25 abril 2011

Milonga de Abril

 



Tenho a dizer-te que tudo me incomoda. A roupa demasiado justa por sobre o corpo molhado, sempre a enrolar-se de um calor súbito e preciso, distribuído pela ansiedade de quem personifica a revolta contra o tempo. O peso que já não se reparte pelas várias zonas que ocupa, mas que se fixa inexoravelmente no apoio que falta. O cansaço mole dos movimentos presos, das noites em claro, dos pensamentos em círculos contínuos e fechados.


 


Tenho a dizer-te que a Primavera não está apenas nos perfumes que se misturam, nas ervas que crescem, no azul e verde que desponta a cada manhã. Não está ainda no caminho que faço junto ao mar, nas mãos que vou apertando e sentindo frias, nas portas teimosamente entreabertas. Sempre um biombo invisível.


 


Tenho a dizer-te que tardam os sinais da mudança, que desmaia o vermelho das flores, que se calam os filhos, que desistem os velhos, que se entulham as vontades, que se somam os silêncios, que arrefecem as bandeiras.


 


Tenho a dizer-te que Abril está mas não chegou, que Abril ainda não chega, que Abril congela nos abraços adiados, que Abril semeou mas não colheu, fartura de esperança sem Maio à vista.


 


em Revista-Me nº 01


 

Raízes

 



 


 



1.


Se olhares por fora


dissecares os hábitos de quem vive


neste pequeno centro sem cor,


se olhares para o negro


que afunda de maré vaza


as nossas praias


se olhares de dentro


fechas definitivamente a fronteira.


 


 



2.


Raízes de sal e algas sem terra firme


construímos as pontes do mundo.


Barcos e cruzes devotos de horizontes


Misturas e raças que nos entranham


sempre em busca do que não temos.


Em frente ao mar o desespero não tem lei.


 

24 abril 2011

Um dia como os outros (84)

 



(...) Amanhã, gostava de regressar à Avenida da Liberdade. De levar os meus filhos e com eles me sentir próximo de gente - estarão poucos ou nenhum - que ainda se lembra dos verdadeiros valores de Abril. Sobretudo da tal sensação de tudo ser possível, de sermos capazes, do futuro ser nosso. Não me lembro doutra ocasião, em trinta e sete anos, em que fosse tão necessário relembrarmos o que sentimos no dia 25 de Abril de 1974.


 


Pedro Marques Lopes


 


(...) Talvez tenha precisado de 37 anos inteirinhos para perceber que é meu dever lá estar, que não chega saber para comigo que foi um dos melhores, maiores dias da minha vida, mesmo se tinha só 10 anos, mesmo se o que vi da revolução ao vivo foram soldados na ponte Marechal Carmona (que ainda se chama assim, já agora), e que o que sou, como o que somos, as escolhas que pudemos e podemos fazer, o que podemos e pudemos sonhar e rejeitar, se fundou aí, se iniciou aí, se ancora aí. Que é altura de engrossar o número dos que celebram e não capitular na entrega disto a seja quem for, e muito menos ao olvido. Coincidência que seja este o ano em que se tornou comum, banal, quase normal ouvir e ler que “antes era melhor” ou que “não valeu a pena”. Coincidência que seja este o ano em que a Assembleia da República não festeja. Coincidência, sem dúvida, mas feliz, digo eu: é agora que é mais preciso, e é agora que faz mais falta. Fazer a marcha do orgulho do 25 de Abril. Embora.


 


Fernanda Câncio


 

Farófias e bel-canto

 



 


As farófias tomam conta da vida política. Por um lado, ficamos mais leves e mais doces. Tal como as farófias, as ideias derretem-se e é como se nunca tivessem existido. Ocupam o lugar do ar batido entre as claras, fofas, leves, como espuma.


 


Ao lado das farófias só o canto, o bel-canto, para ser mais precisa, a voz funda e vibrante, a postura da boca e das cordas vocais, os olhos que sonham o horizonte, enquanto o som treinado de uma laringe educada se faz ouvir aos ouvidos das gentes simples. Lá lá lá lá lá lá…


 


Ao lado das farófias e do bel-canto soa a família, a que se tem e a que se queria ter, os filhos, os cães, os periquitos, as tartarugas, os beijos, as mãos dadas, o eu amo-o profundamente, o ser brincalhão, os romances e os pastéis de nata.


 


E assim vamos nós, das farófias para o bel-canto, da mensagem pascal para as cadelas, do cor-de-rosa para o cor-de-laranja, do que não interessa nada para o que não tem interesse nenhum.


 

Inclinação

 

Cheryl H. Hahn: Incline

 


A tarde com as mãos na terra


ervas e aromas acalmam o dia.


Lá fora os ruídos do mundo sem chão


e as palavras sem rega nem regras


sem perdão.


 

Música Pascal


Take the A train


Michel Petrucciani


Steve Gadd


Anthony Jackson


 

Cabrito Pascal

 



(fotos da internet)


 


A melhor das receitas é mesmo a que é improvisada… e sai bem.


 


O meio cabrito que hoje assámos ficou divinal, como é próprio de um almoço pascal. Foi comparado num hipermercado, não sei qual, já partido a preceito e bem embalado, ficou a marinar desde 5ª feira em várias ervas aromáticas – tomilho, rosmaninho, louro, vinho, sal e xarope do ácer. Bem acamado do tabuleiro do forno, em lume muito brando, demorou cerca de 1:30h a cozinhar. À parte cozeram batatas pequenas, com casca que, depois de peladas, mergulharam no molho do cabrito para tomar gosto. Acompanhado de esparregado e Chateauneuf du Pape, tinto, sacrificámos o cabrito resignada e gostosamente.


 


A outra experiência também não correu mal, mas precisa aperfeiçoamento.


 


É uma tarte. Como despachada matrona que sou, isto de fazer massas quebradas, areadas ou folhadas não é comigo. Há umas maravilhosas no Pingo-Doce que é só esticar nas formas e/ou tabuleiros e colocar a assar no forno. No entanto, quando as ditas massas quebradas quebram mesmo por ficarem esturricadas, negras, totalmente impróprias para consumo, a internet é um excelente auxílio para nos livrar de embaraços. E assim resolvi seguir as indicações de algumas almas caridosas, fazendo uma pasta de tarte com bolachas moídas (250g). A receita aponta para bolachas Maria mas como não as tinha em casa, usei uns borrachões que me tinham dado, bem moídos no copo misturador. Depois juntei 150g de margarina derretida (no microondas), 2 colheres de chá de açúcar e sumo de meia laranja. Tudo muito bem homogeneizado, espalhado na forma de tarte, no frigorífico durante 2 horas.


 


Para o recheio usei uma receita de doce que me ensinaram há muito pouco tempo e que é rapidíssima e facílima de fazer: mistura-se 1 lata de leite condensado com 1 pacote de natas e sumo de 3 limões. Já está. Coloquei o recheio na forma já forrada com a pasta de bolacha e frigorífico com ela. Antes de servir coloquei em cima doce de morango que fiz há uns dias.


 


Ficou maravilhosa, com o ligeiro problema do recheio ser um pouco líquido de mais. Por isso ainda precisa de algum trabalho de remodelação.


 


Enfim, um belo repasto de Domingo de Páscoa.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...