09 outubro 2011

Memórias

 



Paul De Koninck Lab 


 


Lembramos o sabor do gelado, numa manhã de Inverno, as lágrimas do irmão, acusado injustamente, o profundo cheiro amedrontado da sala de recobro. Lembramos o gesto preciso de guardar uma chave, os dedos presos no puxador da gaveta atravancada, mas esquecemos de imediato os dias seguintes, o retirar da mesma chave da mesma gaveta, um buraco no tempo que não conseguimos preencher. Lembramos vividamente circunstâncias e situações que comprovadamente não se passaram daquela exata forma.


 


Memórias construídas pela observação e aprendizagem do que se passou depois. Memórias construídas pelos estímulos emocionais que, ao desencadearem cascatas de sinalização, secreções proteicas e alteração espacial das sinapses, nos levam a lembrar atitudes, sorrisos e sensações, nem sempre correspondentes àquelas que, após um lapso temporal e a ausência de repetição dos mesmos estímulos, nos fazem olhar para a realidade com a memória apagada, distorcida, diferente.


 


Não existem boas testemunhas, pessoas que sejam capazes de reproduzir em documentário a ocupação do seu espaço e do espaço envolvente, pela sua vida e pela dos outros, baseada em acontecimentos. Mesmo no registo documental, os ângulos com que se olha, a abertura do diafragma, a inclinação da objetiva, estão condicionadas pela nossa memória.

08 outubro 2011

Fast speech

 


Antes da queda do governo, antes da não aprovação do famoso PEC IV, muitos foram os que se encarniçaram a adivinhar a urgência do pedido de ajuda externa ao FMI. Tanto que, na minha opinião, ajudaram a realizar a profecia. Estamos agora perante as mesmas ânsias: tanto se vaticina a próxima bancarrota que ela será cada vez mais provável. O Bastonário da Ordem dos Médicos junta agora a sua voz aos que já antecipam como certa a nossa insolvência.


 


Eu até acho que o Bastonário da Ordem dos Médicos, pela notoriedade da sua função, deveria ter um papel ímpar na redução dos gastos supérfluos, no combate ao desperdício, na utilização criteriosa dos parcos recursos do Estado, imprescindíveis à sustentabilidade do SNS.


 


Para isso seria interessante ouvi-lo lembrar o papel determinante de uma boa história clínica, do apuramento detalhado das queixas dos doentes, do registo dos sintomas e dos sinais, dos antecedentes de saúde e familiares, das virtudes de um exame físico completo, da auscultação pulmonar, cardíaca, da palpação abdominal. Gostaria de o ouvir em conferências e artigos enfatizar a necessidade de estudar as várias hipóteses diagnósticas antes de requisitar inúmeros RX, TAC, endoscopias, com e sem biopsias, e análises múltiplas, de informar os colegas que fazem e têm que interpretar os resultados dos meios complementares de diagnóstico sobre as suas certezas e incertezas, do debate multidisciplinar prévio às decisões terapêuticas e prescrições medicamentosas, para além do imperioso cuidado com super medicação.


 


Penso que o Bastonário da Ordem dos Médicos poderia ajudar imenso se lembrasse a todos os profissionais que as tecnologias informáticas são uma ajuda preciosa para ganhar tempo e reduzir custos, que a utilização sistemática dos correios electrónicos aumenta a rapidez e a eficácia da comunicação, eliminando horas de espera, telefonemas repetidos, interrupções de trabalho inoportunas, gasto de papel inconsequente. Poderia ainda motivar todos os médicos a renderem-se ao benefício inequívoco das requisições, das prescrições e dos processos clínicos electrónicos.


 


O Bastonário da Ordem dos Médicos seria, com certeza, um excelente aliado do SNS e da defesa da saúde dos portugueses, mesmo poupando-os a novos impostos sobre fast food e a ironias quanto à bondade da promoção do consumo do tabaco.




 

Leite e mel

 



Ledray: Milk and Honey (detail)


 


Aguardo que me escorra leite e mel


promessas sem compromisso destinos acordados


noites molhadas de mãos perdidas


aguardo alvoradas ardentes


virgens de vícios e decepção


ausência de mitos ensinados


vida tão mais aguda e decidida


que a sua múltipla negação.

Náufrago na lua

 



 


Coberto de dívidas e sem esperança, Kim decide afogar-se, atirando-se de uma ponte sobre o rio Han, na cidade de Seoul. O azar ou a sorte não o deixam morrer e ele acaba numa pequena ilha deserta, da qual se contempla o esplendor de uma grande metrópole.


