03 dezembro 2011

O que dói às aves

 



Alice Vieira


 


Sempre amei por palavras muito mais


do que devia


 


são um perigo


as palavras


 


quando as soltamos já não há


regresso possível


ninguém pode não dizer o que já disse


apenas esquecer e o esquecimento acredita


é a mais lenta das feridas mortais


espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo


e vai cortando a pele como se um barco


nos atravessasse de madrugada


 


e de repente acordamos um dia


desprevenidos e completamente


indefesos


 


um perigo


as palavras


 


mesmo agora


aparentemente tão tranquilas


neste claro momento em que as deixo em desalinho


sacudindo o pó dos velhos dias


sobre a cama em que te espero


 

Camelos de Presépio - Natal 2011

 


Mais uma vez a Barbearia mais conhecida do bairro decidiu promover o famoso Concurso de Natal.


 


Este ano os concorrentes não se fazem esperar, e já há alguns algumas bossas alinhadas na primeira fila.


 


O Quadrado defende-se em todas as circunstância e, também este ano, apresenta a concurso um camelo bastante festivo, para alienar das amargas agruras da época que se avizinha.


 


O regulamento está bem explícito.


 



 


A vitória é certa.


 

02 dezembro 2011

Estreito

 



Oushi Zokei


 


Não percebo porque devo andar sempre em círculos


quando o caminho é demasiado estreito


para o desenho aberto do mundo.


 


 

União orçamental

 


A Chanceler alemã, do alto do seu estatuto auto investido de Timoneira da Europa, quer uma união orçamental. Ontem Sarkozy, auto investido de Adjunto da Timoneira europeia, fez um discurso em que proclamava a união com a Alemanha na defesa do euro e da Europa.


 


A expressão União Orçamental agrupa as seguintes exigências - inscrição nas constituições dos países membros de tectos de dívidas públicas e de défices orçamentais, com penalizações automáticas para os infractores, desde que, obviamente, não sejam a Alemanha e a França. Quanto aos limites e aos orçamentos não se sabe bem se necessitam apenas de ser aprovados pelo Parlamento alemão ou se também têm que ser ratificados pelo francês.


 


Estou muitíssimo interessada em saber a opinião dos dirigentes dos partidos da coligação governamental, do maior partido da oposição e do Presidente da República, sobre esta refundação europeia e sobre a implementação democrática deste novo Tratado Europeu.

01 dezembro 2011

A fantasia europeia

 


O euro já acabou mas ainda não há coragem política para o dizer e assumir perante a ainda Europa. Enquanto se continuam a anunciar intenções de fuga para a frente - novos tratados, perigos após fragmentação da Europa - a realidade já está a ser ensaiada por empresas desses mesmos países da ainda Europa.


 


Estamos a viver uma situação fictícia. A defunta união monetária mascara ainda a desunião política.


 


É difícil imaginar uma Europa com fronteiras, moedas várias, desagregação do edifício legislativo, do comércio alargado, suspensão da mobilidade e do alargamento do mercado laboral. É difícil imaginar uma Europa que já não acredita nela própria. É difícil aceitar mudanças tão contrárias ao que foi um dos pilares do nosso crescimento e desenvolvimento, uma das razões de um tão prolongado período de paz e de qualidade de vida, de valores democráticos, de solidariedade e humanidade.


 

Não pense

 



 


Não pense. Levante-se e ande. Comer pouco, muito pouco. Café faz-se em casa, no aconchego do lar. Aquece-se o corpo com cobertores ou com outro corpo. Melhor a segunda hipótese. Tomar banho aos domingos e feriados, ou só aos domingos, porque vão acabar os feriados. Talvez não acabem com os dias do Senhor ou da Nossa Senhora, nesses também se pode tomar banho. Nos outros dias usam-se os lavatórios e os bidés, aqueles equipamentos que estavam a cair em desuso mas que, no Portugal do século XXI, são do mais avançado que há.


 


Não pense. Levante-se e ande. A roupa ainda serve. A nova moda é a recuperação do velho. Reciclar é o mote das novas temporadas, que se prolongarão não se sabe bem por quanto tempo. Andar a pé e muito, faz bem e ajuda a manter o peso. Mas as horas gastas nos transportes serão sempre bem aproveitadas a ler um livro ou a ler o livro do vizinho, ele que gaste o dinheiro, a falar das férias que há muitos anos se faziam, ou da desgraça da vizinha.


 


Não pense. Levante-se e ande. Almoços vegetarianos ou frugais, nas marmitas de transporte que se compram no continente, aquecidas nos micro-ondas do trabalho. Café? Demasiado pode fazer subir a tensão. Não pense. Levante-se e ande. O serão bem ocupado com a roupa, a louça, o pó, o aspirador. Puro exercício, melhora as articulações. De vez em quando vê-se a TV, RTP, TVI e SIC, que não há dinheiro para pagar o resto. Nem internet, nem jornais, nem cinemas, nem concertos, nem museus. As noites de sono são mais profundas.


 


Não pense. Levante-se. Ande.


 


Revista-Me 04


 

28 novembro 2011

Um dia como os outros (104)


(...) O caso é que o OE 2012 da República da Irlanda chegou primeiro ao conhecimento do Bundestag do que ao do Parlamento Irlandês. Assim, os deputados irlandeses só ficaram inteirados pelos jornais de que os deputados alemães estavam a analisar a possibilidade de um aumento do IVA na Irlanda.


Após algum embaraço inicial, a Comissão Europeia e o Governo alemão vieram a terreiro explicar nada haver de anormal no sucedido, visto que apenas foram seguidas as regras de funcionamento do FEEF impostas pela Alemanha.


Para quem ainda tinha dúvidas, fica defiinitivamente esclarecido que a união fiscal de que agora se fala consiste apenas e só na definitiva e completa transferência de poder dos parlamentos dos diversos estados nacionais para o parlamento alemão. Pergunto-me como podem os governos europeus ficar calados perante um tal atropelo à legalidade democrática tanto nacional como europeia, não suportado por qualquer tratado livremente negociado.


Estamos agora todos à espera que, no dia 9 de Dezembro, a chanceler Merkel apresente à União Europeia o seu ultimato político-financeiro: ou os países-membros da União Europeia aceitam submeter-se incondicionalmente à autoridade alemã ou não haverá euro-obrigações para ninguém e a zona euro será desmantelada.


(...) Entretanto, não entendo como os jornalistas dos vários países permitem que os seus governantes permaneçam calados.


Por que não perguntam a Passos Coelho o que pensa do que já se conhece da proposta franco-alemã que vai ser formalmente apresentada na cimeira de 9 de Dezembro? E por que não dirigem a mesma questão aos restantes dirigentes partidários, a começar por Portas e Seguro? E, já agora, não faria sentido inquirir também o sentimento dos sindicatos e associações patronais?


E o Presidente da República, a quem incumbe a defesa da Constituição, não deveria falar antes que seja tarde?


E não seria bom o parlamento português antecipar-se e suscitar de imediato a discussão da projetada limitação dos seus poderes? (...)


 


João Pinto e Castro


Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...