30 março 2013

Renovação

 



 


Na berma da estrada correm flores roxas e amarelas, numa exuberância de vegetação bêbeda de água. O céu grita de azul e a mornidão do dia desabriga os passeantes.


 


A quietude e a cíclica renovação da natureza, ontem chuvosa, cinzenta e meditabunda, hoje indisciplinada e adolescente. Nada é eterno, nada é inamovível, nada é inevitável. Nasce-se, cresce-se e morre-se; sexta-feira da paixão, sábado de aleluia, domingo de ressurreição - Cristo como metáfora do que sabemos desde tempos imemoriais, desde o início da vida.


 


É esta a certeza que devemos ter sempre presente, por muito longínqua que a esperança esteja. Estamos apenas em gestação.


 

O gosto da descoberta

 



 


Não encontrei nenhum trabalho, teoria ou reflexão filosófica que explicasse a razão de haver uma associação entre a literatura policial culinária. Dos autores que conheço, bem sei que poucos dos milhões que devem existir, o que desvaloriza totalmente a amostragem, três, e todos pertencentes à Europa mediterrânica, têm detectives gourmet: Comissaire Maigret, de Georges Simenon, Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, e o Inspector Jaime Ramos, de Francisco José Viegas.


 


Haverá alguma conexão especial entre o gosto e o raciocínio lógico, ou entre o gosto e a pulsão para a violência, para o crime? As sensações despertadas pelos odores das ervas e das carnes, pelas texturas e pelas cores dos alimentos, pelos paladares dos doces e dos ácidos, serão semelhantes às do encontro de padrões de comportamento, dos elos perdidos nas cadeias de acontecimentos, das motivações escondidas da superfície, da incapacidade de não esgravatar à procura do tesouro, da resposta a um enigma?


 


Cozinhar ocupa as mãos, que se desdobram em afazeres de esmagar, cortar, mexer, misturar, libertando a mente para o raciocínio e a contemplação. Por outro lado, as memórias evocadas pelos cheiros e pelos sabores, poderão estimular miríades de outras memórias e de saberes aprendidos sem nos darmos conta, que ligam factos e levantam mais perguntas.


 


Há dias ouvi Francisco José Viegas contar que lhe faziam, por vezes, perguntas, como se Jaime Ramos fosse real. Pois o Inspector Jaime Ramos é real, tem uma casa onde mora, ruas por onde caminha, mercados onde escolhe os ingredientes que cozinha devagar, enquanto saboreia um bom vinho, um clube pelo qual torce, um trabalho que lhe revela a sua própria humanidade. Poderá até ser mais real do que o próprio criador. E este é um dos maiores elogios que se pode fazer a um escritor.


 

28 março 2013

Sobre a entrevista de Sócrates

 


Subscrevo muito do que Porfírio Silva diz, principalmente a sua última frase:


(...) Dito tudo isto, tomara Portugal poder contar com muitos políticos com a preparação, a força e o patriotismo de José Sócrates. Fazem-nos tanta falta políticos desses como não nos fazem falta nenhuma quaisquer excessos de sebastianismo positivo ou negativo.


25 março 2013

O Coleccionador de Erva

 


Francisco José Viegas de regresso aos livros e ao Inspector Jaime Ramos - uma boa prenda nesta Páscoa de martírio continuado:


 



 Livraria Bertrand, Chiado


18h30


26 de Março de 2013


Pedro Marques Lopes apresenta


 

24 março 2013

Sócrates - o regresso

 



 


A reacção à notícia da contratação de Sócrates pela RTP pertence ao domínio da patologia social. Ou ao domínio do pavor irracional. Ou ao domínio da mediocridade acéfala. Ou ao domínio da incapacidade de sentir a democracia.


 


Ao fim de dois anos há um enorme vazio de liderança no PS, onde António José Seguro continua a protagonizar a ausência de alternativa à política desastrosa do governo e da maioria PSD/CDS. Por outro lado, toda a propaganda feita durante os últimos meses do governo anterior, comandada pelo Presidente da República, em que diariamente se demonstrava a necessidade absoluta de mudar de governo pela exorbitância dos sacrifícios que se estavam a impor aos portugueses, com a implementação dos sucessivos PECs negociados com a Europa, em que diariamente se propalava a obrigatoriedade de recorrer ao resgate do país, culpando-se Sócrates de ser teimoso e de negar essa assistência financeira, em que diariamente todos os comentadores e economistas faziam eco da bondade e inevitabilidade das medidas de austeridade que iriam salvar o país, se esboroou e escancarou todo o embuste que venderam.


 


Imediatamente após o assalto ao poder, esta maioria fez exactamente o contrário do que prometeu, a troco de exactamente nada, ou mais precisamente, a troco de um retrocesso não só económico como social. O trabalho não vale nada, os direitos sociais transformaram-se num luxo só para alguns, a ideologia reinante regressou ao miserabilismo e à corrente da minoria que tudo tem e da imensa maioria que se deve contentar e agradecer o pouco que pode.


 


Não tenho quaisquer dúvidas de que o regresso de Sócrates significa que ele quererá regressar à política activa. E já teve algum resultado, como a moção de censura que António José Seguro resolveu anunciar. De repente o PS quer dizer que está vivo. Por outro lado lêem-se artigos que defendem o resgate da área do comentarismo político para os jornalistas, quando estes apenas fazem propaganda mascarados de imparciais observadores da realidade. Aguardo ainda os sinais da Presidência. Calculo o desconforto causado pela ideia de ter José Sócrates a falar de algumas nebulosas acontecidas durante os seus governos.


 


Na verdade estamos todos à espera da entrevista agendada para 4ª feira. Se foi Miguel Relvas o autor de tão estrondosa ideia, como se diz por aí, não percebo muito bem o alcance da mesma. Para Sócrates até pode ser uma péssima aposta. O desgaste mediático de uma permanência semanal à frente das câmaras e o teor do género de programa não permitem distanciamento e convidam ao imediatismo e superficialidade das análises. Basta comparar com o que se passa com Marcelo Rebelo de Sousa, cuja hipótese de candidatura presidencial me parece cada vez menos credível, pois está transformado no Professor Zandinga da política. De qualquer das formas, odiado por uns, aplaudido por outros, já mexeu um pouco estas águas paradas.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...