 


Do outro lado da ponte, em Seoul, fechada num apartamento, vive KIM, uma rapariga cuja existência se confina ao seu quarto. O seu contacto com o mundo é feito através de um telescópio e da internet, onde se inventa em personagens fictícias. A lua é a sua casa.


 


Kim, naufragado na ilha e Kim, naufragada na lua, iniciam uma estranha aproximação, apenas possível naqueles que, despojados de tudo, percebem o essencial da vida e se despem de tudo o que nos parece indispensável e nos escraviza.


 


Filme de actores, com um argumento aparentemente simples, em que a banda sonora acompanha as emoções sem as conduzir nem as condicionar, uma deliciosa descoberta.

07 outubro 2011

Actualidades

 


De vez em quando ainda levanto o pouco o voluntário afastamento das notícias.


 


Ouvi a entrevista que Pedro Silva Pereira deu a Maria Flor Pedroso, em que desmascara a mistificação que este governo fez à volta da execução orçamental do 1º trimestre, do desvio colossal e do conhecimento ou desconhecimento das dívidas da Madeira.


 


Li que Teixeira dos Santos defende que o PS viabilize o Orçamento de Estado para 2012, porque não é altura de tirar dividendos políticos, sendo imprescindível assumir responsabilidades. Ainda há pessoas que colocam o interesse do país acima de qualquer outro interesse.


 


Leio e ouço muitos que rejubilam perante o fracasso da descida do défice e do aprofundamento da recessão, como demonstração de que este governo não é capaz de governar. Não votei no PSD nem no CDS, não aprovo a ideologia deste governo, não me revejo neste mandato presidencial. Mas o fracasso deste governo, que venceu eleições livres apenas há alguns meses, portanto escolhido pela maioria dos portugueses, é o fracasso de todos nós. Não o desejo nem o aplaudo. O governo tem legitimidade para governar e deve fazê-lo. O PS é co-responsável por muitas das medidas que estão a ser tomadas, pois assinou o memorando.


 


Espero que o PS assuma as suas responsabilidades, sem aproveitamentos espúrios da aflição nacional. Debater e combater as políticas com que não se concorda, mas sustentar aquilo que tem que ser sustentado para que todos estes sacrifícios possam fazer algum sentido.


 


Foi um erro o chumbo do PEC IV. O PS deve lembrar-se bem desse erro dos partidos da oposição. É bom que o não repita, agora que já não é governo.


 


Outra notícia que acende uma luzinha de esperança: a maioria absoluta de Alberto João Jardim pode não ser tão certa.

05 outubro 2011

Balada para un loco

 







 Astor Piazzola


 


 


Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste?
Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mi...
Cuándo, de repente, detras de un árbol, se aparece el.
Mezcla rara de penultimo linyera
y de primer polizonte en el viaje a Venus.
Medio melón en la cabeza,
las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies
y una banderita de taxi libre levantada en cada mano.
Parece que solo yo lo veo,
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan,
los semáforos le dan tres luces celestes
y las naranjas del frutero de la esquina
le tiran azahares.
Y así, medio bailando y medio volando,
se saca el melón, me saluda,
me regalo una banderita y me dice:


 


Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
No ves que va la luna rodando por Callao,
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor... ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!


Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión
y a vos te vi tan triste... ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!...
el loco berretín que tengo para vos.


 


¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.


 


¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad...
¡Ya vas a ver!


 


Y asi diziendo, el loco me convida
a andar en su ilusión super-sport
Y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!


De Vieytes nos aplauden: "¡Viva! ¡Viva!",
los locos que inventaron el Amor,
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.


Nos sale a saludar la gente linda...
Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!:
provoca campanarios con su risa,
y al fin, me mira, y canta a media voz:


 


Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Trepate a esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!


Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Abrite los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir...
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!


 


¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca el y loca yo...
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
¡Loca el y loca yo



Camisa de rã

 



 


Meias de lã


camisa de rã


sapato bicudo


sopé da manhã


olho sisudo


terra de fada


laço desfeito


aperta cintura


afia caneta


que bela figura


fundo decote


sem que se note


alva tremura


suspiro rasante


sorriso de lado


leque arejado


cala o tratante.


 


Meias de rã


sapatos de lã


deixa o cigano


cantar violino


pendura a manhã


na corda do sino.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...