14 novembro 2020

Filhos

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Tommy Craggs


 


Crio filhos como quem cria árvores.
Deixo-as varridas pelas intempéries
descobrindo pássaros e revivendo almas
dos que às suas sombras se recolhem.
De vez em quando arrastam braços
e arrancam raízes numa ânsia de movimento.
Nesses dias aparo troncos com sangue e lágrimas
cavo mais fundo a terra para que
do meu corpo se equilibrem de novo.
Aí para sempre me deitarei um dia dormindo
entre o lodo e a eterna revolução de viver.

10 novembro 2020

Novembro

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Fracture


Jannick-Deslauriers


 


Em frente a mim sem espelho nem nuvens


apreendo o espaço que me rodeia


respiro as últimas gotas de passado


encerro o pó e a juventude.


Não sei das janelas do futuro


nem dos ninhos de águas revoltas


que me arrastavam pela vida.


Mas ainda me esperam as papoilas de Novembro


e o doce sabor da aventura.


 

05 novembro 2020

Quinze (15) anos

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Quiet Whisper


Miertje Skidmore


 


Quinze anos se passaram desde que comecei este blogue. Quinze anos em que muito aconteceu e mudou, no mundo e em mim.


Olho para a realidade actual e pergunto-me em que medida fiz parte destes quinze anos, como terei eu participado, moldado ou sido moldada pelas torrentes que nos assolam diariamente, umas mais subterrâneas, outras mais transparentes.


Definhei, particularmente na cor com que olho para o presente e para o futuro. Vou emudecendo, de espanto e incapacidade de processar este novo anormal em que nos tornámos como comunidade. As convicções nos alicerces da liberdade e da democracia rudemente postas à prova perante tão avassalador ataque aos valores da justiça, solidariedade, independência, sabedoria, competência, humildade, todos aqueles que nos habituámos a associar à sociedade do novo milénio, em que o acesso à informação e à cultura, aos mais elementares meios de dignificação da vida seriam, pelo menos, mais alargados, em que a igualdade fosse mais espalhada.


Na verdade parece tudo estar a ruir. A inacreditável hipótese de reeleição de alguém como Donald Trump para a Presidência dos EU é assustadora. A falta de respostas dos sistemas democráticos, o deslaçar das sociedades, o aumento das desigualdades, da pobreza, da xenofobia, do racismo, com o consequente aumento dos populistas, é perigoso e parece não ter forma de ser detido. Os partidos da esquerda não têm sido capazes de dar respostas aos problemas cada vez mais urgentes e os totalitarismos já não são apenas larvares.


Na minha vida também aconteceram coisas muito boas. A internet tem lados negros mas é uma ferramenta poderosíssima no conhecimento, na informação, na criação de laços entre pessoas que, de outra forma, nunca se encontrariam. Conheci pessoas fantásticas, embrenhei-me em grupos, discussões, trocas de experiências, algumas negativas mas a maioria positivas. Estou mais velha mas fiz coisas diferentes e que nunca teria pensado fazer, tanto a nível profissional como pessoal. Publiquei 4 livros de poesia, mudei duas vezes de local de trabalho, participei na organização de vários eventos científicos, ri muito e chorei muito, zanguei-me muito, esperei muito.


Apesar do desânimo, sei que é passageiro. Espero ainda muito, de todos, mas principalmente de mim. Vai-se fazendo tarde e começa a faltar o tempo.

02 novembro 2020

Do atraso das bruxas

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Afinal até as vassouras estão com problemas, provavelmente devido à pandemia. E hoje chegaram as bruxas e os bruxedos a minha casa.


Começou logo de manhã, mesmo de manhãzinha. Como tenho treinos a toda a hora e momento, que se alteram consoante as possibilidades e as disponibilidades do serviço, é perigoso tomar por certo que os horários não precisam de ser confirmados diariamente.


Sendo assim, lá fui confiada e pontualmente às 07:30 para o ginásio, não sem antes andar de trás para a frente à procura de uma máscara que, pelos vistos, desapareceu durante a noite. É claro que a PT, que NUNCA se atrasa nem NUNCA falta não estava. Algo me disse que deveria confirmar o treino no calendário do telemóvel (agora até para entrar no ginásio é preciso a app no telemóvel) e, de facto, confirmei que NÃO havia treino.


Regressei a casa sem sequer fazer 10 minutos de passadeira. Há que aproveitar para descansar as perninhas.


Mas a manifestação das forças ocultas foi forte e avassaladora no momento em que quis calçar uns sapatos, dos poucos que se tinham salvo após a razia das mudanças. Ao andar deixavam uma estranha pegada negra. Decidi que estavam sujos e, depois de esfregar as solas com bastante entusiasmo, tentei de novo. Andar andei, mas os sapatos foram-se despedindo da vida aos pedaços, desfazendo-se à medida que dava passos decididos pela casa. Alguém foi lesto a comparar-me a um dos monstros do Exterminador Implacável, que se ia destroçando à medida que se deslocava, deixando pedaços de pés e pernas para trás. De facto os sapatos eram velhos. Na realidade não me lembro mesmo quantos anos já teriam, mas podiam ter escolhido uma forma mais discreta e menos abrupta de me avisarem da sua senescência.


Enfim, vamos ver o que ainda me aguarda. Mas que o dia está azarado, está.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...