A morte de um jovem por aneurisma cerebral, num dos principais hospitais da capital do País, por não haver equipa de neurocirurgia durante o fim de semana é demasiado grave e chocante. Não é possível aceitar esta situação. Espero que, para além das demissões a que estamos a assistir, sirva pelo menos para que alguma coisa seja feita. Como é possível não haver neurocirurgia vascular de urgência em nenhum dos dois maiores Hospitais de Lisboa? Como é possível que os Directores dos Serviços de Urgência, os Directores dos Serviços de Neurocirugia, os Directores Clínicos, as Administrações Hospitalares, a própria ARS tenham convivido com esta realidade?
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
22 dezembro 2015
20 dezembro 2015
Da espiritualidade da Arte
As minhas comemorações de Natal começaram a 5 deste mês, com A Colectividade colectiva, sediada no Teatro Meridional para comemorar o seu 75ª aniversário. Tive a sorte de ter havido uma desistência mesmo à última hora, pois já estava tudo esgotado. Muito, muito bom, como aliás é hábito do Meridional, nomeadamente de Natália Luíza. Os espectáculos são sempre inovadores, divertidos, inteligentes e comoventes, fazendo a ponte entre a realidade e o imaginário, a crítica irónica e a militância cívica, saio sempre com o coração dilatado de ternura e orgulho.
Depois fui ver A ponte dos espiões, seguido de um jantar ameno com alguém que me aquece e aconchega, com quem a conversa nunca se esgota.
E hoje entrei pelo júbilo místico com a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach (Cantatas I, III e VI) no CCB, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Coro Lisboa Cantat, com os solistas Ana Quintans, Maria Luísa Freitas, Marco Alves dos Santos, João Fernandes, e os maestros Jorge Carvalho Alves (coro) e Leonardo García Alarcón (coro e orquestra). Que orgulho ouvir excelentes músicos e cantores líricos portugueses nesta maravilhosa interpretação das Cantatas de Bach.
Oratória de Natal, BWV 248 Cantata I
Oratória de Natal, BWV 248 Cantata III
Oratória de Natal, BWV 248 Cantata VI
Investir na cultura deveria ser uma das prioridades para o desenvolvimento económico de Portugal. Sala cheia e aplausos demorados, de uma plateia cheia de gente sedenta de música. Começo bem o Natal.
Da reconfiguração das ideias
A ideia de que o Estado deverá ser mínimo porque atrapalha e não se sabe gerir, e que apenas o sector privado faz mover a economia e tudo regula, desde o mercado de trabalho aos preços e ao consumo através da livre concorrência, demonstrou-se uma falácia.
A discussão à volta do eventual esvaziamento do papel do Conselho de Concertação Social, propagado pela direita, pois há décadas que a correlação de forças é nitidamente favorável às confederações patronais, é bem o exemplo disso mesmo. Com a demissão do Estado, no que diz respeito ao número de trabalhadores, à redução das tabelas salariais e à destruição das carreiras profissionais, não fez mais que permitir a selvajaria salarial no sector privado, baixando-se todos os níveis mínimos de remunerações, assim como o desinvestimento na qualificação, pois fica muito mais barato contratar precariamente pessoal jovem em início de carreira ou desqualificado, que trabalhadores qualificados ou quadros já com experiência. Como não há qualquer concorrência a nível estatal não há forma de elevar as fasquias das condições de trabalho, salariais, de horários, segurança e progressão formativa.
O número de desempregados é outro embuste. Há muitíssimas pessoas nas faixas etárias entre os 40 e os 60 anos que já saíram de todas as estatísticas porque já não fazem parte dos que estão inscritos em centros de emprego. Essa mole de gente resultante das últimas décadas de deslocalizações, de fusões e concentrações que produziram o tão almejado crescimento económico alicerçado na pobreza e nos despedimentos de hordas de trabalhadores, com a mirífica tese das eficiências e eficácias, engrossa os descrentes na democracia, formando exércitos silenciosos de revoltados que cada vez têm menos a perder.
Vale a pena fazermos uma reflexão profunda sobre vários dogmas que têm sido o corolário do centro político desde a queda do muro de Berlim. A ideologia comunista demonstrou na prática o tipo de sociedade totalitária, desigual, violenta, desumana e subdesenvolvida que criou. Mas a nova ideologia capitalista que subsistiu liberta da concorrência comunista, com o embuste da auto-regulação dos mercados, da concorrência e da globalização está a produzir uma sociedade violenta, desigual, subdesenvolvida e desumana, e também a caminhar para regimes distantes da democracia participativa e representativa, como se prova pela forma como a própria União Europeia tem lidado com os problemas dos países e das economias periféricas, induzindo se não mesmo impondo soluções governativas à revelia dos povos.
Um dos assuntos que nos deveria fazer pensar, sem preconceitos ideológicos, é a existência de um sector bancário privado que não se pode reger pelas leis do mesmo porque, ao contrário de qualquer outra actividade - farmácias, supermercados, escritórios de advogados, sapatarias, etc.. - não pode falir, sob pena do seu efeito se propagar a toda a economia, tendo o Estado que assumir os prejuízos.
Então, porque é que não se nacionaliza a banca? Por muito retrógrado e/ ou revolucionário que esta ideia pareça, não seria o mais lógico? Ou o Estado só vale quando tem que salvar os vários bancos que, ao longo de tanto tempo, distribuem dividendos aos seus accionistas mas não podem absorver as suas dívidas e as suas falências?
E que tal começarmos a abrir as janelas para arejar as ideias, soprar o pó, varrer as teias de aranha e alterar a decoração das nossas mentes?
Nota: bem a propósito, vale a pena ler A. Teixeira - O autor da "coisa".
