Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Há pouco vi uma ligação que alguém colocou, no facebook, de uma gravação de Casta Diva cantada por Maria Callas. Fui ouvi-la, assim como a variadíssimas interpretações da mesmíssima ária da ópera de Vicenzo Bellini, antes de ir pesquisar exactamente o que dizia Norma, assim como a sinopse da história (libreto de Felice Romani).
Transcrevo aqui a letra no original e a sua tradução em inglês. Norma é uma Grande sacerdotisa da Gália, na época da ocupação romana (50 AC); os Druidas vêm pedir-lhe a sua autorização (a sua bênção) para se revoltarem contra os ocupantes, mas Norma convence-os de que não chegou ainda a altura de fazer, movida pelo seu amor secreto, que era Romano. Casta Diva é uma prece que Norma dirige à Lua, para que acalme os espíritos revoltosos dos Druidas, confessando o seu amor e dizendo que tudo fará para o proteger.
De todas as interpretações que ouvi a que mais me agradou foi a de Cecilia Bartoli, em que a excelência da voz se une à delicadeza de quem reza e de quem sofre por amor.
Casta Diva, che inargenti O pure Goddess, who silver
queste sacre antiche piante, These sacred ancient plants,
a noi volgi il bel sembiante Turn thy beautiful semblance on us
senza nube e senza vel... Unclouded and unveiled...
Tempra, o Diva, Temper, o Goddess,
tempra tu de cori ardenti The brave zeal
tempra ancora lo zelo audace, Of the ardent spirits,
spargi in terra quella pace Scatter on the earth the peace
che regnar tu fai nel ciel... Thou make reign in the sky...
Fine al rito: e il sacro bosco Complete the rite : and the sacred wood
Sia disgombro dai profani. Be clear of the laity.
Quando il Nume irato e fosco, When the irate and gloomy God
Chiegga il sangue dei Romani, Asks for the Roman’s blood
Dal Druidico delubro My voice will thunder
La mia voce tuonerà. From the Druidic temple.
Cadrà; punirlo io posso. He will fall; I can punish him
(Ma, punirlo, il cor non sa. (But my heart is unable to do so).
Ah! bello a me ritorna (Ah! Return to me beautiful
Del fido amor primiero; In your first true love;
E contro il mondo intiero... I’ll protect you
Difesa a te sarò. Against the entire world.
Ah! bello a me ritorna Ah! Return to me beautiful
Del raggio tuo sereno; With your serene ray;
E vita nel tuo seno, I’ll have life, sky
E patria e cielo avrò. And homeland in your heart.
Ah, riedi ancora qual eri allora, Ah, return again as you were then,
Quando il cor ti diedi allora, When I gave you my heart then,
Como todos os sábados, ouvi calmamente o programa da Antena 2 Um certo olhar, com Gabriela Canavilhas, Luísa Schmidt, António Araújo e Luís Caetano. Como era de esperar falou-se no escândalo da última semana em relação à especulação jornalística e à instrumentalização política da desgraça, concretamente, do número de mortos no incêndio de Pedrógão Grande.
Independentemente do que concordei ou não concordei com o que foi dito, não deixa de me espantar a cuidadosa fuga dos presentes (com exceoção de Gabriela Canavilhas) em criticarem abertamente o Expresso pela divulgação de uma notícia objectivamente falsa, e também a generalização da crítica aos políticos pela utilização deste assunto como arma de arremesso político.
Na verdade foi o Expresso que, a 22 de Julho, faz uma capa em que afirma que a lista oficial dos mortos no incêndio exclui as vítimas de Pedrógão. Imediatamente após desta notícia o PSD e o BE reagiram pedindo explicações ao governo, lançando portanto o anátema de que o governo estava a esconder informação e que tinha obrigação de provar que não estava, tendo Assunção Cristas reagido mais tarde, na exigência de toda a verdade. Apenas o PCP se absteve de alimentar a polémica. Catarina Martins recuou dois dias depois, enquanto o PSD subiu de tom e, de forma insana, faz ultimatos e coloca prazos de resposta.
Portanto: não foram os políticos que instrumentalizaram o assunto, foram alguns políticos do PSD, do CDS e, inicialmente, do BE, enquanto o PCP se demarcou e o PS reagiu escandalizado.
Por outro lado é muito interessante observar o facto de António Araújo desvalorizar a responsabilidade do Expresso, assumindo no entanto que se fosse verdade (que havia mortos escondidos) seria grave. Como se verificou que era mentira, já não é grave o artigo (e a insistência) do Expresso?
A desvalorização e a generalização destes episódios inenarráveis são perigosas. Os políticos e os jornalistas não são todos iguais. Além disso parece que Francisco Pinto Balsemão se indigna com as falsidades divulgadas pelas redes sociais. São, de facto, horríveis, mas as redes sociais não são jornalismo. As responsabilidades não são as mesmas, como ele muito bem sabe, e as exigências também não. Ou será que os jornalistas do Expresso usam os métodos e agem com a ligeireza daqueles que twitam e divulgam disparates?
Mesmo depois de tudo o que aconteceu, o Expresso publica editoriais e outros artigos de opinião em que, em vez de se desculpar, tenta justificar o injustificável, virando os factos de forma a fazer crer que tinha toda a razão e que os outros - mais uma vez os políticos - é que tinham usado mal uma profunda e certeira reportagem, agitando o ataque à liberdade de imprensa e outros chavões como manobras de diversão.
É muito triste assistir a este descalabro no jornalismo livre e independente. Porque livre ele é, independente, já duvido, e jornalismo, é que não é mesmo.
Nota: Tem-se criticado a empresária que terá sido a fonte da notícia do Expresso. Mas quem tem a obrigação de verificar as fontes não são os jornalistas?
Em 54 espectáculos, cerca de 2 por ano, o Teatro Meridional foi criando peças inesquecíveis, em que a simplicidade dos cenários e da música, a magia das palavras, ou mesmo a sua quase ausência, associadas e interligadas com o espantosa performance dos actores, fizeram e fazem a sua imagem de marca - qualidade, ternura, inteligência, humor. Esta qualidade tem vindo a ser reconhecida pelas dezenas de prémios com que tem sido distinguido, e pela presença do público incondicional e cada vez mais numeroso.
Desde há cerca de 15 anos que têm o seu espaço próprio no Beco da Mitra, a melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo, como diz Miguel Seabra que, com Natália Luíza, dirige esta família de gente de excepção. Não faltam o café e o chá, o bolo, as mantas no Inverno e os leques no verão, tantos toques de atenção particular que, também por isso, fazem do Meridional um Teatro único.
Sinto-me uma privilegiada por ter podido partilhar estes 25 anos. Sempre que vou assistir a uma das suas peças, saio de lá mais atenta, mais alerta, mais feliz.