Ouvi hoje alguém afirmar, quase em jeito de desafio, que cada vez via mais televisão, como estratégia para esvaziar a cabeça, não pensar em nada e ficar abulicamente sentada, até o sono vencer as pálpebras.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Ouvi hoje alguém afirmar, quase em jeito de desafio, que cada vez via mais televisão, como estratégia para esvaziar a cabeça, não pensar em nada e ficar abulicamente sentada, até o sono vencer as pálpebras.
José Afonso
Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rez
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão
Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive
o diabo na mão
Voltei da charola
de cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão
Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que nunca tal vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão
A execução orçamental, anunciada com pompa e circunstância, perdeu a pompa e mantém a circunstância. Continua o trabalho para a surdez dos mercados. Vivemos na fronteira do desinteresse ou do desespero. Marinamos a vontade de mudar, reservamos a inspiração. Até quando?
E aí estamos todos preocupados com o acender da luta no mundo árabe. Não há Nostradamus que nos não venha à memória, o petróleo, o tão precioso petróleo que o ocidente sempre abusou, com o perigo de se ver nas mãos de um povo que dele nunca beneficiou.
Olhamos com apreensão os televisores, a moderna montra de horrores e propagandista do medo, do medo ocidental e moralista de uma sociedade em abundância, por muitas crises que nos atravessem.
Circulam algumas imagens e muitas informações não confirmadas. Apenas se confirma a violência que se segue à esperança, o totalitarismo que se mantém com o apoio dos tanques, dos bombardeamentos e dos medos da hipocrisia dos países ricos, que vendem a imagem da democracia e suspiram pela manutenção do status quo.
Pedro Jóia & Riacrdo Ribeiro
Rechiflao en mi tristeza, te evoco y veo que has sido
de mi pobre vida paria sólo una buena mujer
tu presencia de bacana puso calor en mi nido
fuiste buena, consecuente, y yo sé que me has querido
como no quisiste a nadie, como no podrás querer.
Se dio el juego de remanye cuando vos, pobre percanta,
gambeteabas la pobreza en la casa de pensión:
hoy sos toda una bacana, la vida te ríe y canta,
los morlacos del otario los tirás a la marchanta
como juega el gato maula con el misero ratón.
Hoy tenés el mate lleno de infelices ilusiones
te engrupieron los otarios, las amigas, el gavión
la milonga entre magnates con sus locas tentaciones
donde triunfan y claudican milongueras pretensiones
se te ha entrado muy adentro en el pobre corazón.
Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado,
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás;
los favores recibidos creo habértelos pagado
y si alguna deuda chica sin querer se había olvidado
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.
Mientras tanto, que tus triunfos, pobres triunfos pasajeros,
sean una larga fila de riquezas y placer;
que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos
que te abrás en las paradas con cafishios milongueros
y que digan los muchachos: “Es una buena mujer”.
Y mañana cuando seas deslocado mueble viejo
y no tengas esperanzas en el pobre corazón
si precisás una ayuda, si te hace falta un consejo
acordate de este amigo que ha de jugarse el pellejo
p’ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión.
Carlos Gardel
Intervalo feito de mar e bruma. O ruído acalma e os olhos enchem-se de azul e brilho. Pausa e asas, sinto-me leve. Ao meu lado passam rodas, pernas esforçadas, cabelos molhados de suor, óculos escuros, mochilas às costas, garrafas de água nas mãos cansadas.
Aos pares ou isoladas, gente que conversa, que ouve música, que fotografa, que observa, que pesca. Gente do lado verde da vida.
George Bellows: New-York
I.
Às portas da cidade, entre
os passos da chuva e o bramir
da multidão, correm os olhos. É mais
o ruído das vozes interiores, o rodopiar
de sentidos entre os dedos, que o coro
anónimo que se arrasta de gente.
II.
Dói-me a tua mão que falta
o ardor do exacto local
onde não estás.
III.
Perfeição de músculo, câmaras de entrada
e de saída, sem refluxos
nem arritmias. Já nem de corda
mas digital, corações
automáticos. Espero transplante
cerebral.
Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...