
É oficial: abriu a idade pesada, a meia-idade, a fase descendente, o início da decrepitude, da velhice, do depauperamento. Cabeça de chumbo, forma compacta, andar bamboleante, subir escadas a arfar, palpitações, trabalho, trabalho, trabalho, o corpo em forma de assento, óculos para ver ao longe, óculos para ver ao perto, enfim, todos os ingredientes para ter que assumir que já não chega a automedicação.
E lá está – a hipertensão arterial. Imagina as artérias a estreitarem-se e a enrijarem, com as elásticas interna e externa a perderem a elasticidade, o coração a aumentar para conseguir bombear a mesma quantidade de sangue, para todas as ínfimas partes de um corpo cuja superfície vai alastrando.
É preciso andar a pé, faça chuva ou faça sol, cedo ou tarde, com frio ou com calor. É preciso comer mais vezes durante o dia, fruta e fibras, yogurts e água. É preciso ver os açúcares, as gorduras, o estado do fígado, dos rins, dos vasos. São precisas análises e ecografias e electrocardiogramas. É preciso render-se ao comprimido diário.
Podia ser pior. Podia ter joanetes, hemorróidas, pés de galinha e próteses dentárias. Podia ter que comprar sapatos Dr. Scholl e usar super corega.