15 agosto 2014

Da mobilização que urge

 


António Costa tem uma moção bem estruturada e com ideias fortes, não concretizadas quase nunca, embora indique alguns caminhos chave. Não cede ao populismo e tenta uma postura mais distanciada, de alguém que está interessado em resolver alguns problemas. Assume que o melhor é conseguir uma maioria absoluta, assume que terá que haver compromissos à esquerda, assume que é preciso lutar por uma política europeia que não penalize países como Portugal, assume que é necessário inverter o rumo político apostando nos direitos dos cidadãos, na regulação financeira e no mercado de trabalho, no investimento e modernização do Estado. Goste-se ou não, tem algumas ideias de combate.


 


O regime político em que vivemos tem por base uma Constituição feita há 38 anos. É claro que já houve várias revisões constitucionais. Mas se há partidos e outras organizações sociais (a tal sociedade civil que só interessa para algumas coisas) que entendem ser necessária uma alteração profunda e radical da Constituição, que tal lançarem o debate público sobre o assunto? E se os partidos se unissem, fizessem o tal pacto de regime, para fazer um referendo em relação à eleição de uma Assembleia Constituinte?


 


Há 38 anos a organização da sociedade - as relações entre pais e filhos, Estado e sector privado, empregadores e empregados, o analfabetismo e o acesso à educação, os problemas de desenvolvimento do país fora das áreas urbanas, a pobreza e as desigualdades, o abandono das terras e, principalmente, o clima político que se vivia em Portugal e no mundo, eram muitíssimo diferentes dos de hoje.


 


O acesso à informação e a sua divulgação, a enorme melhoria das condições de vida das populações, a globalização e a banalização da manipulação informativa modificaram-se radicalmente. Continuar a apostar em organizações como os sindicatos, as associações patronais, em lutas de tipo greves e manifestações, na era da internet, do facebook e do twiter, das compras e das notícias online em que cada cidadão desenvolveu a capacidade de se julgar o centro do universo e ser, nem que seja por segundos, o protagonista do que considera ser a mudança, nem que seja momentânea, transformam muito do que são as bases da construção do nosso regime e dos nossos sistemas de equilíbrio de poderes, em estruturas frágeis e a precisar de renovação e/ ou relegitimação democrática. Se calhar poderá haver outras formas de luta, outras organizações, outro tipo de manifestações.


 


Não basta dizer que se quer aprofundar a democracia e aproximá-la dos cidadãos. Enquanto não se enfrentar sem medo e sem demagogia a ocupação de lugares das cúpulas das administrações locais e central por aparelhos partidários, a organização territorial e administrativa do país que está totalmente desadaptada da realidade, não será possível uma alteração da lei eleitoral em que as populações se revejam mais nos seus representantes.


 


Modernizar o país, o Estado, investir nas novas tecnologias, aliviar os cidadãos das burocracias e do tempo que gastam a resolver banalidades, como renovar o cartão do Cidadão - uma excelente ideia que ficou a meio caminho - investir no teletrabalho, na flexibilização dos horários, nos apoios de proximidade a quem quer ter filhos - creches, meios horários, etc., nos apoios aos mais velhos gerando oportunidades de trabalho, facilitar a mobilidade das famílias com a reordenação do território e a requalificação do parque imobiliário, investir na ciência e na investigação marítima (mas a sério, não apenas nas vésperas eleitorais em que todos se lembram da nossa riquíssima costa, para a esquecerem imediatamente após o dia da votação), são tarefas que podem mudar o ciclo de recessão e descrença instalado.


 


A democracia faz-se todos os dias e não devemos enquistar-nos em fórmulas e soluções que estão gastas. Onde estão os protagonistas das discussões para uma verdadeira renovação do regime? Talvez fosse essa uma das melhores formas de mobilizar o país.

Ebola


Ebola


 


 


Devemos estar muito atentos, preocupados, informados e sem pânicos nem alarmismos:


 


http://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/ebola.aspx


 


http://www.who.int/csr/disease/ebola/en/


 


http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/


 


http://www.who.int/csr/don/2014_08_13_ebola/en/


 


http://www.who.int/ith/updates/20140421/en/


 


Dos enganos mexicanos


 


Hoje tem estado um verdadeiro dia de Verão, com sabor a férias. Pouca gente em Lisboa, o ar morno, uma leve brisa refrescante, ideal para se almoçar numa esplanada em frente ao rio.


