19 abril 2020

A democracia não está suspensa

Tudo se aproveita para acirrar os ânimos do populismo. A última moda é o pseudo ultraje pelas comemorações oficiais do 25 de Abril de 1974.


Num País a cumprir a segunda renovação do estado de emergência, em que a excepção abre a porta aos desvarios totalitários, é indispensável que as Instituições democráticas permaneçam em funcionamento e que demonstrem que a democracia se mantém e vai continuar, mesmo contra os apelos virais de quem usa o medo para alimentar a raiva contra os representantes eleitos do povo.


O Parlamento está a trabalhar, como todos os que podemos devemos fazer, dentro dos constrangimentos da pandemia. A falta de respeito seria exactamente o contrário. E o CDS, à falta de ideias que o salvem da extinção, cavalga a onda e copia o estilo do CHEGA.


O facto de não podermos ir para a rua comemorar o 25 de Abril só avoluma a importância da cerimónia parlamentar. As comemorações do 1º de Maio, desde que obedeçam às restrições impostas, são absolutamente legítimas e somos livres de participar, ou não, como acontece todos os anos, desde o dia 25 de Abril de 1974.


 

16 abril 2020

Granizo

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Inverno


Maria Helena Vieira da Silva


 


Como se a vida ficasse para sempre suspensa


o granizo na janela lembra-nos que lá fora


os elementos persistem e não se cansam


a natureza não se importa com o nosso destino


natural como o vento e a terra desbravada


pela ânsia dos animais sem culpa


sinuosa como a memória dos que se despedem


e acendem luzes por trás das colinas.


 

15 abril 2020

Sem palavras

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Carta de amor numa pandemia vírica


Gaitas-de-fole tocadas na Escócia


Tenores cantam das varandas em Itália


Os mortos não os ouvirão


E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio


Quem pretendem animar?


As crianças?


Mas as crianças também estão a morrer


 


Na minha circunstância


Posso morrer


Perguntando-me se vos irei ver de novo


Mas antes de morrer


Quero que saibam


O quanto gosto de vós


O quanto me preocupo convosco


O quanto recordo os momentos partilhados e


queridos


Momentos então


Eternidades agora


Poesia


Riso


O sol-pôr


no mar


A pena que a gaivota levou à nossa mesa


Pequeno-almoço


Botões de punho de oiro


A magnólia


O hospital


Meias pijamas e outras coisas acauteladas


Tudo momentos então


Eternidades agora


Porque posso morrer e vós tereis de viver


Na vossa vida a esperança da minha duração


 


Mensagem de despedida da Professora Maria de Sousa (através de João Luís Barreto Guimarães, que traduziu).


 

12 abril 2020

Das festas que escolhemos

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Não tenho feito pão, nem bolos, nem compotas, nem licores, nem nada que se coma, para além do que já fazia antes do confinamento obrigatório – umas saladinhas, uns ovinhos cozidos, enfim, deixo a comida para o expert cá de casa.


Mas ontem resolvi recuperar um pouco da minha veia artística e inventiva e resolvi fazer uma mousse de chocolate, já várias vezes tentada e muitas sem grandes resultados.


Portanto comprei uma tablete de 200 g de chocolate negro com 70% de cacau, parti-o em pedaços para dentro de um tacho, juntei 150 g de açúcar, um bocado de leite do dia gordo (não medi, mas foram cerca de 100 a 150 ml) e, grande acrescento que aprendi por essa internet fora, uma colher de sopa de azeite. Sim, leram bem: uma colher de sopa de um bom azeite. Liguei o fogão baixinho, para o chocolate derreter e não queimar.


Entretanto tinha deixado 6 ovos fora do frigorífico para ficarem à temperatura ambiente – li algures que isso fazia tooooooooda a diferença. Separei as gemas das claras e mexi muito bem as gemas, com uma colher de pau, de forma a que se transformassem num creme amarelado e homogéneo.


Depois do chocolate ficar em papa com o açúcar, o leite e o azeite, tudo muito bem mexido, retirei do lume, deitei lá para dentro um bom golo de licor caseiro de poejo e, devagarinho e mexendo sempre com grande vigor (todas as minhas receitas necessitam e evidenciam enorme vigor), fui juntando o creme das gemas para se irem incorporando na papa de chocolate.


