18 novembro 2011

Um dia como os outros (102)

 



(...) Os tempos que correm - eu sei! - não vão fáceis para o Estado e para quantos o defendem. Diabolizado por muitos, o Estado passou a ser o bode expiatório de todos os males e de todos os défices, com alguns a apelar por "menos Estado e melhor Estado", quase sem esconderem o desejo de colocar ao seu serviço o que dele sobrar. Os professores, as forças de segurança, os servidores da Justiça, os militares, os funcionários da saúde pública, os técnicos e administrativos de imensas áreas e, por maioria de razão, essa casta irritantemente snobe que são os diplomatas - tudo isso não passa, no discurso dos turiferários das virtudes angelicais da "sociedade civil", de um bando de inúteis gastadores, de preguiçosos absentistas, de mangas-de-alpaca que pilham o erário e o que foi criado pelo suor de quem "produz a riqueza".



É claro que sei que vou contra "l'air du temps", que vou correr o risco de eriçar alguns sobrolhos e de excitar alguns blogues ou colunistas desses novos "libertadores", mas deixem-me que aqui diga hoje, quatro décadas depois de ter começado a servi-lo, sem uma ponta de arrependimento, com um imenso orgulho e com a liberdade a que o 25 de abril me deu direito: viva o Estado!

 

 


 

Latir

 



Jean-Luc Cornec


 


Acompanho as letras desatenta desatentas as letras


as palavras baralham e baralham-se de lugares variam


do fim para o princípio significados e significantes


significativo cansaço das letras bocejantes a luz que baixa


os olhos a fechar dispara o latir cardíaco e as letras baralham


baralham-se pontos palavras compridas sem significado


significativo do andar mudo do mundo.

Da desconsideração do teatro

 



 


Diogo Infante, Director Artístico do Teatro Nacional D. Maria II desde 2008, divulgou um comunicado em que justificava a suspensão da programação para 2012 por causa dos cortes orçamentais a que a Instituição tinha sido sujeita. Na sua opinião a qualidade da programação seria impossível de manter naquelas circunstâncias.


 


Perante este comunicado, o Secretário de Estado da Cultura decidiu de imediato a cessação de funções de Diogo Infante.


 


Penso que tanto Diogo Infante como Francisco José Viegas fizeram o que se espera de pessoas responsáveis. Tenho todas as razões para considerar o mandato de Diogo Infante e da sua equipa como excelente e acho o desinvestimento na cultura como um todo e, no caso presente, no teatro, uma das muitas marcas negativas deste governo. É uma pena que esta equipa não possa continuar a desenvolver os seus projectos com a dignidade que considera ser obrigatória a um Teatro Nacional. Mais uma vez, as prioridades da coligação de direita não envolvem a criação artística. A cultura é olhada como um luxo desnecessário ou mesmo provocatório num país que se deve canalizar para o empobrecimento mental. Mas parece-me óbvio que o Secretário de Estado só podia ter tomado esta atitude. Tal como no caso de Dalila Rodrigues.


 


João Mota aceitou o desafio. Desejo-lhe muita sorte, que bem precisará dela. Espero que o Teatro Nacional D. Maria II seja respeitado, tal como os seus potenciais espectadores.


 



 

13 novembro 2011

Para mais tarde experimentar

 


 


 


Neste dia escuro e deprimente é terrível estar em dieta. Só me apetece fazer comida, calórica, quente, doce, aconchegante.


 


Tenho em casa várias iguarias e não sei como as conjugar. Mas imaginação nunca me faltou. Além disso, com a quantidade de programas culinários a que tenho assistido ultimamente, onde se misturam os ingredientes mais estranhos, estou muito mais aventureira e perigosa. Para variar vou descrever uma receita que ainda não experimentei. Se alguém quiser arriscar…


 


Tenho uns lombinhos de porco que vou assar, acompanhado de castanhas e puré de peras (maçãs não tenho, mas peras). Sendo assim, temperam-se os lombinhos de porco com sal, pimenta, dentes de alho esmagados, um pouco de colorau, folhas de louro e vinho branco, deixando-se umas horas a marinar. Depois levam-se ao forno para assar, com azeite.


 


Enquanto os lombinhos assam, cozemos as castanhas com um pouco de sal, assim como as peras, em tachos diferentes. Quando estiverem cozidas esmagam-se (a varinha mágica deve bastar), misturam-se os purés com um pouco de manteiga e leva-se a mistura ao lume para secar um pouco. Rectifica-se o tempero (se calhar juntar um pouco de noz-moscada, como se estivéssemos a fazer puré de batata) e serve-se com os lombinhos.


