez mais listas obrigadas à mesma direcção.


 

Velhos hábitos

Já há bastante tempo que não fazia doce de abóbora. Talvez porque já não exista a pessoa que me dava as abóboras, aquela prima afastada que vivia na terra, que me fazia lembrar o tempo da meninice, um tempo vivido noutro século e também por uma outra eu, que não a que agora existe.


Mas este fim de semana voltei ao velho hábito, também porque fui incluída no velho hábito de outras pessoas que distribuem produtos das suas quintas. Tão velho o hábito como a convivência entre seres humanos, que trocam e partilham víveres, experiências e afectos.


Confrontei-me, por isso, com três abóboras, uma gigantesca e as outras duas apenas grandes. Após pesquisa aturada e apurada, concluí que são do tipo Hokkaido, o que é muito interessante, mas não melhorou a dificuldade que tive para as desmanchar.


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Comecei pelas duas mais pequenas. A casca é duríssima, pelo que a enorme faca que escolhi mostrou grande resistência em cooperar, associada à negação da própria e ao desgraçado ombro direito avelhentado e dolorido que é meu companheiro há já alguns meses, tendo transformado uma tarefa de manhã de sábado num treino desajeitado e bastante esforçado, que faria inveja à minha rigorosa PT.


Não sou de desistir, mas desisti após a segunda abóbora pequena, deixando a gigantesca para outros carnavais, pois parece-me que antes do próximo Carnaval não me vai apetecer outra maratona como esta.


Dois quilos de pedacinhos de abóbora mais tarde, depois de várias imprecações e suspiros irritados, lá raspei a casca de 3 limões que espremi, mais 4 paus de canela e 1200 gr de açúcar, branco e amarelo (é preciso adaptarmo-nos às carências inesperadas), numa panelona que deixei em pousio. Depois de uma horas, foi ao lume, onde ficou 1,5 horas.


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Resolvi, sabe Deus porquê, pegar na varinha mágica para transformar em papa o doce de abóbora, que ficou ainda menos parecido com doce, muito menos de abóbora. Após duas ou três provas achei que estava enfarinhado. Decidi repensar o doce e guardei a inspiração para o fim de uma noite bem dormida.


Mas não me senti lá muito inspirada, confesso. Juntei um pouco de água e foi outra vez ao lume. Só que calculei mal o tempo e a intensidade do fogão e fui despertada pelo cheiro a açúcar queimado. Temendo o pior, corri para o lume que desliguei e para o tacho que retirei do fogão.


Mesmo assim ainda queimou um pouco. Mas depois de arrefecido consegui enfrascá-lo, evitando as partes queimadas. Os frascos cheios já foram ao lume para formar vácuo e as provas devolveram-me um gostinho bastante aceitável.


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Nada como estas aventuras culinárias para nos esquecermos, ainda que temporariamente, das eleições brasileiras, do escalar da guerra e do perigo de uma terceira guerra mundial, da crise que se aproxima, das pandemias, dos refugiados, dos emigrantes, da pobreza, da tristeza, enfim, da vivência de cada um e de todos, desta mole humana a que pertenço.


Porque apesar dos sobressaltos do mundo, a vida acontece, muito difícil para a maior parte, mais fácil para muito poucos que, na maior parte dos casos, nem disso se apercebem.

24 setembro 2022

Se essa rua fosse minha


Trio Amadeus


Se essa rua


Se essa rua fosse minha


Eu mandava


Eu mandava ladrilhar


Com pedrinhas


Com pedrinhas de brilhante


Para o meu


Para o meu amor passar


 


Nessa rua


Nessa rua tem um bosque


Que se chama


Que se chama solidão


Dentro dele


Dentro dele mora um anjo


Que roubou


Que roubou meu coração


 


Se eu roubei


Se eu roubei teu coração


Tu roubaste


Tu roubaste o meu também


Se eu roubei


Se eu roubei teu coração


É porque


É porque te quero bem

Verbo Feminino

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É difícil falar do recital de Natália Luísa e Rui Rebelo, no Teatro Meridional.


É difícil encontrar palavras para esta celebração da palavra das poetas dos vários espaços da Lusofonia.


É difícil explicar o sentimento de pertença, a sensação do maravilhoso, o escutar da voz da Natália tão bem acompanhada pela discreta e simples música de Rui Rebelo, da luz, do cenário, da elegância, da sensibilidade, da qualidade e variedade dos poemas ditos, interpretados, vividos.


Mas é muito fácil saber o porquê desta magia, do encantamento em que nos envolve a Natália. Do trabalho de pesquisa, da beleza de tudo o que faz.


E é fácil encontrar o espírito de luta, irmandade e solidariedade, mesmo na solidão e na revolta.


Que grande espectáculo, simbolicamente dedicado às mulheres iranianas.


Parabéns ao Meridional, ao Rui Rebelo e, sobretudo, à Natália.


Que privilégio poder assistir a este Recital!

18 setembro 2022

Se vão da lei da morte libertando*

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Mikhail Gorbatchov


Elizabeth II


Jean-Luc Godard


 


O primeiro mudou o mundo que sobrou após a II Guerra Mundial. A segunda viveu todas as transformações dos sécs. XX e XXI, assistindo à perda de hegemonia do Reino Unido, culminando no Brexit. O terceiro mudou o cinema.


Pela importância mediática, dir-se-ia que a Rainha Isabel II terá sido aquela que maior marca deixou.


Para mim, sem negar a importância de qualquer deles, real ou simbólica, é triste ver partir uma figura como Gorbachov quase sem ninguém notar. Considero-o uma das mais importantes personalidades do séc. XX.


*Os Lusíadas - Luís Vaz de Camões - Canto I

Dos passados

Podemos caminhar, passo a passo. As nuvens desenhando sentidos e possibilidades, algumas certezas, na maior parte das vezes cinzentas ou negras. Umas tapam o sol, outras nem sombra acolhem.


Podemos dormitar, música ao fundo, tentando ordenar o que vem aí. Parece que o passado (ou os passados) nem sequer existem. Sucedem-se a grande velocidade e com grande intensidade, sem deixarem marca duradoura embora parem a respiração.


Mas os futuros que antevemos são enevoados, difíceis de orientar, difíceis de vislumbrar.


Pesam os anos e o corpo. O que ficou de tantos antes, o que ficará dos poucos depois?

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...