26 fevereiro 2011

Afundamentos

 



 


Kadhafi conseguiu esconder de todos os seus parceiros presidentes e monarcas de países por esse mundo fora, a perfídia que o consome, as diabólicas artimanhas que tece na sua tenda.


 


Repentinamente todos se dão conta da sua loucura, prepotência e falta de amor pela democracia e pela vida do seu povo. Até os seus mais próximos colaboradores, como embaixadores, ao descobrirem a verdade por baixo das vestes longas, dos óculos escuros e do guarda-chuva, corajosamente se demarcam do negro tirano.


 


Como é admirável a elasticidade do entendimento.


 

Cartão de eleitor


 


 


Felizmente, a oposição está alerta e não deixa passar iníquas propostas de lei deste governo sem préstimo. O número de eleitor, peça fundamental da arqueologia democrática, ícone e artefacto histórico português, deve ser mantido e acarinhado, defendido e promovido pelo Parlamento.


 


Por isso se entende e aplaude esta união da oposição que contraria a decisão de acabar com o número de eleitor, mas cria uma comissão eventual. Assim, sim, é a oposição em todo o seu esplendor.


 

24 fevereiro 2011

Códigos


 


Eddie Bowen: The Rock Machines 


 


 


I.


Vi crescerem ossos desmesuradamente


despontarem nervos insensatamente


arrastarem olhos gulosamente


esconderem risos esforçadamente.


 


Vi quebrarem laços aplicadamente.


 


 


II.


Contigo


sempre contigo, aprendo


a ler códigos silenciosos


de ternura.


 

A rua

 


Na Líbia o povo quer derrubar o poder autoritário e o próprio ditador. Por todo o mundo, os protestos fazem conjugar-se pressões internacionais para que o ditador deixe cordatamente o poder.


 


Não sei qual ou quais as personagens que corporizam o descontentamento e viabilizam a alternativa. Quem ocupará o poder quando cair Muʿammar al-Qaḏḏāfī (معمر القذافي)? O exército, tal como no Egipto, o Presidente do Parlamento, tal como na Tunísia (تونس)?


 

Abulia

 


Ouvi hoje alguém afirmar, quase em jeito de desafio, que cada vez via mais televisão, como estratégia para esvaziar a cabeça, não pensar em nada e ficar abulicamente sentada, até o sono vencer as pálpebras.


 

23 fevereiro 2011

Chamaram-me Cigano


José Afonso


 


 


Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rez
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura

Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi

Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive
o diabo na mão

Voltei da charola
de cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês

Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que nunca tal vi

Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão


 

Até quando?

 


A execução orçamental, anunciada com pompa e circunstância, perdeu a pompa e mantém a circunstância. Continua o trabalho para a surdez dos mercados. Vivemos na fronteira do desinteresse ou do desespero. Marinamos a vontade de mudar, reservamos a inspiração. Até quando?

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...