 


E porque não o restaurante La Siesta? Já há muito tempo que não íamos lá, pois a penúltima visita tinha sido decepcionante e a última nem sequer se tinha concretizado. Mas os anos passaram e podia ser que as coisas tivessem melhorado.


 


Lá fomos, uns minutos antes das 13:00h. Muitos lugares de estacionamento, um homem velhote em calções (ou cuecas) em frente à porta, por baixo de uma palmeira, acompanhado por uma criança nos mesmos preparos, a gozarem banhos de sol. Uma parte da esplanada em obras, com os andaimes bem visíveis e os plásticos que os cobrem esvoaçando como roupa a secar em corda.


 


Mas isso são minudências de gente fina. Entrámos e o fresco e o ambiente ligeiramente sombrio foram muito acolhedores, com a decoração tal como a lembrava feita de chapéus, muito pau, palha, flores e cores garridas. Ninguém perguntou se havia reserva o que foi logo um alívio e uma surpresa muito agradável, pois a sala e a esplanada estavam praticamente vazias. Sentámo-nos e escolhemos: ensalada mixta con enderezo de aguacate (salada mista com abacate), tacos pastor (cubos de porco com queijo em totilhas de milho) e pollo con azafrán (frango com espinafres e açafrão). Nas bebidas as opções foram curtas - cervejas só de garrafa; das mexicanas - nem Sol, nem Dos Equis, só Corona. Portanto pedimos Corona e sangria a copo (estava bebível).


 


Para entreter fomos comendo totopos e salsa mexicana (salada de tomate em cubos com coentros e tiras de milho). O serviço não foi muito lento, felizmente, e os empregados são simpáticos, mas nada que nos envolva muito.


 


A comida, para dizer com franqueza, foi semelhante à que se comia num restaurante mexicano que existia no Centro Comercial Colombo, há bastante tempo já (não sei se ainda existe), na esquina daquela grande área de restauração, que ficou célebre porque, uma noite em que fomos lá jantar, a Empregada da recepção, devidamente paramentada com folclore mexicano, perguntou numa voz arrastada de quem está a fazer um frete monumental:


- Fumadores ou não fumadores?


Respondemos:


- Não fumadores.


Retorquiu:


- Só tem fumadores...


Houve logo quem se lembrasse de comentar, mais tarde e no recato de uma mesa dos fundos:


- Quer empregada esperta ou empregada burra?


- Empregada esperta.


- Só tem empregada burra...


 


Mas passemos adiante: a ensalada estava enjoativa, não sei se do abacate se do molho esbranquiçado e sem tempero, ou da cebola crua bastante potente; as tortilhas dos tacos pareciam ter sido compradas no Continente e descongeladas à pressa; o porco estava seco e a única coisa que ligava os vários pedaços era o queijo derretido, o que dificultava o trincar do taco, caindo inexoravelmente pedaços de porco para todo o lado; o frango estava razoável mas muito pouco condimentado.


 


As sobremesas ofereciam-se gulosas e ninguém resiste a um merengue con dulce de leche (caramelo) e manga ou a uma mousse de chocolate branco, que estava bastante boa e vinha com uma bola de gelado de chocolate e uma fatia de kiwi (dispensável).


 


O merengue, entre o pedido e a chegada à mesa, transformou-se em farófias; o dulce de leche desapareceu e a manga acompanhou-se de papaia. Não era mau, mas nem por sombras se aproximava do prometido. Café normal e conta astronómica!


 


À saída tinham desaparecido os veraneantes que deixaram, no entanto, um rasto de roupas e sacos amarrotados e pouco asseados.


 


Seguramente a não repetir. Estaremos outros 5 ou 10 anos sem nova investida experimental. Salva-se o espaço que é muito bom e a vista sobre o Tejo, de uma calma e uma paz deslumbrantes.

11 agosto 2014

Democracia tutelada

Arriscando algum comentário de quem cada vez se sente mais perdida no meio das várias revelações sobre o sistema financeiro e o sistema político, o que se tem passado com o tipo de resgate ao BES condicionado pelo BCE, escassos dias depois do Banco de Portugal ter concedido um empréstimo ao banco à beira de implodir, demonstra bem a incapacidade e a impossibilidade das instituições nacionais poderem tomar decisões sobre os problemas do País. Os centros de decisão estão na Europa e tudo se passa por trás dos eleitores.


