07 março 2021

Da clarividência lusa

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Portugal e os portugueses são tão avançados, tão à frente e de uma clarividência científica tão especial, que depois de décadas a discutir o novo aeroporto, a sua localização e especificidade, afinal nem vai ser preciso construí-lo porque provavelmente vai deixar de fazer sentido apostar nos transportes aéreos e nos aeroportos.


Isto é que é avanço e previdência!

05 março 2021

Geometrias

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Marisol Escobar


 


Nunca aceitei geometrias de comportamentos simétricos


adequados a género e idade pés em bico empoleirados


pernas pesadas a espreitar pelas saias


casacos assertoados decotes a condizer


cabelos disciplinados lábios de rosas


anéis pulseiras colares arrebiques de senhora


que se acomoda nas vestes do seu destino.


Mas sobretudo nunca entendi o calar dos sentidos


dos desejos dos impulsos da vontade de abraços beijos


de gostar de quem se gosta muito ou tudo


sem cuidar dos outros das conveniências das inusitadas


e estranhas regras da sociedade.


Talvez porque o estado de adulto ainda não fez caminho


que chegue lá onde estão as memórias


e a imperiosa necessidade de amar e ser amada.


 

28 fevereiro 2021

Compota de maçãs e laranjas

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Mas enfim, no intervalo de tão maravilhosos e instrutivos programas, dá-me para criar compotas, cujas voltas e reviravoltas acabam por dar sempre no mesmo.


Desta vez juntei 1 Kg de maçã vermelha, já descascada e sem caroços, a 1 Kg de sumo e polpa de laranja e a 1 kg de açúcar amarelo.


Usei o espremedor de citrinos e aproveitei toda aquela polpa que fica ao espremer, pesei tudo até dar 1 Kg - foram 6 laranjas grandes e sumarentas. Deitei para um enorme tacho que só uso nestas ocasiões (já foi o tacho das feijoadas, em alturas de grandes aglomerados de pessoas que gostavam de comer e beber) e fui enchendo com os quartos das maçãs, para que não oxidassem (depois de pesar, claro); só parti aos bocadinhos depois. Para além do açúcar temperei com 4 cravinhos e 4 paus de canela.


Esteve bastante tempo ao lume. Quando começou a ligar reduzi a um puré grosseiro com a varinha mágica, depois de retirar a canela e o cravinho, e voltou ao lume, até fazer ponto de estrada.


Não está nada mal, a sério.

Para contornar a fadiga pandémica

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A fartura de ouvir falar da pandemia, dos casos, dos mortos, dos hospitais, dos internamentos, das UCI, dos virologistas, dos jornalistas, é tanta, tanta, tanta, tanta, que estou fã dos mais inusitados programas televisivos.


É verdade. Descobri algumas pérolas que não perco.


Papo tudo o que tem a ver com obras e remodelações de casas. Estou catedrática em open concepts e em destruir paredes, daquelas de madeira e papelão, que fazem as delícias dos Property Brothers, do Love it or List it, ou de qualquer outro dos infindáveis modelos de mudar uma casa do dia para a noite – bem, é mais em 4 semanas – e fazer com que os felizes vendedores ou moradores se sintam em casas de revistas de decoração. Penso mesmo que nunca conseguirão usar tão fantásticas cozinhas, tão maravilhosos jardins e tão luxuosos ensuite bathrooms, para não estragarem nada.


Isto para não falar dos já velhos e ultrapassados programas de culinária – MasterChef, 24Kitchen e que mais haja, para miúdos e graúdos, que eu fico horas a aprender a fazer variados e espampanantes cozinhados, luxuriantes, sedosos, saudáveis, vegetarianos, asiáticos, portugueses, japoneses, italianos, tailandeses, mesmo que depois não ponha nada em prática. É só para me deliciar com os sabores e os aspectos, alguns truques que já incorporei (na cozinha tudo se incorpora), mas na maioria das vezes é apenas a sublimação de uma escrava de dietas.


Mas agora estou mais voltada para facas, facalhões, espadas, machados, setas, enfim, tudo o que corta, fere e mata.


Descobri, ou sejam deram-me a descobrir, um programa no canal História, que se chama Forged in Fire. O que tem isto a ver com História é um mistério, mas isso são ninharias e picuinhices, portanto ser do canal História, Odisseia ou Hollywood é a mesma coisa.


Ora esse programa não é mais que um MasterChef, mas de ferreiros.


O concurso consta de um grupo de ferreiros, profissionais ou amadores, ainda não percebi muito bem, que têm um determinado número de horas para fabricar uma faca. Há um júri, composto por 3 indivíduos, tanto quanto percebi experts em tudo o que corte, fira ou estripe, um com uns bigodes retorcidos, outro com um sorriso assustador e outro magrinho e com olhos alucinados. Há ainda o apresentador, que foi militar, com umas orelhas bastante proeminentes e uma pose marcial espectacular.


Habitualmente os concorrentes têm aspecto e arcaboiço condicentes com ferreiros: enormes nas várias dimensões corporais, muito frequentemente com adornos pilosos exuberantes, outras vezes de cabeças bastante rapadas. Mas o mais divertido é que são extremamente dóceis e polidos, aceitando sempre com grande urbanidade e desportivismo as críticas do júri e debandam depois das eliminações a que são sujeitos, sem usarem as ditas armas brancas que acabaram de fazer.


E muito espantada fico com a ciência e a enorme trabalheira por detrás de qualquer simples navalha. Há imensos tipos de metal, que se podem ir buscar a correntes de bicicleta ou a restos de tanques de guerra, que se misturam, aquecem e batem como o Cétautomatix do Astérix. Depois há a têmpera, que é o mergulho do metal incandescente em óleo, para que a lâmina fique dura. E ainda o cabo, todo um outro manancial de conhecimento e preparação, importantíssimo para o manejo da arma.


