06 março 2011

Cobardia política

 



 


José Sócrates, perante uma manifestação de protestos contra uma medida impopular, que o seu governo decidiu, independentemente de ter cedido por compromisso com o PSD ou não, comportou-se de uma forma vergonhosa. Não sei quem ele tenta enganar, se aqueles que trata como papalvos, se a ele próprio. Qualquer das hipóteses o desqualifica muito mais do que o assumir que, ao contrário do prometido, tenha voltado atrás, como a muitas outras promessas, desde que iniciou esta legislatura.


 

Ditaduras larvares

 



 


A aliança entre todas as forças reaccionárias, demagógicas e populistas viu uma oportunidade na já célebre canção dos Deolinda. Que melhor causa para a união da alma nacional, das queixas contínuas, do mal dizer da vida, do aconchegar-se na ladainha do que se perdeu e da nostalgia do que nunca se alcançou, senão a bandeira da defesa do povo?


 


Vão-se reduzindo as pessoas que conheceram a fome, a censura a falta de oportunidades, a xenofobia, o racismo, a clausura de viver num país espartilhado entre as suas fronteiras, a reclusão cultural. A Europa era uma miragem ou uma dura realidade emigrante.


 


Crescem os extremismos de direita e de esquerda, os apelos ao pensamento único, o desprezo por quem assume responsabilidades políticas. A falta de ideias ou a presença delas requentadas e recicladas, temperadas pela inveja e pela preguiça, pelo esvaziamento da solidariedade e da partilha, da noção de comunidade, de esforço e de serviço público, é um rastilho fácil de acender.


 


A manifestação que se prepara, para pedir a demissão da classe política, as sondagens em França, que colocam a extrema direita à frente nas intenções de voto, a hegemonia da Alemanha no espaço europeu, o alargamento e a incapacidade dos estados membros, através dos seus cidadãos, decidirem os seus destinos, numa miscelânea de causas e consequências para a situação que hoje se vive, com tanta riqueza, tanto florescimento científico, tanto aumento da esperança de vida, desbaratadas e secundarizadas pela insegurança, incerteza, intolerância, consumismos desenfreados, poderes paralelos e não democráticos, como a desinformação e a ditadura dos media.


 


Substituir este regime por que outro regime, esta liberdade por que outra liberdade, estes protagonistas por que outros protagonistas? Será que esta geração que se manifesta à rasca, precária e suspensa, tem soluções, quer assumir o risco e o desafio de melhorar a situação do país e da Europa? Onde estão as suas alternativas? Que propõe? Onde estão os resultados da melhor educação, da melhor qualidade de vida, das melhores condições a que tiveram acesso?


 


Os políticos serão eles, os futuros e já os presentes. Será a eles que as próximas gerações pedirão conta, em democracia ou nas ditaduras que, larvarmente crescem dentro da mentalidade dos povos. É essa a resposta que podem dar?


 

05 março 2011

Manhã de Carnaval


Baden Powel


 


 

Entrudo


 


 


Está frio e chove


o diabo anda à solta


a morte passeia-se de negro.


Pai Velho e compadre


matrafona dos desejos


comadre testamenteira


corridas de chocalhos


vozes por trás do madeiro.


 


Cabeçudos e gigantones


entre carros trapaceiros


rei rainha e ministros


o governo apalhaçado


deste povo que trapaça


em cueiros sem dinheiro


este povo que tem raça


e escorraça


o mundo inteiro.


 

Salvação nacional

 



jornal i 


 


Um governo de salvação nacional, com o PSD, o CDS e o PCP. Uma solução brilhante. Não percebo porque se sugere que o BE fique de fora. Apenas o PS está a naufragar o país. O Presidente Cavaco Silva, numa iniciativa heróica, denominaria o Chefe do Governo, uma pessoa apartidária e apolítica, para acabar com os desvarios dessa classe de ladrões, os tais que corrompem o futuro. Poupar-se-ia o dinheiro que se desperdiça nas eleições, contribuindo para a poupança do estado.


 


Ficaríamos todos arrumados, bem comportados, a trabalhar para a unidade nacional, salvos, enfim.


 

Ouvir

 



 


 


Gosta mais de ouvir do que de falar. Gosta mais de pequenas reuniões do que de grandes manifestações, sejam elas de júbilo, reivindicativas ou sociais. Nisso é uma mulher convencional e muito conservadora. Ouve muitas histórias, algumas repetidamente outras novas e imaginativas. As vidas à sua volta sempre ricas, sempre diferentes e mais interessantes que a sua.


 


À volta da mesa cozinham-se afectos e rezas, em lume brando depuram-se dores e risos, mexem-se vagarosamente meladas e sensuais ânsias, agarram-se teimas e suores. Mais precisas que num laboratório, as medidas usadas, de tão qualitativas, correspondem aos mais altos níveis de qualidade e sensibilidade.


 


Daquela vez foi em finas rodelas de laranja, bem descascada, dispostas às camadas alternando com açúcar, pequenos e escassos fragmentos de gengibre fresco, paus de canela e jeropiga a cobrir. Completando com água sem afogar a mistela, o fogo lento e a colher envolvendo ritmadamente durante horas, até quase se acabar a conversa, o chá e os longos e paralelos silêncios que correm subterrâneos por dentro de cada alma.


 


 


Compota de laranja com gengibre e jeropiga


 


4 Kg de laranja descascada (em rodelas fininhas)


vidrado da casca de 2 laranjas/Kg (em bocadinhos muito pequenos)


3 Kg de açúcar


gengibre fresco (em bocadinhos muito pequenos)


0,5l de jeropiga


8 paus de canela


água (que baste para cobrir tudo o resto)


 

03 março 2011

Despojamento

 



Autor (?) 


 


 


Não conheceu pai nem mãe. Vivia com dois primos, um que mal se mexia, com o corpo enfezado, convulsivo e babado, com a boca torcida de sons indistintos, outro que saía muito cedo e chegava muito tarde, bebia mais que comia e adormecia invariavelmente de cigarro na boca.


 


Os dias passava-os na rua, na companhia de gente desenraizada e selvagem. O céu era melhor cobertor que as paredes arruinadas da casa em que vivia. Corria e roubava, fumava, bebia e esmurrava. Foi-se habituando à solidão da mesma forma que se habituou à falta de higiene e às dores de dentes, ao frio e à pancadaria.


 


Mesmo assim tinha a capacidade de amar intacta e transbordante, como um sentimento que se hipertrofia pela ausência de outros. Amava bichos, pessoas e pedras, com a ternura e a docilidade do despojamento total, da entrega sem esperança. Corria-lhe nas veias a depuração de um olhar tão pesado pela vida, que as raras migalhas de beleza inundavam de luz o seu mundo.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...