Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
A poesia é um dos grandes testemunhos da I Guerra Mundial. Muitos dos poetas eram jovens que combateram e morreram nas batalhas ou como consequência delas. A poesia foi um meio de expressarem o seu medo, a sua fúria, a sua tristeza, a sua vulnerabilidade. Transformaram-se nas vozes das consciências dos povos, pela sua comovedora sinceridade e honestidade, numa linguagem que se desligou de artificialismos formais e nos aproxima do sofrimento, da amizade e da solidariedade.
Muitos foram os que publicara os seus poemas durante a Grande Guerra, havendo inúmeras antologias já do pós-guerra.
Habituei-me a lidar com a exigência, a pontualidade, as regras, a voz de comando. Aprendi as conversas, os livros, a necessidade de pensar e reflectir. Cresci a sentir a seriedade, o sentido do dever, do serviço, da obrigação, da superação.
A minha casa era o espelho do que julgava ser o mundo. Sempre a fazer mais e melhor, independentemente de qualquer necessidade ou mesmo esperança de reconhecimento, fazer o máximo como um dever. À medida que os anos passaram percebi que a minha casa não era a norma, nem um hábito generalizado. À medida que fui assumindo outras responsabilidades reconheci que a minha casa era, de algum modo, extraordinária.
E ontem, mais uma vez, ao ouvir o que pessoas a quem tanto devemos diziam do meu pai, ao ver tanta gente a comover-se, a cumprimentá-lo e a agradecer-lhe o exemplo, ao ler o seu percurso descrito por pessoas estranhas à minha casa, posso assumir sem pudor que sou filha de um pai extraordinário.
A Clairière de l'Armistice é o local onde se encontra uma réplica da carruagem de comboio onde foi assinada a rendição da Alemanha, na I Guerra Mundial, a 11 de Novembro de 1918 e onde também foi assinada a capitulação da França, na II Guerra Mundial, a 22 de Junho de 1940.
Esta carruagem, no fim da I Guerra, foi colocada na zona onde está agora, não exactamente no mesmo sítio, tendo sido comprada pelo Governo Francês e restaurada para que fosse o símbolo vivo da vitória dos Aliados.
Mas Hitler, vingando-se dos Franceses quando, em poucas semanas, esmagou a França, decidiu que a suprema humilhação destes e a suprema vitória dele seria obrigar a França a assinar a sua rendição precisamente na mesma carruagem e precisamente no mesmo sítio. Para isso foram demolidas as paredes do museu para a conduzir exactamente ao mesmo local.
Após a assinatura do Armistício de 1940, a carruagem foi transportada para Berlim.
Em 1945, com o avanço das forças aliadas sobre Berlim, foi levada para a Turíngia, onde foi incendiada pelas SS por ordem de Hitler. A que vemos de novo na Clairière é uma carruagem adquirida novamente pelo governo francês, da mesma série da original (2419D), e recolocada com um museu adjacente.
Compiègne foi a última etapa. Tanto que ficou por ver, tanto que ficou por saber. As brumas adensam-se outra vez sobre a Europa. As crises da democracia, bem visíveis nos aproveitamentos populistas dos líderes de extrema direita, manipulando o medo do desemprego, e a insegurança, fazendo dos estrangeiros e dos refugiados o bode expiatório dos problemas económicos e do terrorismo, incentivando a xenofobia e o racismo, fazem temer uma nova ascensão das ditaduras, do nacionalismo e do racismo.
É essencial que nos lembremos do resultado dessas falácias e das manipulações que não são novas mas são sempre perigosas. É essencial que nos informemos e não cedamos ao medo. O conhecimento é o nosso melhor amigo.
Aproximando-nos já a largos passos do fim desta espécie de peregrinação, fomos para Albert, uma cidade no departamento do Somme, que foi vastamente martirizada durante a I Guerra Mundial, precisamente na Batalha do Somme, uma ofensiva dos exércitos aliados, especificamente do Francês e do império Britânico, contra o Alemão. Iniciou-se a 1 de Julho e terminou a 18 de Novembro de 1916 e foi a mais sangrenta da Grande Guerra, com cerca de 1 milhão de homens mortos ou feridos. O primeiro dia da batalha foi ainda a mais mortífera para os ingleses, que perderam 57.470 homens, entre Albert e Bapaume.
Em todo o caminho vamos encontrando vários memoriais e monumentos que lembram episódios da guerra, inúmeros cemitérios de australianos, ingleses, etc.. Um deles, que ficava no local mais elevado da Batalha, onde se encontrava um moinho, lembrava a bravura e heroicidade dos australianos.
Noutro local presta-se homenagem ao Regimento do Newfoundland, um território pertencente ao Império Britânico que foi quase totalmente dizimado nesse primeiro dia da Batalha do Somme - 80% de mortos, feridos e desaparecidos, a maior parte deles nos primeiros 30 a 60 minutos de combate. Vimos ainda outro monumento que recorda a utilização de tanques, em Poizières. Uma enorme quantidade de memoriais, cemitérios e locais de homenagem em relação aos caídos no Somme.
Chegados a Albert, num dia que começava a clarear, nada melhor que um café (que, convenhamos, poucos franceses sabem fazer) antes de nos aventurarmos pelo Musée Somme - 1916. Entrámos num café com aspecto simpático, decididos a beber um capuchino (deliciosa alternativa depois do meu companheiro se ter lembrado da iguaria). À porta dos toilettes um aviso importante e peculiar...