19 dezembro 2015
Moura - O meu amor foi para o Brasil
Era difícil suceder a si própria, depois do sucesso merecido que foi o Desfado. Mas Ana Moura volta a surpreender pela excelência da voz, pela qualidade das músicas e das letras, pela inovação na interpretação do que é o fado.
O novo disco é muitíssimo bom. Do melhor que há.
Carlos Tê & Ana Moura
O meu amor foi para o Brasil nesse vapor
Gravou a fumo o seu adeus no azul do céu
Quando chegou ao Rio de Janeiro
Nem uma linha escreveu
Já passou um ano inteiro
Deixou promessa de carta de chamada
Nesta barriga deixou uma semente
A flor nasceu e ficou espigada
Quer saber do pai ausente
E eu não lhe sei dizer nada
Anda perdido no meio das caboclas
Mulheres que não sabem o que é pecado
Os santos delas são mais fortes do que os meus
Fazem orelhas moucas do peditório dos céus
Já deve estar por lá amarrado
Num rosário de búzios que o deixou enfeitiçado
O meu amor foi seringueiro no Pará
Foi recoveiro nos sertões do Piauí
Foi funileiro em terras do Maranhão
Alguém me disse que o viu
Num domingo a fazer pão
O meu amor já tem jeitinho brasileiro
Meteu açúcar com canela nas vogais
Já dança forró e arrisca no pandeiro
Quem sabe um dia vem
Arriscar outros carnavais
Anda perdido no meio das mulatas
Já deve estar noutros braços derretido
Já sei que os santos delas são milagreiros
Dançam com alegria no batuque dos terreiros
Mas tenho esperança de que um dia a saudade bata
E ele volte para os meus braços caseiros
Está em São Paulo e trabalha em telecom
Já deve ter “doutor” escrito num cartão
À noite samba no “Ó do Borogodó”
Esqueceu o Solidó, já não chora a ouvir Fado
Não sei que diga, era tão desengonçado
Se o vir já não quero, deve estar um enjoado
Da governança comprometida e descomprimida
Bons sinais os deste governo. O clima vai descomprimindo e respira-se de alívio. António Costa está a justificar a fama de fazedor e de conseguir atingir compromissos.
O que se vai ouvindo da parte do Ministério da Saúde é de aplaudir de pé. Tenho falado várias vezes daquilo que, a meu ver, é urgente para uma verdadeira reforma do SNS, indispensável aos desafios que se colocam a uma sociedade que tem de acomodar o envelhecimento populacional e o consequente aumento de doenças crónicas e onerosas, o desenvolvimento tecnológico e o aumento exponencial dos custos, a crescente especialização e as alterações de gestão dos recursos humanos escassos, mal distribuídos e desmotivados.
Por isso vejo com muita esperança estes sinais de projectos de verdadeira mudança e vontade de resolução de problemas, com a saúde mais próximo dos cidadãos.
Gostaria de estar tão optimista em relação à Educação, mas o fim dos exames do 4º ano do ensino básico, assim como a suspensão da prova de avaliação dos professores contratados, deixam-me muitas dúvidas. Os exames aos alunos, principalmente em fins de ciclos, não me parecem nada mal e não comungo da opinião dos traumas e dos sustos das crianças. Acho que se deve encontrar um modelo que seja eficaz na avaliação das aprendizagens, responsabilização dos professores, das escolas e dos alunos. Por outro lado sempre defendi que o Estado deve escolher os profissionais mais capazes e mais competentes para seus servidores e a educação é um dos serviços públicos por excelência em que essa escolha se reveste de enorme importância. Aguardo qual a forma e modalidade de escolha definida por este governo. Entretanto o regresso do até-há-pouco-tempo-eclipsado Mário Nogueira não augura nada de bom.
Mas não há dúvida de que o governo tem merecido a nossa confiança. A tentativa de anulação da privatização da TAP, a reversão da concessão dos transportes colectivos de Lisboa e Porto e a forma como está a tentar resolver o problema do BANIF são provas de que tem um bom senso que nos permite ter alguma fé no futuro.
A ver vamos!
14 dezembro 2015
Não nos escapamos...
... ao Natal.
Preparemo-nos para sujar as mãos, dobrar papéis, enrolar fitas e usar a imaginação.
Este ano, só de licores, há algumas novidades - de caroços de nêsperas(!!!), ideia do Chef Avillez, nas manhãs da comercial, de cereja e de mirtilos (o de romãs só estará pronto lá para Fevereiro). Entretanto, depois da compota de abóbora que é já um clássico tradicional nos nossos Natais, resolvi inovar - bombons de abóbora com amêndoa e cobertura de chocolate. Ficaram muito bons!
Receitas:
- os licores são todos feitos mais ou menos da mesma forma: o de caroços de nêsperas é mesmo com os ditos, em aguardente (quanto mais caroços, melhor) durante bastante tempo. Acho que os meus estiveram cerca de 3 meses. Depois é só mistura o xarope de água com açúcar e deixar repousar uns dias antes de consumir. Os de cerejas e mirtilos são iguais, substituindo os caroços pelos frutos.
- Quanto aos bombons, usa-se a doce de abóbora com gengibre misturada com amêndoa ralada até ficar com consistência própria para moldar umas bolinhas. Depois derrete-se chocolate (culinário, 70% de cacau) no microondas, mexe-se bem e mergulham-se as bolinhas, depositando-as em cima de papel vegetal de cozinha, para secarem. Quando estiverem secas, estão prontos os bombons.
Ainda pensei em fazer abóbora cristalizada mas, para já, ainda não fiz e temo que não o farei tão cedo. É que é mais fácil projectar do que realizar.
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