Lembramos o sabor do gelado, numa manhã de Inverno, as lágrimas do irmão, acusado injustamente, o profundo cheiro amedrontado da sala de recobro. Lembramos o gesto preciso de guardar uma chave, os dedos presos no puxador da gaveta atravancada, mas esquecemos de imediato os dias seguintes, o retirar da mesma chave da mesma gaveta, um buraco no tempo que não conseguimos preencher. Lembramos vividamente circunstâncias e situações que comprovadamente não se passaram daquela exata forma.
Memórias construídas pela observação e aprendizagem do que se passou depois. Memórias construídas pelos estímulos emocionais que, ao desencadearem cascatas de sinalização, secreções proteicas e alteração espacial das sinapses, nos levam a lembrar atitudes, sorrisos e sensações, nem sempre correspondentes àquelas que, após um lapso temporal e a ausência de repetição dos mesmos estímulos, nos fazem olhar para a realidade com a memória apagada, distorcida, diferente.
Não existem boas testemunhas, pessoas que sejam capazes de reproduzir em documentário a ocupação do seu espaço e do espaço envolvente, pela sua vida e pela dos outros, baseada em acontecimentos. Mesmo no registo documental, os ângulos com que se olha, a abertura do diafragma, a inclinação da objetiva, estão condicionadas pela nossa memória.