07 julho 2012

Um dia como os outros (112)

 



(...) Tem Miguel Relvas toda a razão: todo o cidadão tem direito ao bom nome. Até ele, que o negou a outros. Curioso que só se dê disso conta quando é à sua porta que as acusações e insinuações batem, depois de tudo ter feito, como tantos "notáveis" do seu partido, de Santana a Ferreira Leite, de Marques Mendes a Menezes, de Pacheco Pereira a Passos, para que a doença do ad hominismo infetasse o combate político, banalizando as considerações sobre "o carácter", o percurso académico e até a família dos adversários. (...)


 


Fernanda Câncio

A falácia dos subsídios

 


É bom não esquecer que os 13º e 14º meses não são prendas de bom comportamento nem mordomias dos funcionários públicos. São cerca de 14% da remuneração anual, que é paga em 14 prestações. Por isso, o corte destes pagamentos corresponde a um corte de 14% dos ordenados.


 


Ou seja, um corte de 7% do ordenado a todos os trabalhadores, corresponde a metade do que foi cortado aos funcionários públicos, não contando, evidentemente, com os 10% que já lhes tinham sido subtraídos


 


Não estou a defender que se cortem ordenados a todos os trabalhadores. Mas se a necessidade que levou à redução correspondente a 14% dos ordenados dos funcionários públicos é assim tão premente, ela deve ser dividida por todos. Os resultados, no entanto, estão à vista de todos.


 


Porque é que o governo não aproveita a oportunidade e não passa a pagar em 12 prestações, acabando definitivamente com a semântica dos subsídios, que é uma falácia completa? E, já agora, porque é que não aproveita para repôr o que retirou, visto que a situação só piorou?

06 julho 2012

Estado de direito

 


A decisão do Tribunal Constitucional (TC) foi, como disse Guilherme de Oliveira Martins, a prova de que o Estado de Direito funciona, mesmo que disso tenhamos dúvidas todos os dias, muitas delas bem fundadas. Percebo o facto dos Juízes terem tornado o ano corrente numa excepção, embora considere que foi uma opção política. Se é uma medida inconstitucional o Estado deveria ressarcir os cidadãos do que já lhes foi retirado. Desta forma o TC dá uma folga ao governo que, inclusivamente, pode ser usada para estender esse imposto ao sector privado.


 


No entanto, penso que o governo não tem condições políticas para se atrever a retirar o subsídio aos restantes trabalhadores. Neste momento, a paciência esgotou-se e não haverá vozes internas que sustentem mais austeridade, por muito que a vontade expressa de Passos Coelho e Vítor Gaspar seja de cumprir o défice a todo o custo. Já todos perceberam que não há margem para mais medidas recessivas e o que, provavelmente, acontecerá, é um imposto que seja distribuído por todos, substituindo o corte dos dois subsídios ao funcionalismo público.


 


Para além disso, deva dizer-se que esta decisão assina mais uma derrota de Cavaco Silva, com a demonstração da sua arrogante inutilidade, mais uma derrota do governo, pela incompetência e cegueira patentes, e mais uma derrota de António José Seguro, pela vacuidade da oposição que pratica.

05 julho 2012

A vez dos privados

 


A decisão de inconstitucionalidade em relação ao corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos, por violação do princípio da igualdade, deu a desculpa perfeita para a extensão do mesmo corte aos trabalhadores e pensionistas do sector privado.


 


Via Aspirina B.


 


Nota 1: Parafraseando a Shyznogud: (...) E uma vénia aos deputados do Bloco, do PCP e do PS (estes contrariando a sua direção de bancada) que fizeram o que Cavaco não fez.


 


Nota 2: Corrigindo a mesma, como ela própria: (...) E uma vénia aos deputados do Bloco e do PS (estes contrariando a sua direção de bancada) que fizeram o que Cavaco não fez.

Fim de tarde

 



Jacqueline Rush Lee


 


 


Espalhavam-se pelo recinto, em pequenos grupos, habitualmente centralizados por alguma figura pública rodeada por outras que aspiravam à publicidade, do qual ressaltavam, por vezes, vozes exuberantes e risos de estalo. A roupagem era cuidadosamente casual, os olhares abrangendo a assembleia, atentos a quem chegava e a quem partia, trocando-se murmúrios de reconhecimento e identificação.


 


Arrastava-se a hora marcada muito para além do aceitável como é de bom tom em eventos literários, vernissages e afins, em que o fazer-se esperar a audiência apenas tem como objectivo ver e ser-se visto.


 


Autores sentados, apresentador a preceito, voz profunda e texto em folhas A4 frente e verso dactilografadas, letra arial 12 a espaço e meio, perante a assistência já preparada para os pequenos sons guturais de apreciação e aplauso, pequenos risos entremeados, acenos de cúmplices entendimentos. E de uma assentada, aquilo que se antevia como horas de prazer despretensioso, na mente de calções e pés descalços, areias macias e fins de tarde gloriosos, transformaram-se num manancial de profundos pensamentos, abundantes citações, indagações da vida e filosofias de antanho.


 


Muitos terão definitivamente decidido em que canto da prateleira iriam arrumar o pesado causador do evento, depois de uns dias estrategicamente colocado à vista dos visitantes. Muitos terão definitivamente decidido do imenso tédio de tal leitura, aposta pouco profícua para as horas de lazer. Poucos os que tentaram ver, atrás dos semblantes compungidos e seráficos dos autores, o susto de terem produzido tal imensidão de alindados pedregulhos, de tão espantosas metáforas, de tão deleitosas capacidades de projecção de consagrados autores literários.


 

04 julho 2012

Jornalismo político

 


Há muito que o jornalismo deixou de ter como objectivo a informação. E talvez este nunca tenha sido o único, mas apenas aquele que servia de cartão-de-visita para determinados posicionamentos políticos e ideológicos. Mas arrogar-se de um distanciamento científico e patriótico para servir uma determinada agenda, é menorizar a inteligência de quem ainda lê jornais.


 


No editorial de hoje o Diário Económico online, do alto da sua cátedra, discorre sobre o prejuízo para o país que será consequência das greves que se avizinham, misturando a dos pilotos da TAP com a dos médicos, a da Rodoviária de Lisboa e a da CP. Diz o editorialista (não identificado, por sinal), que o país precisa de trabalho, em vez disso assistindo ao regresso da política pura e dura, subentendendo-se como o regresso de todos os males.


 


Só que o próprio editorial é uma intervenção política, mascarada de análise, em que só falta dizer tudo pela Nação, nada contra a Nação, deixemos a política que só nos divide. A lavagem cerebral contínua que este tipo de artigos e comentários tentam, é bem a prova de que não existe jornalismo independente. Nada tenho contra, desde que estes interventores políticos se assumam como tal.

03 julho 2012

Mato

 



T.A.G: The room


 


 


O que foi que nos atrasou neste tempo


de searas verdes de vinhas cansadas de mato em sangue?


O que foi que nos leram em infâncias


relembradas nos vagarosos lumes de anteriores Outonos?


Nem sempre os lamentos nos consolam


nem as rugas se prestam ao lento remar da melancolia.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...