12 maio 2017

Do deambular sem fronteiras

IMG_20170511_130037.jpg


Citadela de Biche


 


 


A Europa é isto mesmo, passear do Luxemburgo para França, de França para a Alemanha, da Alemanha para França de novo, sem passaportes, alfândegas e polícias, sem trocar de moedas, sem trocar de carro, etc. É já difícil lembrarmo-nos de como era antes de existir um espaço comum, em que há livre circulação de pessoas e bens.


 


Deambulando pela região de Saar ou de Sarre, conforme em Alemão ou Francês, passando por Sarreguemines, uma vila mesmo junto à fronteira franco-alemã, parámos para uma pausa de chocotat chaud aux menthe. Arrancando depois pela Forêt des Voges até Bitche que descobrimos por acaso, mas com uma citadela lindíssima e uma vista deslumbrante pela região. O senhor que vendia os bilhetes e nos deu explicações sobre a visita era luso descendente e, com um grande sorriso e uma extraordinária amabilidade, falou-nos em português, desculpando-se pela sua insuficiência, que era inexistente, e pelo seu carregado sotaque.


 


O almoço foi despachado num Kebab, nome de restaurante que não engana nas origens, onde servem umas saladas muito interessantes, a muito bom preço, e que respeitam (mais ou menos) os rigorosos limites dietéticos. Vi várias pessoas irem buscar sanduíches e pratos de kebab para almoçarem noutro local. Sempre que falamos dos imigrantes esquecemo-nos rapidamente como eles se inserem nas nossas comunidades, nos nossos hábitos e nas nossas necessidades, nomeadamente a nível gastronómico.


 


Continuando até Climbach, onde ficaríamos para visitarmos o Forte de Schoennenourg, passamos por várias aldeias/ vilas que pareciam desertas. Nem vivalma na rua, mesmo com as casas de tipo alsaciano cuidadas, com os jardins e as sebes arranjadas, cortinas nas janelas, enfim, parecia que algum extraterrestre as tinha raptado.


 


O mesmo em Climbach. Localizámos o Hotel, parámos o carro e batemos à porta (fechada) várias vezes. Nada, ninguém, silêncio absoluto, fora e dentro. Demos a volta ao edifício, uma casa com a arquitectura típica desta zona, muito bem arranjada, mas com aspecto abandonado. Batemos nas traseiras, uma e outra vez, e nada. Mais uma vez temendo o desastre, decidimos telefonar ao Hotel. Atendeu-nos uma senhora a quem dissemos que estávamos à porta.


 


Lá nos abriram, com grandes desculpas e sorrisos, uma senhora já com alguma idade e, talvez, um pouco dura de ouvido. Escalámos as escadas e todos os nossos receios se desvaneceram – lindíssimo quarto, confortável, com uma banheira daquelas que quase precisa de livros de instruções, cama grande, tudo espaçoso e acolhedor.


 


Com grandes suspiros de alívio, preparámo-nos para encontrar a linha Maginot.

Dos planeamentos ineficazes

IMG_20170510_181659_BURST003.jpg


Luxemburgo


 


Exactamente, de partida, feliz e contente, malas aviadas a preceito e revisão oral da matéria, antes de fechar a porta de casa às 06:00 da manhã, para que tudo se proceda de modo calmo e fluido no aeroporto: cartão do cidadão, cartão de embarque, cartão de crédito, aluguer de carro e reservas de hotéis, tudo na sua ordem perfeita e natural.


 


Avião maneirinho, viagem sem história, bagagem sem mácula, empresa de rent a car facilmente acessível. Bonjour madame, bonjour monsieur, entregamos o comprovativo previamente impresso (à antiga portuguesa), et voilávotre permis de conduire, madame, s'il vous plait...


...esquecido em casa, ou deverei mesmo dizer, cuidadosamente deixado de parte com os papéis e a chave do carro, dos quais não iria obviamente necessitar. Portanto tudo em meu nome, pagamento, cartão de crédito, etc., e nada de carta de condução. E não, não se poderia aceitar a carta da minha cara metade parce que vous n’avez pas le méme nom de famille!


 


Depois de um pequeno mas intenso momento de pânico silencioso, a simpática senhora que nos atendeu lá foi pedir autorização para mudar tudo para o nome do meu apreensivo e ligeiramente irritado esposo.


 


En route, enfin! Allons enfants pour l´hôtel. E chegámos sem problemas, a um IBIS que, como é hábito, é de dimensões bastante diminutas...