 


Para aproveitar os abacates andei a investigar receitas de guacamole. Vou liquidificar 2 abacates, juntamente com 2 tomates, sem pele nem sementes, uma cebolinha, um dente de alho, pimento vermelho e sumo de limão. Calculo que também precise de sal e pimenta. Deve ficar uma excelente entrada, com pão torrado.


 


Bom, mas hoje é dia de esparguete à bolonhesa.


 

L'altru mondu

 



A Filetta & Antoine Ciosi

 

 


À l'altru mondu, u tempu hè longu, ci stà l'eternità.


È m'hà pigliatu à tempu natu; di mè, chì n'hà da fà?


O cara mamma, u paradisu hè grande cume tè,


È s'e ti chjamu à l'improvisu s'arricummanda à mè


Santa Marìa a to sumiglia ùn nu mi lascia più,


È mi cuntentu è mi ramentu, cume s'ell'era tù.


 


Timandu un fiore, u so culore, u sceglierai tù.


Hè ind'u pratu di u Muratu ch'ellu face u più.


S'e fussi eiu frà i più belli u cuglierebbi à tè,


Ma stocu in celu, è i to capelli sò luntanu da mè,


Ma i t'allisciu cù Ghjesù Cristu chì sà quale tù sì,


È mi cuntentu è mi ramentu, è megliu ùn possu dì.


 


Ùn piglià dolu, u to figliolu cù l'ànghjuli stà bè.


È ciò ch'e vogliu, u mio custodiu a sà prima cà mè.


Quì l'aria fine cume puntine cosge senza piantà,


Ore tranquille, à mille à mille, senza calamità.


À l'altru mondu, canta un culombu è paura ùn hà,


Per cacciadore ci hè u Signore, O mà ùn ti ne fà!



 

Terra de ninguém

 


Se há alturas em que os funcionários públicos especialmente e toda a população em geral têm razões fundadas para protestar e fazer greve, é esta. Estamos a viver uma crise económica, financeira e social gravíssima, temos um governo que foi eleito com base em falsos pressupostos, que tem feito exactamente o contrário do que apregoou, que está a implementar, sem oposição, o programa mais ideologicamente à direita desde o 25 de Abril, delapidando valores de equidade e justiça fiscal, igualdade de direitos fundamentais e destruição de conceito de Estado e de Serviço Público. Tudo isto numa Europa num crescente de autoritarismo e subversão dos valores democráticos, em que os governos e os povos são manietados e chantageados pel'Os Mercados e pela todo-poderosa Alemanha.


 


Eu sinto-me entre duas realidades que me assustam. Por um lado a necessidade e a vontade de protestar, de manifestar o meu desconcerto, desapontamento, a total desaprovação de tudo o que se passa e firme convicção de que tudo vai piorar. Por outro a certeza de que as manifestações a que assistimos neste último sábado, anacrónicas, repetitivas, iguais às que têm sido organizadas pelas mesmas estruturas sindicais anquilosadas, com as mesmas palavras de ordem, com os mesmos oradores, a dizerem as mesmas coisas que têm dito em todos os governos, de direita ou de esquerda, fossem quais fossem os partidos e as políticas seguidas, com as mesmas músicas de intervenção, importantíssimas e ícones de uma outra realidade, de um outro tempo, de outras gerações.


 


Mas se não me revejo na irrelevância destas acções de protesto, a que já ninguém dá crédito, tal como a greve geral marcada para 24 de Novembro, que tem toda a razão de ser, não fora o manancial de greves gerais marcadas pelos motivos mais disparatados, e pelo facto de ter a sensação de que quem mais tem a perder são os próprios trabalhadores em greve, ainda menos me revejo nas manifestações dos indignados, em que a pulsão antidemocrática e populista me repugnam.


 


Na terra de ninguém estou pior que o tempo invernoso, céu pesado e de chumbo, chuva forte e vento louco, numa temperatura amena de fim de época, humidificando e parasitando a nossa mente.


 

12 novembro 2011

A Paghjella di l'impiccati

 



A Filetta


 


 


 


Sè vo ghjunghjite in Niolu


Ci viderete un cunventu


Di u tempu u tagliolu


Ùn ci n'hà sguassatu pientu


Eranu una sessantina


Chjosi in pettu à u spaventu


 


Dopu stati straziati


Da i boia o chì macellu


Parechji funu impiccati


Ci n'era unu zitellu


L'anu tuttu sfracillatu


E' di rota è di cultellu


 


Oghje chi hè oghje in Corsica


Fateci casu una cria


Si pate sempre l'angoscia


Intesu dì Marcu Maria


Era quessu lu so nome


Mancu quindeci anni avia


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...