17 agosto 2013

Dos sentimentos de uma burguesa

 



Beryl Cook


 


Há algumas semanas decidi mudar da TSF para a Rádio Comercial ao despertar, ver o mínimo possível de notícias, evitar ler jornais e, sobretudo, mudar o canal de tv quando aparecem os comentadores. Pareceu-me uma boa forma de me sentir em férias e de perceber como há um país que, apesar das dificuldades, consegue viver. As pessoas respiram e dormem, comem, melhor ou pior, casam-se, nascem e morrem, baptizam-se, apanham transportes, próprio ou públicos, oferecem-se prendas e carinho, riem-se bastante, vão à praia, enfim, apesar da crise, a vida continua.


 


Na continuidade deste espírito nada revolucionário descobri, ou melhor confirmei, a minha natureza irremediavelmente burguesa. Tudo em mim respira vontade de vida estável, poucos sobressaltos, casa limpa e arrumada, cozinha de conforto, como agora é moda dizer-se, feita pelo chef privativo, muito sossego, boa música, bons filmes, se possível brandos e bem dispostos, livros calmos, que disponham bem e que distraiam.


 


Até quando vou ao restaurante (a qualquer um, diga-se em abono da verdade, a única coisa que me importa é comer bem e a preços módicos), a minha natureza pouco tolerante vem rapidamente à superfície. Faz-me confusão a profusão de chinelas, havaianas ou outras, os calções de algodão mole amassados e esfiapados, as t-shirts de ginástica ou de alças a cair, a precisarem urgentemente de sabão, água e ferro de engomar, as calças com nódoas, as barrigas avantajadas à mostra, que as pessoas não se acanham de exibir, não porque não tenham dinheiro para outra indumentária mas porque estão à vontade.


 


Estar à vontade justifica a total falta de sentido estético e das proporções que se instalou na nossa sociedade. Ainda bem que não são necessários vestidos compridos nem disparates semelhantes para assistir a um espectáculo de ópera, mas será que é adequado ir almoçar de pijama? E as crianças, as tão amadas e endeusadas crianças, que ninguém controla quando guincham, correm pelo meio das mesas aos gritos, fazem birras e incomodam toda a gente? Será que não é importante que lhes seja mostrado que os outros, adultos ou não, têm o direito de estar em paz? Será que não é preciso que se lhes ensine a viver em comunidade?


 


Estar à vontade faz com que todos os infelizes comensais sejam obrigados a ouvir as conversas telefónicas com filhos, maridos, amantes, pais, mães, amigos, patrões, independentemente de ninguém ter nada a ver com a vida de quem assim enche os ouvidos dos outros, independentemente de ninguém querer saber da vida dos outros.


 


Estou, portanto, embrenhada na soberba da minha classe, sentindo-me numa bolha de algodão que ampara a amolece os desastres do mundo, imersa nos problemas filosóficos de moral e ética de Isabel Dalhousie, um esplendoroso exemplo da burguesia escocesa, mais precisamente de Edimburgo, e nas amáveis aventuras africanas de Precious Ramotswe, a orgulhosa dona da The Nº1 Ladie’s Detective Agency, da sua assistente Ma Makutsi, e do seu marido mecânico, Mr. J. L. B. Matekoni, o proprietário da Toklweng Road Speedy Motors.


 


Mas vai-se instalando a dúvida; interrogo-me se é agora que vivo alienada numa bolha irreal ou de algodão, ou se tenho vivido até agora numa outra bolha, real ou construída, mas sulfúrica.


 

10 agosto 2013

Beijo sem

 



Marisa Monte & Adriana Calcanhoto

(roubado à Irene Pimentel)

 


 


Eu não sou mais
Quem você
Deixou
Amor (de ver)


 


Vou a lapa
Decotada
Bebo todas (viro outras)
Beijo bem


 


Madrugada
Sou da lira
Manhãzinha
De ninguém
Noite alta
É meu dia
E a orgia
É meu bem


 


Eu não sou mais
Quem você
Deixou
Amor (de ver)

08 agosto 2013

Das reformas estruturais

 


O combate ao desemprego e o modelo económico que esta maioria defende para o país.


 


(...) Todos os escalões de rendimento contribuíram para a descida [dos postos de trabalho] exceto o dos salários líquidos inferiores a 310 euros, o qual registou um aumento de 5,2% (mais oito mil casos). (...)


 


Ver aqui.


Cheque ensino

 


Continua o governo a desmantelar os serviços públicos, agora o de educação. O estado vai financiar ainda mais o sector privado no ensino obrigatório. Enquanto nos entretemos com as patéticas e lamentáveis telenovelas de quem disse e de quem fez, em desmentidos e suspeições vergonhosas, vai-se concretizando a agenda ideológica desta maioria.


 


Onde está a posição do PS a esta medida? Que fazem os porta-vozes do maior partido da oposição em relação a esta revolução silenciosa, totalmente contrária ao que defendeu em governos anteriores?


 


Muita gente não entende bem o que faz Sócrates na sua prédica semanal, na RTP. Talvez o seu propósito seja simplesmente lembrar à população que o PS governou, defendendo os seus governos e defendendo-se a si próprio. António José Seguro esqueceu-se de 6 anos de história do PS. Que tente afirmar a sua liderança mostrando que é diferente, é natural, que nunca sequer refira o que de bom o PS fez nas anteriores legislaturas é significativo, dando uma imagem de um líder pouco recomendável.


 


As pessoas podem estar alheadas, revoltadas, cansadas, mas percebem a diferença entre aqueles que lutam pelas suas ideias e os que se escondem atrás de uma retórica vazia, esquecendo-se do passado para sobreviverem.


 

06 agosto 2013

Ruídos politicamente relevantes

 


Em relação à alegada negação de medicamentos inovadores por parte dos IPO, por motivos economicistas, convém que se esclareçam algumas coisas:



  1. A Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica (CNFT) foi criada com o objectivo de elaborar um Formulário Nacional de Medicamentos, actualizá-lo, elaborar normas de utilização dos medicamentos incluídos e promover a sua utilização no SNS.

  2. Dessa Comissão fazem parte, entre outros, Médicos e Farmacêuticos representantes de várias unidades hospitalares e um representante da Ordem dos Médicos - Dr. José Manuel Silva (o Bastonário).

  3. A dita Comissão já elaborou uma lista de medicamentos a serem utilizados no cancro da próstata da qual não consta o medicamento de que se fala (abiraterona), segundo um comunicado do Ministério da Saúde.

  4. Se, como diz o Bastonário, o medicamento tem eficácia comprovada e consta das guidelines internacionais, e das normas de orientação clínica da Ordem dos Médicos (as quais não se encontram disponíveis no site), porque não está na lista da CNFT (não a encontrei acessível na internet)?


Este é um assunto demasiado importante para que subsistam dúvidas. Uma coisa é a racionalização dos custos e a reorientação das prioridades, outra muito diferente é negar aos doentes a melhor, indicada e mais adequada terapêutica. Mas será de facto esse o caso?


 

Cismas

 


As fronteiras existem mesmo para ser ultrapassadas. Sejam vermelhas, amarelas ou incolores, não há palavras irrevogáveis nem limites distinguíveis. É tudo muito movediço.


 


É como as memórias traiçoeiras e atraiçoadas. Instabilidade política? A maior está precisamente dentro do governo. Sim, porque a oposição é mesmo só uma palavra, diariamente revogável.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...