07 julho 2015

A paz sem vencedores e sem vencidos

Alguma coisa de nós também desaparece hoje.Jorge Sampaio


 


Vão acabando as referências que fizeram parte do meu acordar para a democracia, para uma certa forma de olhar o mundo, um modelo de atitude, participação cívica e dignidade. Outros tempos se instalam, diferentes e tantas vezes estranhos. Nem piores nem melhores, apenas a substituição inevitável de gerações.


 


Maria Barroso personificava, para pessoas como eu, a luta de uma vida por aquilo em que se acredita, a capacidade de ultrapassar dificuldades, a inteligência e humanidade de quem sabe que as convicções não são eternas, a humildade de mudar e manter a coerência.


 


O País deve-lhe tudo isso, para além do exemplo.


 



Maria Barroso


 


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos


A paz sem vencedor e sem vencidos


Que o tempo que nos deste seja um novo


Recomeço de esperança e de justiça.


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos


 


A paz sem vencedor e sem vencidos


 


Erguei o nosso ser à transparência


Para podermos ler melhor a vida


Para entendermos vosso mandamento


Para que venha a nós o vosso reino


Dai-nos


 


A paz sem vencedor e sem vencidos


 


Fazei Senhor que a paz seja de todos


Dai-nos a paz que nasce da verdade


Dai-nos a paz que nasce da justiça


Dai-nos a paz chamada liberdade


Dai-nos Senhor paz que vos pedimos


 


A paz sem vencedor e sem vencidos


 


Sophia de Mello Breyner Andresen

05 julho 2015

Dos inconseguimentos da esquerda

Depois de ouvir Porfírio Silva, João Ferreira e Catarina Martins, respectivamente do PS, do PCP e do BE, convém notar o seguinte:



  • O PS não se manifestou em relação ao resultado que desejava no referendo grego, com a justificação de querer respeitar a soberania da Grécia. Não posso concordar com esta visão, pois o interesse de Portugal, como dos restantes países europeus, é que haja uma mudança na política europeia como o PS, aliás, sempre defendeu. Como disse Porfírio Silva, o mais importante é o reinício imediato das conversações para que se chegue a um compromisso. Mas do PS esperava-se a coragem na defesa das ideias que proclama. A estratégia do equilibrismo não dá confiança nem mobiliza ninguém. Além disso fica-me a dúvida, ao ouvir falar dos socialistas europeus, do que pensará o PS sobre as declarações do Presidente do Parlamento Europeu.

  • O PCP aproveitou oportunisticamente o resultado do não para se colocar do lado de quem ganhou. É demasiada desfaçatez se observarmos as declarações proferidas antes do referendo, nunca se comprometendo.

  • O BE foi o único partido com representação parlamentar que defendeu abertamente este resultado. Não concordo com quase nenhuma das bandeiras do BE mas, neste caso, gostei do radicalismo.


Mas covém que ninguém se esqueça que a Grécia respondeu a uma questão sobre um acordo e não sobre a sua permanência no euro ou na Europa.

É isto a esquerda europeia?

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Martin Schulz fala em governo tecnocrata na Grécia se o “sim” vencer o referendo


Jornal de Negócios


 


Se o “Não” ganhar, gregos terão de introduzir nova moeda


Martin Schulz

Do (NÃO ao) medo

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É muito difícil decidir o que eu, caso fosse grega, responderia à pergunta que se faz hoje a todo o povo grego - aceito a proposta dos credores ou não aceito? Esta é a dúvida. No entanto toda a direita europeia a transformou numa noutra - quero ou não sair da União Europeia?


 


É claro que a primeira pergunta pode condicionar o resultado implícito na segunda. Pelo menos é isso que a direita europeia quer que todos sintam e receiem.


 


O medo. O medo de rejeitar uma política de empobrecimento e de destruição dos valores democráticos. Os países deixaram de ser donos do seu destino, as eleições para os parlamentos nacionais transformaram-se numa caricatura da democracia pois ninguém, nas mais altas instâncias europeias, tem a mínima intenção de respeitar seja o que for das escolhas eleitorais, caso elas não sejam consentâneas com a ideologia dominante.


 


O medo. É nisto que se baseia a relação entre as Instituições europeias e os povos que deveriam representar.


 


Olho para a minha forma de encarar a vida e sinto-me tantas vezes medrosa, tantas vezes de uma moderação que não cabe bem na minha natureza bipolar e impulsiva. Mas também sei que há alguns limites que, ao contrário de algumas figuras nossas conhecidas, não ultrapasso.


 


E esta é uma delas. Não é possível continuar a ignorar o atropelo democrático que se tem verificado na Europa, condenando os países e as suas populações à miséria, sem que tenham quaisquer hipóteses de mudar o seu destino. Gente hipócrita, que obriga nações inteiras a fingir que não existem ou nunca existiram, gente ignorante e arrogante, que vive em mundos paralelos sem contacto com a realidade, gente perigosa que decide o destino daqueles que, diariamente, contribuem com o seu esforço e trabalho para que haja alguma esperança de felicidade.


