Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
03 julho 2022
Do ensimesmamento
Não sei se é resultado da pandemia se é apenas do passar dos anos e do encolher do corpo, das ideias, do mundo à nossa volta, do ensimesmamento a que nos votamos, da cada vez maior incapacidade de cumprir o assumimos como dever, a verdade é que sinto um cada vez maior isolamento.
A todos os níveis – familiar e profissional – e com todas as gerações. Vamos trocando mensagens, alguns telefonemas ou vídeo conferências, mas a vontade de estar junto, os abraços que foram banidos do nosso quotidiano, a moralização da pandemia com a instalação da culpa, tudo contribui para que estejamos cada vez mais sós.
E por isso as raras ocasiões em que se quebra esse hábito, viciante e desolador, fica um gosto bom de aconchego e carinho, aquele sentimento que perdura quando estar com alguém é um bem muito importante.
E como acontece desde tempos imemoriais, as refeições são uma boa razão para o convívio, a troca de ideias, o riso, a partilha de histórias. Começa-se por uma sangria de champanhe com frutos secos, continua-se com uma sardinhada, um naco na pedra, uns lagartos grelhados, os diversos e profusos brindes com os obrigatórios copos a baterem uns nos outros, melodia inconfundível de um almoço entre amigos.
Vivemos tempos em que aquilo que é mais essencial ao Homem, a sua sociabilidade, a sua necessidade de amar e ser amado, o toque das mãos, o sorriso, o olhar, a expressão facial, é agora uma memória que teima em ser enterrada, em nome de uma assépsia e de uma incrível nova ordem da esterilização da pele, do ar, do mundo.
Para além das ameaças bem reais que nos cercam, fabricamos mais medo e terror para nos transformarmos em gente que não se atreve a amar e que já se esqueceu do que era pensar nos outros e não em si mesmo.
Serena

No dia em que perder este cansaço
em que a angústia e a solidão
não forem mais que um barco afundado
poderei enfim desatar os soluços
e a terra onde me afundar será mais serena.
28 junho 2022
E o mar aqui tão perto

E o mar aqui tão perto.
Mesmo com a angústia da guerra, com o tempo que vai escasseando para a realização dos sonhos, com a tristeza das várias nostalgias, resta-nos o mar, a fuga e o encontro da lonjura, dos outros, de mais.
E o mar aqui tão perto.
13 junho 2022
Santo António de Lisboa

Santo António de Lisboa
Vem cá ver o que isto é
Comer sardinha com broa
Beber vinho e água-pé
Não há febra nem sangria
Que nos cure a tradição
De lamentar a alegria
E louvar a maldição
Dar vivas ao vento agreste
Cantar como quem aguenta
Implorar ao pai celeste
Aprumo nesta tormenta
Somos bravos pacifistas
E guerreiros de um só dia
Solitários saudosistas
Bêbados de poesia
Oh meu querido santinho
Quero que sejas meu par
Ampara-me no caminho
Que ainda me falta andar
11 junho 2022
Discursos

Peech Bubble XII
Discursam discursos
Orelhas de abano
Cornetas de guerra
Orelhas de terra
Não saem da boca
Os dados quadrados
Movem-se na boca
Os sons desbotados
Discursos discursam
O povo envelhece
Palavra a palavra
O povo empobrece
10 junho 2022
10 de Junho de 2022

Oh Povo bom Povo
Tanto de ti se fala
Tão pouco por ti se faz
Tanto que o povo cala
Tanto que o silêncio trás
Oh Povo triste Povo
Tanto que de ti se pede
Tão pouco que a ti se dá
Vinho que não mata a sede
Os sonhos do que não há
Oh Povo grande Povo
Tão pouco de tanto guardas
Tanto do muito que perdes
Tanto em ser feliz tardas
Do tanto de ti que rendes
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