13 março 2011

Um dia como os outros (81)

 



(...) Está, pois, na hora, de obrigar cada um a assumir as suas responsabilidades. Não vale a pena conversar com o PSD, porque o PSD não existe. Existe Passos Coelho, que quer qualquer coisa que evite a descida de Rui Rio à capital, e cujo principal exercício político é disfarçar. Disfarçar as políticas que quer tentar, resumidas no “salve-se quem puder”. Existe Rui Rio e os que querem um PSD “credível” para tomar conta da intendência, mas que ainda não acabaram de ultimar o plano de assalto ao palácio de inverno. E existe o chefe da oposição, que reside oficialmente em Belém.

Assim sendo, Sócrates, como PM e SG do PS, deve ir a Belém e dizer a Cavaco Silva: “o senhor Presidente acha que os portugueses não podem fazer mais sacrifícios; os seus aliados nas instituições europeias passam os dias a exigir-me que peça mais sacrifícios aos portugueses; os seus aliados nos partidos portugueses concordam consigo que isto vai lá sem mais sacrifícios – e eu não estou a ver como; o senhor Presidente teve a sua manifestação da maioria silenciosa, que ajudou a convocar no seu discurso de tomada de posse, na sua habitual abrangência política alimentada pela crítica sem alternativa, porque a alternativa é onde a porca torce o rabo; portanto, senhor Presidente, eu vou-me embora, o PS vai para a oposição, que já se esforçou o suficiente, e o senhor Presidente assuma as consequências do seu activismo e arranje uma solução”. (...)


 


Porfírio Silva

Das reformas

 


Infelizmente iremos fazer a reforma da legislação laboral a reboque das imposições de Bruxelas, de os mercados e semelhantes, em vez de termos tomado a iniciativa mais cedo, alterando o que deve ser alterado, com autonomia e independência.


 


Uma das razões para a existência de tantos recibos verdes e contratos precários, que penalizam mais quem quer entrar no mercado de trabalho, é precisamente a dificuldade em rescindir os contratos sem termo. Esses vínculos quase vitalícios, nomeadamente na função pública, que impossibilitam que haja verdadeiras escolhas e promoções por mérito, ferozmente defendidos pelas estruturas sindicais, levam ao preenchimento de todos os lugares disponíveis, reduzem a renovação geracional e empurram os mais jovens para uma permanente precariedade.


 


No entanto, aquilo que está previsto, tanto quanto saibamos, claro, é a redução das indemnizações por despedimento. Não seria preferível fazer o contrário? Facilitar os despedimentos, obviamente salvaguardando e prevenindo as discricionariedades por parte dos empregadores que, muitos deles, se têm aproveitado da conjuntura para oferecerem salários indignos, transformando a oportunidade de emprego numa nova forma de escravatura, e aumentar as indemnizações?


 


Não pode ser admissível, nem assumido como inevitável, que os empregos se transformem em incertezas do dia a dia e não em perspectivas de investimento e motivação numa qualquer actividade. Como também é inaceitável que pessoas sem qualquer interesse no trabalho, que não se empenham, que não se formam nem se informam, que procuram todos os pretextos para sair mais cedo e entrar mais tarde, mantenham os seus postos de trabalho porque têm contratos sem termo, enquanto outras pessoas mais qualificadas, excelentes profissionais, que adoram o seu trabalho e querem, de facto, desenvolver-se e fazer desenvolver o país, ficam de fora, sem que aqueles que se dizem defensores dos seus direitos tomem medidas para os defender. Já agora para nos defender a todos.


 

(Des)Informação

 


Não, afinal não eram 200.000, eram 300.000. Podemos fazer um leilão, a ver quem dá mais.


 


É aterradora a forma acrítica com que se replicam informações, boatos e certezas nos media portugueses. Esta manifestação, que foi, sem dúvida, um êxito, independentemente do que cada um de nós possa pensar das razões ou falta delas desta geração à rasca, não foi nada do que se tem escrito e publicitado em tudo o que é jornal, rádio, blogues, etc.


 


Não foi convocada pelo Facebooka iniciativa foi divulgada através do Facebook, mas deve ter havido poucas manifestações que tenham sido tão pré publicitadas, por quase todos os órgãos tradicionais de comunicação, como esta. Durante mais de uma semana não houve dia em que não tivéssemos sido lembrados da novidade e importância reivindicativa desta manifestação, sem organizadores e totalmente espontânea, tão interessante e tão igual às manifestações do Egipto e da Tunísia. Agora sim, o povo é quem mais ordena.


 


Não foi preciso qualquer esforço de organização nem de divulgação – a comunicação social e partidos da contestação se encarregaram disso.