 


Não vejo o Primeiro-ministro nem o Presidente terem a coragem de dizer seja o que for. Segundo o governador do Banco de Portugal, o testa de ferro desta solução, estivemos na iminência de uma crise sistémica, mas nenhum daqueles que foi eleito para resolver os nossos problemas se deu ao trabalho de aparecer a esclarecer, a serenar, a dar confiança, a explicar.


 


Há realmente muita coisa a mudar no nossos sistema político e uma delas, que todos se recusam a discutir por cobardia política ou falta de interesse, é a submissão política não democrática que das instituições dos países membros aos organismos europeus sem mandatos eleitorais.


 


Não sou contra a Europa mas sou contra esta Europa. 

10 agosto 2014

És o émulo sem rivAAaal do Dr. Câmara Pestana...


a partir do minuto 1:47

 


Foram dias de grande ansiedade e trabalheira – organizar um evento científico abrilhantado por alguém como o Professor, era uma subida honra e significava um estado de nervos acrescido e permanente.


 


A logística e a campanha para que o evento fosse um êxito, não só científico mas também um agradável e animado convívio entre os mais novos e os mais velhos (entre os quais já se contava), a somar ao facto de ser o primeiro sob a sua responsabilidade, garantiam insónias.


 


O dia iniciou bastante cedo, com a incumbência de transportar o Professor, nada de atrasos, chegada de estadão e início protocolar, rapidamente se iniciaram as conferências, as discussões, as exposições e as pausas para café e almoço voaram sem que quase desse por elas.


 


Estavam já a explicar-se as razões dos últimos intervenientes, preparava-se para a oferta do mimo final, em agradecimento e carinho (e bem podia inchar de orgulho e satisfação por aquele dia, corrido de feição, sem paragens nem atropelos, com a audiência interessada e participante), quando vibra no bolso o telemóvel silencioso. O que seria, àquela hora? Um estremecimento de premonição de desgraça percorreu o seu espírito.


 


Era um sms – em letras gordas, pode ler a voz que naquela mensagem cantava:


 


És o émulo sem rivAAaal do Dr. Câmara Pestana...

The Emperor of all Maladies - A Biography of Cancer


 


Nunca percebi muito bem os critérios para as edições de obras cuja língua original não é o português.


 


The Emperor ao all Maladies - A Biography of Cancer - um presente que me deram há uns meses. É um livro escrito por Siddhartha Mukherjeeum Médico Oncologista com especial interesse em Hematoncologia, nacionalidade americana mas nascido na Índia. Pelo que pude ver, a ideia do livro surgiu após um dos seus doentes lhe dizer que gostaria de perceber o inimigo contra o qual lutava.


 


Este livro ganhou inúmeros prémios e chegou à shortlist de muitos outros. Está muitíssimo bem escrito e traça, de uma forma empática e humana, a história do cancro desde os Egípcios até aos nossos dias - os diagnósticos, os sofrimentos pessoais e sociais, os radicalismos das terapêuticas, a ideia da doença sistémica, as causas, as investigações, as prevenções primárias e secundárias, as terapêuticas alvo, os genes. E tudo de uma forma simples e rigorosa, como uma história épica com vítimas e heróis, grandes entusiasmos e grandes desilusões.


 


Já há muito tempo que não leio um livro tão interessante e tão importante. E fiquei a saber, para além de muitas outras coisas, que Sidney Farber, um Patologista pediátrico, foi o primeiro médico a tratar um cancro com drogas, dando início à quimioterapia - os antifolatos para a leucemia linfoblástica aguda das crianças.


 


Nota: As minhas desculpas pela ignorância (que sempre foi muito atrevida). Segundo informações de um comentador, que a si próprio se apelida de Indivíduo, fiquei a saber que há uma tradução portuguesa publicada pela Bertrand. Aqui fica o linkO Imperador de Todos os Males, para quem estiver interessado. Mantenho, no entanto, o meu desentendimento quanto aos critérios editoriais (traduções) em Portugal. Pelos vistos, este não foi um bom exemplo.

Boléro


Boléro - Maurice Ravel




Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...