27 fevereiro 2015

Comboio

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Comboios e viagens, livros e histórias, o doce prazer do lazer, fortuito sabor inocente mas perverso saber de estar só, entre cidades, uma espreitadela ao rio que se atravessa, casas ao fundo numa paisagem amodorrada e ligeiramente iluminada, veloz como o tempo que nos repassa e nos gasta.


 


Pequena suspensão do universo.


 


Murmúrios e respirações, olhares perdidos ou focados, a humanidade que se desloca fisicamente parada, em sintonia de tantas vidas diferentes quantas as liberdades unas e dilatadas, patrimónios irrepetíveis, desconhecimentos e desmemórias que não chegam a ser notáveis. Nada se nota nestas genialidades pequenas mas que nos aconchegam o ego e a mente, que nos libertam do cansaço da monotonia e das crises, todas, pessoais e intransmissíveis mas tão iguais às do todo colectivo.

22 fevereiro 2015

Um dia como os outros (152)

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 (...) Terceiro, e muito importante para o futuro, é que o governo grego terá de dizer que reformas vai fazer para melhorar a situação do país. E, aqui, a direita acha sempre que sabe quais são as reformas: destruir os serviços públicos, cortar salários e precarizar trabalhadores, privatizar. Mas a esquerda tem que ter outra visão das reformas. Por exemplo, no caso da Grécia, é claro que é importante combater a enorme evasão fiscal, tal como é necessário promover a eficiência do Estado e combater a corrupção. E o governo grego quer fazer isso. E é de esquerda fazer isso. Parte importante das próximas batalhas está mesmo aí: promover uma ideia alternativa de reformas estruturais, para acabar com o mito de que as reforma da direita é que fazem bem à economia e aos povos - porque não fazem, como vemos. (...)


 


Porfírio Silva

21 fevereiro 2015

Das razões demissionárias

A política desta direita que nos governa tem-se pautado pelo desinvestimento no serviço público, com cortes cegos na despesa do Estado, o que se traduziu numa redução significativa dos quadros mais qualificados, depauperamento dos equipamentos, das instalações, das condições de atendimento e da qualidade dos serviços, diminuição das remunerações, das pensões e dos subsídios, congelamento e destruição de carreiras.


 


Quando se fala em reformas estruturais deve entender-se despedimento de funcionários, diminuição dos apoios sociais e do valor do trabalho. Na saúde, e por muito que eu respeite o trabalho de Paulo Macedo que tem tentado gerir a penúria o melhor possível, o Ministro cumpre as orientações do seu governo e essas têm sido desinvestir no SNS e apostar no sector privado - a saída em massa de profissionais dos hospitais públicos para os privados, o congelamento das contratações e da renovação de quadros, a não substituição de equipamentos obsoletos e em fim de vida, tudo se conjuga para que se esvazie o sector público tornando-o residual para quem não tenha alternativas.


 


Os cuidados primários continuam a não ser prioritários na preocupação dos governantes, retirou-se autonomia aos Conselhos de Administração, a reorganização hospitalar marca passo e, quando avança, é uma autêntica desorganização - agrupam-se hospitais mas não se estuda a manutenção de equipas, quer reduzir-se custos mas passeiam-se os doentes, os medicamentos, os equipamentos de hospital para hospital, num total desrespeito pelas boas práticas e desperdício de recursos.


 


Por isso não me espanta que haja notícias de atrasos no atendimento, cirurgias adiadas, consultas em espera, filas intermináveis, falta de condições, falta de medicamentos, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares exaustos e desmotivados. Mas convém que se não se confundam os problemas suscitados pelo torno político e financeiro que asfixia o SNS com a falta de liderança e incapacidade de perceber e corporizar os anseios dos profissionais, independentemente dos constrangimentos sistémicos do SNS. Se, de facto, as demissões no Hospital Fernando Fonseca e no Hospital de Santa Maria são resultado da política actual, não se entende como é que os próprios Conselhos de Administração "se demitem" de pedir a demissão, já que assumem sempre uma enorme solidariedade para com os corpos clínicos, como se não lhes coubesse a responsabilidade da gestão dos hospitais.


 


Cada vez mais se percebe mais como é apenas o recurso à comunicação social que consegue pressionar a preocupação pública de alguns protagonistas que, mesmo assim e inacreditavelmente, tentam desvalorizar a gravidade das situações. Houvesse seriedade, outras seriam as demissões.