...mas também não era preciso exagerar. O parking era minuscule, sendo as manobras para entrar e sair do dito trabalhosas e delicadas. Lá retirámos as malas, subindo dois íngremes lanços de escada até à recepção. Entrar no quarto revelou-se um verdadeiro dilema, pois o objectivo era cabermos os dois. Entrava um, arrastava-se a cama, felizmente com facilidade, voavam as malas por cima, e só depois entrava o outro. A casa de banho revelou-se um prodígio de malabarismo, mas nada que nos retirasse a felicidade.


 


Cidade plana e simpática, com portugueses nas esquinas, nos cafés, nas lojas, a passear, à espera de autocarro. Na fachada do edifício da Caixa Geral de Depósitos um enorme painel de azulejos da Fábrica de Sant’Anna. O tempo ajudou e o passeio foi agradável, mas Luxemburgo não me deixou impressionada.

09 maio 2017

I’m a Stranger Here Myself

anne sofie von otter.jpg


Anne Sofie von Otter


fotografia de Ewa-Marie-Rundquist


 


 


Muitos parabéns a Anne Sofie von Otter, que faz hoje anos. É uma excelentíssima mezzo-soprano que eu admiro imenso.


 


Ouvi-a hoje, numa canção de Kurt Weill, com letra de Ogden Nash, do disco Speak Low com John Eliot Gardiner). 


 



 


 


Tell me is love still a popular suggestion


Or merely an obsolete art?


Forgive me for asking, this simple question


 


 


I'm unfamiliar with his heart


I am a stranger here myself


 


Why is it wrong to murmur, "I adore him"


When it's shamefully obvious I do?


Does love embarrass him, or does it bore him?


I'm only waiting for my clue


I'm a stranger here myself


 


I dream of a day of a gay warm day


With my face between his hands


Have I missed the path? Have I gone astray?


I ask but no one understands


 


Love me or leave me


That seems to be the question


I don't know the tactics to use


But if he should offer


 


A personal suggestion


How could I possibly refuse


When I'm a stranger here myself?


 


Please tell me, tell a stranger


My curiosity goaded


Is there really any danger


That love his now out-moded?


 


I'm interested especially


In knowing why you waste it


True romance is so fleshly


With what have you replaced it?


 


What is your latest foibal?


Is Gin Rummy more exquisite?


Is skiing more enjoyable?


For heaven's sake what is it?


 


I can't believe


That love has lost its glamor


That passion is really passé


If gender is just a term in grammar


How can I ever find my way?


Since I'm a stranger here myself


 


How can he ignore my


Available condition?


Why these Victorian views?


You see here before you


 


A woman with a mission


I must discover the key to his ignition


And then if he should make


A diplomatic proposition


 


How could I possibly refuse?


How could I possibly refuse


When I'm a stranger here myself?

Dos preparativos

luxemburgo pintura.jpg


Harry Rabinger


 


 


A idade traz destas coisas: não só ficamos mais vagarosos, a mexer-nos, a pensar, a decidir como, e talvez por isso, mais cautelosos, mais pensativos, mais prudentes. Planear uma viagem de 10 dias com alguns jovens adultos por perto, habituados a ver num avião um sucedâneo de um autocarro ou de um comboio, com inúmeras vantagens, é um exercício de divertimento dos mesmos perante a abordagem de expedição ao fim do mundo a que assistem.


 


Para mim o planeamento e a antecipação de uma tão desejada viagem são elementos indispensáveis para a felicidade, que começa precisamente pela degustação do prazer que se vai ter. Além disso, como somos nós próprios a fazer tudo, desde a criteriosa escolha dos locais a visitar, necessariamente muito poucos em comparação com o desejado, usando todas as ferramentas antigas e modernas, até às marcações das viagens, reserva de hotéis, carros de aluguer, museus, monumentos históricos, etc., a viagem não se reduz a ela própria mas expande-se a toda a uma constelação de cumplicidades e gozo da antevisão do paraíso.


 


Sob o olhar de condescendência ternurenta dos profissionais, imprimimos os cartões de embarque, os comprovativos do aluguer da viatura, os comprovativos dos hotéis, carregamos e actualizamos o GPS, confirmamos as previsões meteorológicas (que muitas vezes não acertam), avaliamos as possíveis dimensões e pesos das malas, ponderamos a necessidade de agasalhos, listamos os medicamentos (sim, também já temos essa parte), pedimos o táxi para o aeroporto, fazemos as contas aos horários para não nos atrasarmos, etc.