 


Por isso, muito provavelmente, se fosse grega, votaria hoje não. E tenho muita pena que as explicações do PS, que tenta a moderação sobre todos os assuntos difíceis, ao contrário da clareza e da assertividade, que tenta o equilibrismo quando se desejaria um mergulho, ou um salto, ou asas para voar, se enrede em palavras de circunstância, sem que ninguém perceba exactamente a sua posição. E isto é verdade tanto em relação à candidatura presidencial, como ao problema da Justiça, à herança dos anteriores governos de Sócrates ou à crise grega. Por medo.

04 julho 2015

O indizível susto da democracia (3)

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Tsipras recuou nos seus propósitos democráticos de dar a oportunidade aos gregos de decidirem se aceitava ou não os novos (velhos) dictates dos donos disto tudo. Afinal a democracia poderia ser adiada de novo. A voz do povo só seria uma afirmação democrática se respondesse afirmativamente às necessidades da sua posição. Em vez de manter o desafio, Tsipras tudo tentou para que o referendo fosse chumbado.


 


Realmente os heróis já não moram cá, nem em Bruxelas nem em Atenas, muito menos em Lisboa ou Madrid. Com a convocação do referendo, o governo grego tinha desafiado os poderes não democráticos com a essência do exercício da legitimação do poder e a Troika ressentiu-se, com a retórica a clamar pelo reinício das conversações. Mas a fibra de Tsipras é outra - perante a hipótese de ter que se demitir caso ganhe o "sim", preferiu dar o dito por não dito.


 


Voltámos portanto à estaca menos mil, menos milhões - a força está, de novo, do lado da direita europeia, do FMI e da total ignorância irresponsável das Instituições Europeias.


 


Os Heróis são verdadeiramente personagens míticas e inexistentes. O objectivo do referendo deixou de existir, Tsipras traiu aquilo que, com a decisão de referendar a assinatura do acordo, dizia defender. Após uma vitória do "sim" terá que haver uma demissão do governo grego e novas eleições. Se o "não" vencer, Tsipras perdeu toda a credibilidade e toda a força negocial.


 


Vivemos no tempo da mediocridade e dos chacais, no tempo das desilusões sistemáticas e da destruição de tudo o que sempre pensámos com bases de sustentabilidade de uma sociedade decente.

30 junho 2015

Mar me quer

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 Mia Couto


Natália Luíza


Alberto Magassela, Cucha Carvalheiro, Daniel Martinho


Marta Carreiras


Rodrigo Leão


Miguel Seabra


 


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 Teatro Meridional


Rua do Açúcar, 64 Beco da Mitra


Poço do Bispo 1950 - 009 Lisboa 


(GPS: 38.737780,-9.103514)


(+351) 91 999 12 13


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28 junho 2015

Um dia como os outros (160)

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 (...) Mesmo moderando a linguagem, e como aconteceu há 75 anos no caso do colaboracionismo com a Alemanha, fica-nos a sensação que entre os parlamentares socialistas europeus, anda tudo a apanhar bonés na atitude comum a adoptar por eles em relação à crise grega. Ainda muito recentemente, Martin Schultz, o presidente do parlamento europeu e também a cara mais conhecida desse socialismo europeu deixou-se apanhar numa troca de galhardetes com um eurodeputado grego do Syriza com ar de avozinho (acima), de onde só pôde sair mal na fotografia. Mas, para quem pense que a outra esquerda, a comunista (dialéctica), mostrar-se-á mais lúcida na estratégia e nos princípios políticos em discussão, pode desiludir-se acompanhando o comportamento do Partido Comunista Grego (KKE) que num dia convoca uma manifestação contra a austeridade para a frente do Parlamento grego para, no dia seguinte, e lá dentro, votar contra a proposta de realização de um referendo a esse respeito. Isto deixa o caminho aberto para quem, opondo-se ao projecto dito europeu por muito que não gostemos de os ouvir, tem discursos (aparentemente) consistentes a esse respeito – caso da Frente Nacional francesa de Marine Le Pen. O que, por sua vez, torna, finalmente, ainda mais patética a conduta dos descendentes dos parlamentares da esquerda de 10 de Julho de 1940, personalizados na figura de um Manuel Valls que apela ao governo grego para regressar às negociações (abaixo). Numa confrontação em que não sabe muito bem o que há-de fazer, Valls não recolhe autoridade para apelar seja ao que for e faz uma triste figura de si a apanhar bonés por ser socialista mas também a apanhar ainda mais bonés por ser francês.


 


A.Teixeira

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...