Das negociações políticas

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Jornal de Notícias


 


O governo grego mostrou que é possível ter uma voz diferente na Europa, defender os interesses do seu povo sem ter medo de enfrentar dificuldades e problemas, de ser um parceiro de corpo inteiro numa União que se pretende de solidariedade e é apenas de subserviência a alguns países, de assumir e respeitar o mandato eleitoral e democrático que lhe foi conferido.


 


É muito interessante ver as notícias sobre o princípio de acordo alcançado através do Observador, que aproveita para demonstrar que a Grécia recuou em toda a linha e que Varoufakis e Tsipras acabaram por ceder em tudo.


 


Mas lendo o texto do acordo não é essa a minha conclusão. Embora sem conseguir fazer vingar as suas propostas, o governo grego fez o que há muito se esperava que algum governo fizesse - negociação e confronto políticos, sem complexos nem atitudes invertebradas. Ao contrário da opinião de Francisco Seixas da Costa (ou não?), penso que a ofensiva grega no plano internacional foi bem feita e criou condições para que houvesse cedências de parte a parte.


 


A verdade é que estamos a assistir a declarações de volte-face dos mais improváveis protagonistas, como por exemplo de Jean-Claude Juncker, que age como se tivesse acabado de chegar à União Europeia. O governo português foi igual a si próprio, perdido no seu labirinto e mais fundamentalista que os extremistas, com posições contrárias às que seriam de esperar na defesa dos interesses de Portugal. Paulo Portas esqueceu-se que pertencia a um governo que se esforçou ao máximo pelo pedido de resgate e aplaudiu o querer ir além da Troika, colando-se às declarações de Junker.


 


Continuemos a aguardar os acontecimentos. Parabéns aos gregos e ao governo grego pela pedrada no charco. Nem que seja só por isso, todos saímos a ganhar.

15 fevereiro 2015

Do maravilhoso mundo novo

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The Telegraph


Observador


 


Estamos no início de uma nova era, aquela em que os nossos governantes nos ensinam e nos impõem um estilo de vida, desde o que comemos, ao que bebemos, ao lazer, às preocupações com a vida, às tensões psicológicas, etc. Para já esquecemos as defesas das minorias étnicas ou religiosas e a discussão da igualdade de direitos dos géneros (todos - feminino, masculino e alternativos), para nos preocuparmos com a vida saudável e com a sustentabilidade do planeta.


 


É gordo, ou seja, obeso? Então tem uma disfunção pessoal e social grave, pois precisa de se querer tratar - nada de doces, gorduras, álcool ou hidratos de carbono. O seu médico ou sistema de saúde arranjará um equipamento altamente tecnológico para contar automaticamente as calorias ingeridas por dia e, caso não obedeça - tudo registado numa plataforma informática com o NIF (obrigatório pois é informação que será cruzada com as finanças) - ser-lhe-á retirado o privilégio de recorrer aos serviços pagos pelos NOSSOS (e seus) impostos. Temos que gastar bem o dinheiro dos contribuintes. Haverá ainda os podómetros que lhe contarão os passos que terá que cumprir, ou a ginástica que terá que fazer, para gastar energia e quilos de banha e transpiração. Não tem tempo? Tem que se organizar melhor - entre as 8h de trabalho por dia e as 8 horas de sono (também obrigatórias) restam 8 horas que chegam perfeitamente para os transportes, a alimentação e a ginástica.


 


Se fuma (qualquer tipo de tabaco ou outras drogas) acautele-se - está já a ser estudada uma legislação que o afastará dos seus filhos por impossibilidade de os educar e poderá mesmo redundar em prisão. Quanto à úlcera péptica e à psoríase, os nervos são da sua conta, mas tem que se tratar, pois há uma grande dose psicossomática em tudo isso.


 


Quanto ao cancro - falta de fibra na alimentação, tabaco e obesidade, vírus sexualmente transmissíveis, etc., convém que esqueça o apoio de uma sociedade saudável e perfeita - a culpa é sua. É por isso que não tem emprego e que é infeliz, para além de viver à custa dos NOSSOS (e dos seus) impostos. E isso é intolerável - moral e legalmente intolerável.

Um dia como os outros (151)

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(...) Mais do que tudo, fica a profunda sensação que o Estado de direito está sob um fortíssimo ataque, que as garantias básicas de defesa dos cidadãos - nomeadamente dos que estão em causa no processo Marquês - não estão a ser asseguradas, que procedimentos gravíssimos estão a ocorrer sem que ninguém tome as devidas providências. (...)


 


Pedro Marques Lopes

14 fevereiro 2015

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...