 


Se pensar bem, a primeira vez que me lembro de ter viajado de avião para um país estrangeiro - para França (não contando com Angola e Cabo Verde que, quando lá vivi, não eram estrangeiros) - já era (jovem) mãe de 2 filhos. Por muito que as viagens pela Europa se tenham banalizado, se calhar nunca conseguirei encará-las com a naturalidade de quem já nasceu numa Europa sem fronteiras e sem passaportes, que é o caso do pessoal mais novo. A liberdade de circulação de pessoas e bens é uma grande conquista do espaço europeu e uma grande vantagem destas gerações em relação à minha. A casa deles é mesmo o mundo.


 


Pois bem, estou de partida para uns dias de recreio e evasão.

07 maio 2017

Éramos mães

family.jpg


Family of Birmingham


Gillian Wearing


 


 


 


Éramos três mães e oito filhas e filhos.


Tão poucas mães para tantos filhos e filhas


que se vão alastrando e diluindo


refazendo e diferindo


noutros pais e mães


o total da soma de todos os filhos e filhas


e de todas as mães


desde que o jardim de pai e mãe


passou a ser a terra de filhas e filhos.

06 maio 2017

Youkali

 



 


Kurt Weill & Roger Fernay & Teresa Stratas


 


C’est presque au bout du monde


Ma barque  vagabonde


Errant au gré de l’onde


M’y conduisit un jour


L’île est toute petite


Mais la fée qui l’habite


Gentiment nous invite


À en faire le tour


 


Youkali, c’est le pays de nos désirs


Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir


Youkali, c’est la terre où l’on quitte tous les soucis


C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie


L’étoile qu’on suit, c’est Youkali


 


Youkali, c’est le respect de tous les vœux échangés


Youkali, c’est le pays des beaux amours partagés


C’est l’espérance qui est au cœur de tous les humains


La délivrance que nous attendons tous pour demain


 


Youkali, c’est le pays de nos désirs


Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir


Mais c’est un rêve, une folie


Il n’y a pas de Youkali


Mais c’est un rêve, une folie


Il n’y a pas de Youkali


 


Et la vie nous entraîne


Lassante, quotidienne


Mais la pauvre âme humaine


Cherchant partout l’oubli


A, pour quitter la terre


Su trouver le mystère


Où nos rêves se terrent


En quelque Youkali


 


Youkali, c’est le pays de nos désirs


Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir


Youkali, c’est la terre où l’on quitte tous les soucis


C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie


L’étoile qu’on suit, c’est Youkali


 


Youkali, c’est le respect de tous les voeux échangés


Youkali, c’est le pays des beaux amours partagés


C’est l’espérance qui est au cœur de tous les humains


La délivrance que nous attendons tous pour demain


 


Youkali, c’est le pays de nos désirs


Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir


Mais c’est un rêve, une folie


Il n’y a pas de Youkali


Mais c’est un rêve, une folie


Il n’y a pas de Youkali

Dos populismos caseiros

rui moreira.jpg


 


A peseudo-tragédia das candidaturas da autarquia portuense, com a pseudo-bravata de Rui Moreira contra as declarações de Ana Catarina Mendes, é uma pequena amostra, para quem ainda não quis ver, do que é o populismo dos tão propalados independentes.


 


Rui Moreira é mais um exemplo do nojo anti-partidário com tiques autoritários e trauliteiros, neste caso com a pronúncia do norte. É fantástico, muito sério e muito honesto e não precisa nada da peçonha partidária, com excepção dos votos, claro.


 


Manuel Pizarro é bom como cidadão, mas como dirigente do PS deve ser mantido a uma sanitária distância. Nada de lugares para os membros dos partidos, deles só necessita da campanha, da máquina de angariar votos e do trabalho posterior.


 


A responsabilidade é mesmo do PS, não por causa das observações de Ana Catarina Mendes que, mesmo que infelizes, não me parecem graves a nenhum título, mas porque prescindiu de assumir um candidato, mesmo não ganhador.


 


Espero que Manuel Pizarro se candidate autonomamente e que defenda as suas ideias e os votos no seu partido. A democracia sem partidos e com movimentos abrangentes e de cidadãos todos eles muito fantásticos, sérios e apartidários, é uma falácia que só quem não quer não entende. E talvez os portuenses o possam dizer nas urnas.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...