28 fevereiro 2016

Ofício das ondas

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Adam from roots


Michele Oka Doner


 


 


1.


Amadurecem as árvores calcinadas


raízes de ossos e pedras.


O ofício das luzes que despertam


e diariamente arrancam fibras secas.


O ofício das ondas que as mães desdobram


na ternura das despedidas.


Abrem folhas que rezam desmaiadas


de mansidão na revolta do fim.


 


2.


Não me conheço nestas manhãs de gelo


em que o mundo infiltra agasalhos sem afecto.


Nas tuas mãos encontro consolo


como a terra macia que me espera.


 

Correntes d'Escritas 2016

correntes descritas 2016.png


 


Em O Silêncio dos Livros José Tolentino Mendonça falou-nos da necessidade do mesmo para quem trabalha a palavra, dos sentidos, dos paradigmas em mudança, da massificação e do autoritarismo das normas.


 


Em Não me interpretem mal - os protagonistas do Governo Sombra, da forma bem disposta que lhes é habitual, levantaram o problema da ameaça à liberdade de expressão por parte dos bem intencionados autoritarismos, nomeadamente de esquerda. O incómodo e a ofensa de alguns, minorias ou maiorias, não pode justificar o silenciamento das mais variadas formas de expressão.


 


Como fugir ao que já foi escrito - interessantíssima tertúlia onde realço João Felgar, que de juiz passou a escritor, contra os avisos de quem lhe disse que tudo já tinha sido escrito, mesmo contra os conselhos de editores que enaltecerem as virtudes, a técnica e a facilidade do género policial, desde que o autor desse a entender escrever sobre casos por si protagonizados, mesmo contra o torcer do nariz editorial sobre temas nunca antes tratados, como as ratazanas do convento de Mafra.


 


Tradutores, contrabandistas da literatura - uma mesa em que a importância e a delicadeza da tradução foi discutida, assunto a que somos habitualmente alheios e distraídos. E no entanto os tradutores são os responsáveis pela divulgação da maior parte da literatura. Sem eles não nos seria possível termos acesso a livros de outras línguas que não as nossas e a obras de William Shakespeare, traduzidas por Ana Luísa Amaral, ou de Milan Kundera, traduzidas por Inês Pedrosa.


 


Escrevo o que quero escrever, nunca escrevo o que quero - a partir desta frase contraditória e quase misteriosa, falou-se de liberdade, de política e do comprometimento do escritor ou da sua falta, e da impossibilidade de atingir a perfeição.


 


Em Escrever é ganhar e perder - assisti a uma magistral lição sobre Literatura e História, pela voz de Miguel Real, sobre os grandes perdedores em vida/ ganhadores após a morte, de 4 escritores portugueses - Luís de Camões, Padre António Vieira, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.


 


Neste congresso literário, a que assisto pela segunda vez, toquei ao de leve aquele mundo paralelo que tanto me encanta. Os burburinhos, as conversas entre os vários escritores, as histórias contadas com a graça e a confiança de quem já anda nestes mundo há muito tempo, mostram um canto da existência e uma parte da nossa grande riqueza cultural, aquela área em que se deveria investir para melhorar a economia do País. Ainda bem que, finalmente, o Ministro da Cultura esteve presente na sessão de abertura.


 


Javier Cercas foi o vencedor do Prémio Casino da Póvoa com o livro As leis da fronteira. É um autor que conheço de livros anteriores muitíssimo bons, pelo que estou muito curiosa para ler este e sobretudo o anterior

21 fevereiro 2016

Da confiança - Orçamento de Estado aprovado

A direita desesperada tem produzido afirmações absolutamente obscenas, mas que não parecem indignar os nossos comentadores do costume. Não se sente o sobressalto ao ouvir o ridículo de afirmações como a de Passos Coelho, que acusa o governo de ajoelhar perante a Europa. É de uma desvergonha a que não consigo habituar-me.


 


Entretanto e calmamente, ao fim de tantos profetas da desgraça a vaticinarem as reticências do PCP e do BE, eis que o Orçamento será aprovado por toda a esquerda parlamentar, cumprindo o compromisso que a que se obrigaram - o PS a governar com o acordo do PCP, do BE e dos Verdes, O PCP, o BE e os Verdes a apoiarem o governo do PS.


 


Para o ano, logo se vê.

Demasiado

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Lenhador


 


Tudo é demasiado nesta praia que desmaia


tudo em demasia nesta fria


mansidão da desistência.


O amor como penitência


em desalmada vontade de não ser.

14 fevereiro 2016

Desalmada

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Me ocupas la mitad del corazón,


un pulmón, una oreja, un brazo, un ojo,


una pierna, un riñón, medio cerebro.


Me inutlizas la mitad de mí,


funciono a medio gas, respiro poco,


me muevo con torpeza, pienso mal,


me fatigo, soy lenta.


Del alma no te basta la mitad,


me la has robado toda.


 


Amalia Bautista


Falsa Pimienta


Editorial Renacimiento


2013

13 fevereiro 2016

Dedos

 


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Edward Fleming


 


 


Fogem-me os dedos pelos machados


cortando pedaços de abandono


que sangram copiosamente


e empapam de palavras


os gestos decepados que se ignoram


os olhos que se encerram e evaporam.


 


Espantam-me os dedos isolados


das mãos e dos braços afastados


almas empoeiradas e esquecidas


enterradas em poemas por dizer.

  Erwin de Vris Aguardo. A música varre o tempo amena a brisa que consola. Aguardo a voz de quem se esconde a terra aprisionada ...