São habitualmente 4 concorrentes que vão sendo eliminados até ficarem 2. Esses têm depois uma semana para, na sua própria casa (forja), fabricarem uma arma icónica e histórica – talvez daí ser no canal História, quem sabe - que vai desde uma espada chinesa de tempos imemoriais a um machado com cachimbo dos índios americanos.


A final é entre esses 2 ferreiros e as suas obras são submetidas às provas mais inconcebíveis: bater em blocos de gelo, em troncos de madeira, cortar carcaças de porcos, furar e estripar bonecos feitos de gel balístico, cortar canos de água, enfim, tudo para ver se o gume aguenta, se o corte é limpo e se, no fim, como diz o jurado de sorriso assustador – your blade will kill.


Portanto para me afastar da paranóia da pandemia estou a transformar-me numa maníaca de facas – só espero que me mantenha tão contemplativa como com as opíparas refeições servidas e degustadas apenas com a imaginação.

21 fevereiro 2021

Dos travesseiros, almofadas e almofadões

organic house.PNGJavier Senosiain


 


Por muito que a decoração esteja na moda, há sempre artigos que estão mais na moda que outros. E designs e concepts, tal como o afamado e omnipresente open concept que agora é apanágio de todas as obras de remodelação, em Nashville, Canadá, Austrália ou Portugal.


Cores garridas, toques de modernidade e de personalidade (o que significa deixar alguma coisa que lembre o clássico de há 30 anos), enfim, uma revolução total naquilo que era o nosso concept, normalmente mais close que open.


Pelo menos para mim. Aqui há dias espreitei um programa que se chama Casa Nova Vida Nova, em que um exuberante e feliz designer transformou uma sala totalmente clássica numa outra às riscas azuis, com cores tipo fato de marinheiro que, se fosse comigo, me levaria a um enfarte do miocárdio fulminante.


Além disso os open concept fazem-me sempre lembrar os grelhados a permanecer em toda a sala, a roupa a secar como decoração interior pós moderna e as vassouras e baldes como (pouco) atractivos adereços, para não falar na louça espalhada pelas bancadas e pelas ilhas.


Sou retrógrada, certo. Pelo menos para certas coisas.


Mas vou-me adaptando a algumas necessidades mais imediatas e mais práticas, tendendo cada vez mais para o minimalista. Em confinamento, no entanto, tudo tem acrescidos desafios. Desde que me montaram o bendito sommier que procuro incessantemente travesseiros, sejam eles de rolo ou mais achatados, para colocar à cabeceira da cama, ocupando o espaço entre o colchão e a parede.


Muito difícil está a tarefa. Há pouquíssimos travesseiros, mesmo que os sommiers sejam inúmeros. E os hotéis estão repletos de travesseiros e almofadões enormes. Mas online não consigo encontrar nada que me satisfaça. Ou há travesseiros sem fronha, ou as fronhas são muito maiores que os travesseiros, ou os almofadões não têm a dimensão correcta.


Obras, remodelações e mudanças dão cabo de mim. Nunca me apetece arrumar nada. Descobrem-se coisas que pensávamos perdidas, perdem-se outras que achávamos a salvo. A minha mesa de cabeceira, que não foi substituída, contém uns porta-retratos de há séculos que não consigo guardar. Vão ali ficando e pegando de estaca. Mas a verdade é que, por muito que pense que é desleixo, se calhar é o meu subconsciente a implorar-me para que alguma coisa faça a ponte entre o que era e o que agora é.


E não é nada fácil – ver o que fui, perceber o que sou e tentar encontrar um fio condutor entre ambas.

Branco

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Ishibashi Yui


Não tenho por hábito olhar-me ao espelho. Não sei muito bem porquê, mas a pressa e o desinteresse são sempre dominantes. Por outro lado, nunca me achei bonita, por isso a motivação também não é grande.


Quando me olho atentamente é porque há alguma coisa próxima de preocupação de saúde – tenho algumas alergias e supervisiono manchas que se vão tornando mais notórias. Quando me vejo inadvertidamente há sempre uns segundos em que me pergunto quem é a pessoa à minha frente e, à medida que os anos passam, mais estranheza encontro nesse olhar.


Outro dia aconteceu um desses encontros de mim comigo. Após as obras de remodelação, a luz da casa de banho é muito melhor, mais branca e mais intensa. Descobri admirada que havia qualquer coisa brilhante que cintilava, espalhada pelo meu cabelo, que parecia um pó. Depois de ter sacudido rapidamente com a mão, percebi que não era pó cintilante, nem qualquer bocado de estuque que estivesse a desmoronar-se. Apenas os cabelos brancos que, num curto intervalo de tempo, se multiplicaram e se generalizam na minha cabeça.


Tornei a sacudir, com as duas mãos, alisando com os dedos o penteado despenteado que sempre uso, tentando disciplinar a finura e a revolução que quotidianamente se travam. Os brilhantes mudaram de lugar, mas lá continuam. Mesmo sem querer, durante uns meses parecerei penteada para festas inexistentes, até que haja mais branco e menos brilho na minha pessoa.

20 fevereiro 2021

Nada de novo

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Tommy Steele


 


Tal como alguém me disse não há nada de novo


para além do que temos nada de belo nem obscuro


para além dos dedos que desenham a vida


concreta quotidiana lisa cinzenta.


O que me entristece é que trancaram até as rosas


que nunca semeei que espalharam pelo campo


o rumor da desistência que transformaram em nuvens


o grito estridente da solidão.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...