... apenas porque 5 minutos não dá para grandes leituras, mas mesmo assim...
... havia um confortável sofá para esperarmos, convidando a puxar de um livro.
Certos do grande amor pela literatura dos habitantes e visitantes de Albert, entrámos no museu do Somme. Depois de descermos para uma espécie de túnel subterrâneo, onde se encontrava um magote de adolescentes (ingleses) ruidosos de mais, assistimos primeiro a um filme de 15 minutos sobre a Batalha do Somme e os vários locais a visitar, para percorrermos depois uma espécie de trincheira onde se expunham várias cenas, muito bem montadas, sobre a vida dos militares nas trincheiras, com fardamentos, equipamentos, restos de armas e cacos de utensílios de todos os dias - higiene, saúde, alimentação, etc. - que dá uma ideia muito nítida do que deve ter sido aquele inferno e como se incorporava uma espécie de normalidade, inclusivamente com artesanato que os soldados faziam com os restos do metal das bombas, das balas, etc.
Há ainda uma vitrine que lembra os feridos na face e os problemas de reconstituição cirúrgica e da evolução das próteses, através de fotografias de uma associação criada na altura pelo Coronel Picot - Union des Blessés de la Face et de la Tête ou, mais prosaicamente,Gueles cassées. No fim da "trincheira" pudemos ver o que tinha acontecido com o militar do qual nos tinham dado, à entrada, uma reprodução da sua carta militar. Tinha morrido, como tantos e tantos outros.
Ficámos alojados mesmo em frente à Catedral, num turismo de habitação muito simpático. O fim de tarde e a noite estavam tão fantásticos que jantámos na esplanada do "La Basilique".
Toda a Flandres (na França e na Bélgica) foi transformada num enorme cemitério, na altura da Primeira Grande Guerra. Particularmente em Ypres, as ruínas em que ficou demonstra bem a violência dos ataques que sofreu. Todos os exércitos aliados tiveram pesadas baixas e os canadianos foram expostos aos primeiros ataques com gás mostarda por parte dos alemães.
Ypres - Catedral em ruínas
Na porta (Gate) de Menin Road (Menenpoort em flamengo), tal como ficou conhecida pelas tropas britânicas e dos países da Commonwealth que ali lutaram e morreram durante os anos da guerra, foi erigido um Memorial aos milhares de soldados que nunca foram identificados ou encontrados, sem sepultura conhecida. Os seus nomes estão gravados por todo o interior do memorial.
Este memorial foi inaugurado em 1927 e, um ano depois, um grupo de ilustres cidadãos de Ypres encontrou uma forma de mostrar a sua gratidão a todos os que tinham morrido pela libertação da Bélgica. Diariamente, às 20:00h, é tocado o toque militar aos mortos – The Last Post, na porta do Memorial, no lado oriental de Ypres. A primeira cerimónia foi a 1 de Julho de 1928 e, desde esse dia, com um intervalo de alguns meses até 11 de Novembro de 1929, todos os dias à mesma hora é tocado o last post, com excepção dos 4 anos da ocupação germânica de Ypres, durante a II Guerra Mundial (20 de Maio de 1941 a 6 de Setembro de 1944).
Todos os dias se junta uma multidão, aguardando a cerimónia. Repentinamente faz-se um silêncio total e todos os que conversavam animadamente se calam ao som das cornetas. É muitíssimo dramático e comovente e eu, que muito facilmente me comovo, chorei mesmo durante aqueles minutos. Há sempre alguém que declama uma das estrofes de um poema de Robert Laurence Binyon – The Fallen:
They shall grow not old, as we that are left grow old:
Age shall not weary them, nor the years condemn.
At the going down of the sun and in the morning
We will remember them.
Este foi um dia muito preenchido por emoções, como todos os que dedicamos a conhecer e a visitar tudo o que tem a ver com as duas grandes guerras. Já durante a manhã tínhamos visitado o Cemitério Militar Português de Richebourg, onde estão sepultados 1831 corpos de soldados portugueses, 238 sem identificação, mortos durante a campanha do Corpo Expedicionário Português, predominantemente na batalha de La Lys.
Tanta juventude ceifada por todo o lado, nesta Europa que deveria ter aprendido com a sangria de 1914 – 1918, que voltou a sangrar entre 1939 e 1945, e que está, a pouco e pouco, a ressuscitar tantos fantasmas que julgávamos enterrados de vez, como a xenofobia e o racismo.
Lille
Visitámos ainda, ao pé de Lille, na vila de Ascq o local aonde se deu o massacre de Ascq – uma resposta mortífera e totalmente desproporcionada de tropas alemães a um atentado feito pela Resistência (1 de Abril de 1944) a um comboio que transportava equipamento militar alemão. Do atentado não resultaram feridos e os danos materiais forma mínimos, mas as tropas SS chacinaram 80 civis. O local passa totalmente desapercebido e, pelo estado em que se encontra, dá a sensação de que os próprios franceses não lhe dão qualquer importância.
O dia acabou num excelente restaurante em Ypres, onde também se vendiam louças e outros utensílios e decorações de cozinha, chamado DÉPOT. Uma tábua de queijos, patés e enchidos, bem regados com cerveja, da menos alcoólica, diga-se, pois as da casa, premiadas, tinham cerca de 8 graus, deu-nos o alento que necessitávamos depois de tão grandes emoções.