metal crabs
Fatias deste denso Verão
que fumega embranquecido de névoa
que derrete estarrecido de sede.
Olhamos de um e de outro lado
amodorrados e dolentes despedindo
o pensamento em pousio.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
metal crabs
Fatias deste denso Verão
que fumega embranquecido de névoa
que derrete estarrecido de sede.
Olhamos de um e de outro lado
amodorrados e dolentes despedindo
o pensamento em pousio.
Ontem fui ver o filme The sense of an ending. Tal como o livro, capta este dilema com que nos defrontamos ao revisitar a vida, as relações que tivemos, as aspirações, as desilusões, os caminhos que fomos percorrendo empurrados pelo caos ou pelo acaso. Excelentes actores, excelente atmosfera, numa adaptação muito feliz deste grande livro de Julian Barnes.
A forma como nos lembramos dos acontecimentos, sejam eles individuais ou coletivos, pode não ter nada a ver com a realidade. Aliás, o que é a realidade? Como registar os testemunhos das pessoas que, cada uma à sua maneira, com as suas vivências, as suas emoções, os seus receios, as suas capacidades e competências, nos soam tão diferentes? Cada olhar, cada vida, cada processamento dos acontecimentos é único e aparece como a única realidade. E todos processamos a nossa história protegendo-nos, guardando apenas o que menos nos dói ou afoga, o que mais nos ilustra e melhora, numa narrativa de boas intenções e pequenas vitórias, enterrando as cobardias, as indignidades, as mediocridades, a irrelevância de cada existência.
Quando falamos da nossa memória colectiva, de como nos esquecemos dos tempos traumáticos, das políticas transviadas, de políticos que não souberam ou não quiseram fazer serviço público, percebemos que, no fundo, estamos apenas a preservar a nossa imagem como povo, empurrando para as catacumbas os maus momentos, as más pessoas, apenas porque nos é penoso aceitar que confiámos e acreditámos em quem não merecia, que não soubemos ler para além da superfície.
Para mim, e fazendo a minha autoinvestigação retrógrada, é bastante óbvia a percepção que construí de José Sócrates. Nada do que possa agora pensar ou dizer apaga a inacreditável e assustadora incapacidade da Justiça, o perigo para a democracia e para a segurança dos cidadãos da inexistência de um Estado de Direito que o seja. O que realço é a minha própria resistência em ver e interpretar palavras, respostas, atitudes que, segundo as habituais normas de conduta pessoal e social, alteram e deslustram a imagem que dele fiz, ao longo destes anos. Não me é possível fechar os olhos e tapar os ouvidos às declarações, artigos e entrevistas que tem dado em todo este processo Kafkiano. Não me é possível, por muito que a dúvida sistemática e a crítica científica me guiem, aceitar como normais as amizades desinteressadas dos seus milionários amigos, as contraditórias versões que vai fornecendo, por si ou através dos seus advogados, a alteração de argumentos à medida das necessidades. É-me muito penoso olhar-me ao espelho e pensar que me deixei enganar, manipular, encantar, acreditar, na boa-fé de quem nos governou durante tantos anos.
Não estão em causa a legitimidade e a implementação de medidas, muitas de grande coragem e visão. Mas a verdade é que votamos em pessoas, mesmo que intelectualmente saibamos que são orientações políticas que estamos a escolher, mas estas só se concretizam com a actuação de pessoas para pessoas, e são sempre elas que mais importam. Por isso mesmo entendo o quão difícil é encararmos as nossas dúvidas, revermos a história que construímos com os factos que escolhemos, alterámos ou embelezámos, redescobrir aqueles a quem amámos, admirámos ou seguimos, os nossos líderes, amantes, amigos ou adversários, porque somos sempre nós, como seres individuais ou como comunidade, que colocamos em causa.
Somos mais do que nos lembramos e as nossas memórias moldam uma imagem que nos conforta. A sua revisitação é uma viagem dolorosa a que, mesmo sem aviso, o destino nos obriga.
(...) O que nos caracteriza geneticamente é que temos uma mistura notável de genes com as mais variadas origens. E se pudesse identificar uma característica quase única entre nós era essa mistura genética (...)
(...) Temos de ser exemplares, de cima para baixo, na organização social e na selecção das lideranças, o privilégio tem de ser acompanhado de responsabilidade (...)
Confesso que tive vergonha alheia ao ver a entrevista feita por José Gomes Ferreira a António Costa. Ele está mesmo convencido que é um Ministro sombra, antes das Finanças, agora Chefe de Governo, discípulo de Passos Coelho.
Felizmente temos um grande Primeiro-ministro, sereno e com sentido de humor!
Hours
A cada tarde que desperdiço
em langores dispensados de pensamento
em cada noite que mortifico
de culpas somadas à vigília
sinto-me a correr para um fim
de qualquer coisa talvez da vida
que deixo escorrer pelas janelas
pesadas de quietude
e de promessas por cumprir.
Tantas viagens programadas
tantos os caminhos percorridos
tantas palavras inventadas
no silêncio de mim mesma.
E mastigo os dias sem reparar
que se encurtam as viagens os caminhos
as vigílias os langores as promessas
que se movem as horas inexoráveis e vazias
para o fim.
Explosões ao domicílio:
fragmentos de carne a peso
e sangue sem medida conhecida.
As almas serão apenas derramadas
nos cartazes da publicidade oferecida.
Maria dos Cacos era, na verdade, Maria Póstuma, o nome da primeira grande ceramista de Caldas da Rainha. Filha e neta de oleiros, nascida no...