A seguir, sempre com o pensamento estratégico na finalização da dita mousse, que requer mais planeamento que o isolamento viral, bati as claras em castelo bem firme (o castelo, claro) com uma pitada de sal, outro dos grandes segredos mal guardados da culinária ancestral. Mal o castelo se manteve de cabeça para baixo sem sofrer a acção da gravidade, comecei a misturar levemente as claras com o preparado de chocolate, envolvendo-as delicadamente, desta vez sem qualquer vigor, para que a mousse ficasse leve.


Frigorífico com ela e hoje, após deglutir um cabrito que demorou séculos a assar, mas que estava delicioso (do qual não sei a receita porque não meti prego nem estopa na sua confecção), com esparregado e batatinhas novas com casca, foi devidamente apreciada por todos os que partilhamos a almoçarada.


Enfim, mesmo com as ameaças invisíveis que nos rodeiam tratámos de nos banquetear, celebrando a festa de estarmos juntos. E a festa somos sempre nós que a decidimos e escolhemos.

11 abril 2020

Da irrealidade dos dias que vivemos

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Via Sacra


Portinari


 


Não sei porque tentamos sempre encontrar uma explicação ou um propósito para o que nos acontece, individual ou colectivamente. Olhamos para os factos e pensamos sempre num qualquer propósito, num determinismo natural ou divino que faz com que os transtornos da vida tenham uma qualquer justificação e um qualquer significado moral. Não acho que o homem mereça os castigos divinos, que as doenças sejam uma punição ou que as calamidades naturais sejam a vingança de um qualquer deus.


Não acredito nisso. Não acredito na revolta da natureza transformada em pandemia vírica, na nossa redenção como cidadãos melhores, mais disponíveis e mais solidários no fim deste confinamento forçado. Aliás temo pelo adensar de situações de conflito e de violência, pelo tédio e ansiedade, pela depressão e pela escassez de dinheiro, pela confusão e pelo barulho, pela incapacidade de isolamento ou pela inusitada solidão.


O que podemos e devemos é tentar aproveitar esta situação para repensar algumas prioridades, refazer alguns processos e procedimentos, inventar formas de nos mantermos minimamente sãos. Assim, quando formos libertados, poderemos apreciar a vida mais livres e mais felizes.


Porque tudo isto há-de passar e seremos outra vez responsáveis e irresponsáveis, alegres e tristes, solidários e egoístas, como só os seres humanos sabem ser. E havemos de poder abraçar, apertar as mãos, beijar e mimar, quem nos apetece. E não haverá deus pequeno ou grande que no-lo possa impedir.

09 abril 2020

A Páscoa dos confinados

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O cabrito está no forno


O pão-de-ló a crescer


Nesta Páscoa sem retorno


Resistir é aprender


 


Sem a mãe à cabeceira


Para repartir o pão


Sem a graça que aligeira


O peso da comoção


 


Cada um tem seu tormento
que disfarça como pode
suspendendo o momento
se a tristeza lhe acode


 


Sacudir a incerteza


Abafar a solidão


O carinho sobre a mesa


Amêndoas de gratidão


 


O silêncio nos visita


A saudade nos acolhe


Do amor se necessita


No abraço que se escolhe


 

02 abril 2020

Os velhos

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Entrevista a Ramalho Eanes - RTP (01/04/2020)


 


São assim, os velhos. Repetem-nos aquelas coisas que nos fazem encolher os ombros e filosofar perante a decrepitude e a voracidade do tempo, perante a desadequação às modas e aos moderníssimos pensamentos, à moderníssima sociedade, à moderníssima actualidade. Tão previsíveis e, no entanto, tão agudos e certeiros no que de mais fundo e mais autêntico há nos seres humanos.


Os velhos, como se chamou Ramalho Eanes, com a voz tantas vezes embargada pela emoção e pelas lágrimas que engole. Sim, os velhos comovem-se muito e não se importam. Os velhos como ele a dizerem aquilo que nós nos esquecemos de sentir. Coisas tão simples como as inevitáveis e naturais escolhas que se fazem ao longo e no fim da vida, pela vida dos outros. Não para se gabarem, não para serem modelos, não para que os admirem, não para doutrinarem.


São assim, os velhos. Pelo menos alguns, pelo menos Ramalho Eanes. E era também assim o meu pai. Nunca como ontem a sua presença foi tão real e me foi tão dolorosa a sua ausência.

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