 


Quanto aos números de manifestantes, o contágio da falta de sentido crítico é espantoso. Ontem começou por se falar em 200.000. Um dia depois a organização (aquela que não existia) contou 300.000, e os meios de comunicação, os tradicionais e os do séc. XXI, repetiram como papagaios esse número. Como me fizeram ver ontem, 200.000 pessoas equivalem a 4 estádios de Alvalade cheios; 300.000 correspondem a 6 estádios. Como também se sabe, ou deveria saber, há quem desenvolva métodos científicos para medir o número de manifestantes. Mas, claro que isso não interessa nada.


 


Porque o número de manifestantes interessa. Não significa o mesmo a presença de 3.000, 30.000 ou 300.000 pessoas na rua, em protesto.


 


Quanto à cobertura televisiva dada ontem da dita manifestação, foi eloquente. Durante toda a tarde, em directo, por vários canais de televisão, tivemos direito a ouvir as reportagens em cima do acontecimento, a motivação e o empolgamento perante tantos e tão desesperados jovens, menos jovens, Homens da Luta, Fernando Tordo, gente contra políticos e contra a política, desempregados, empregados a recibos verde, a contratos a termo, estudantes, reformados, enfim, uma panóplia de gente que, com as suas razões, decidiu mostrar descontentamento.


 


Não se percebe se esta forma de informar é apenas o resultado de incompetência ou falta de profundidade, se é intencional e manipuladora. O que é patente é a impossibilidade que os cidadãos têm de acreditar, minimamente, no que os meios de comunicação dizem sendo eles, em princípio e em teoria, os garantes da formação da opinião pública, em liberdade.


 


Nota: vale a pena ler este post.


 

12 março 2011

Os milhares


 


A manifestação de hoje, convocada pela geração à rasca, foi um êxito. Grande mobilização, calma, razões misturadas, desagrados vários, e um enorme desagrado geral, contra a falta de luzes ao fundo do túnel. Os aproveitamentos do costume e, para meu espanto, a estimativa do número de manifestantes, que começa a ser hilariante. Nada menos que 200.000 em Lisboa. Como me fizeram ver, hoje à noite, 200.000 pessoas equivalem a 4 estádios do Sporting ou a 3 estádios do Benfica em lotação esgotada.


 


Não havia necessidade.

Critérios editoriais

 



 


Confesso que leio pouco a revista da Ordem dos Médicos (ROM). Também não tenho estado muito atenta a algumas polémicas que se vão desenrolando na blogosfera. Aliás tenho sentido um cansaço imenso, quase uma náusea, de toda esta actualidade que nos apavora, de cada vez que ligamos o rádio ou vemos televisão.


 


Mas ontem a curiosidade (e a apreensão) venceram e fui ler com cuidado o artigo de opinião assinado por William H. Clode O sentido do sexo, publicado na edição de Janeiro da ROM. É um artigo de opinião dividido em 3 partes, datadas de 14 de Novembro de 2008, 8 de Setembro de 2009 e 1 de Dezembro de 2009. Nestes 3 textos o autor desenvolve a ideia de que o sexo é um sexto sentido, tal como o da visão, discorrendo sobre as alterações genéticas que levam ao daltonismo e comparando a homossexualidade com uma alteração genética, ainda não identificada nem estudada. Descreve também a consequência dessa eventual alteração genética, que correspondem a um comportamento típico, repugnante e com pouca higiene, fazendo parte desse comportamento desviante a utilização da boca e do ânus como órgãos sexuais.


 


Confesso, mais uma vez, que a discussão sobre a liberdade de opinião e o cabimento deste artigo numa revista da Ordem dos Médicos, por muito generalista que ela seja, me soa a exercício masturbatório de pseudointelectuais desempregados. Este artigo é um tal aglomerado de disparates que só o facto da ROM o ter aceite para publicação é inacreditável, quanto mais a defesa da sua publicação em nome da liberdade de opinião.


 


A minha reacção está muito para além do espanto. Acho degradante e atentatório da credibilidade da ROM, para além da credibilidade da classe médica como um todo, o critério editorial da ROM e o facto do Bastonário da OM achar normal a publicação deste artigo.

11 março 2011

Violência da natureza

Austeridade sem fim

Se tivéssemos alguma dúvida, José Sócrates e Teixeira dos Santos simpática e obstinadamente esclarecem-nos que as contas que prestam é a Angela Merkel e à União Europeia, que a política e a governação do país são dirigidas por Angela Merkel e pela União Europeia.´


 


Acho inadmissível que se apresentem mais medidas de austeridade sem que haja pelo menos a decência de as divulgar ao Parlamento português, para aplacar e suavizar as avaliações da Alemanha e da União Europeia, para tentar ganhar mais uns dias ou uns meses, não sei bem com que objectivo.


 


A estas medidas somar-se-á mais recessão económica, a que se seguirão mais medidas de austeridade. Não parece que nada disto tenha fim. Ou pelo menos um bom fim.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...