28 julho 2010

O papagaio de Flaubert


 


O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, é um livro brilhante e delicioso. A propósito do interesse de um biógrafo amador do escritor Gustave Flaubert, que procura saber qual o verdadeiro papagaio (Lulu) companheiro de Felicité, heroína de um dos contos - Un cœur simple - que compõem Trois contes, publicado em 1877, somos conduzidos a uma discussão filosófica sobre a arte e o seu autor, sobre a ficção e a realidade, o amor, a dedicação, o descomprometimento e desenraizamento próprio a que o escritor se remete, à solidão, à essência do que significa ser feliz, conceito sempre presente de uma estádio de alma impossível de alcançar ou, sequer, de definir.


 


Viajamos para Ruão com um médico de 60 anos, viúvo, e procuramos a sua voz na voz de Flaubert, percorremos a sua vida descobrindo a de Flaubert, o homem e o escritor, concluindo que a existência real e palpável é a dos livros e não a da vida que nos calha.


 


Deixo apenas um parágrafo:


 


(...) Ellen. A minha mulher: alguém que eu sinto compreender pior do que um escritor morto há cem anos. Isso é uma aberração ou é normal? Os livros dizem: ela fez isto porque. A vida diz: ela fez isto. É nos livros que as coisas nos são explicadas; na vida não são. Não me surpreende que algumas pessoas prefiram os livros. Os livros dão um sentido à vida. O único problema é que a vida a que eles dão sentido são as vidas dos outros, nunca é a nossa. (...)


 


Aguardo com alguma ansiedade a edição de Nothing To Be Frightened Of, que já tentei ler no original (tal como fiz com Flaubert's Parrot). Infelizmente a minha fluência em inglês literário não é tão boa como gostaria. Por isso espero a tradução que parece estar prevista, também pela Quetzal.


 

27 julho 2010

Fim do Freeport











Sócrates foi totalmente excluído das acusações no caso Freeport - não foi corrompido, não procedeu, enquanto responsável pela pasta do ambiente há mais de 5 anos.


 


Acabou um dos processos que mais utilizados foram para destruir José Sócrates. Finalmente.


 


É bom que a justiça continue, noutros casos, como os do BCP, BPN, Apito Dourado, Face Oculta, etc. Mas o caminho que foi iniciado com o Freeport é de não retorno e somos todos, enquanto cidadãos e enquanto sociedade democrática, que sofremos com isso.

Vento


escultura de Mary Tierney: Standing Feathers


 


Está muito vento. Saraivada de areia e calor amarelado


meio obscuro. Fecho os olhos e sinto a pele arranhada


açoitada. Entrego-me à penitência sem oferecer resistência.


 


Era melhor que o vento e a areia


me varressem. Poderiam começar pelos cabelos


depois os olhos depois o resto


pouco a pouco defazendo-se


e desgastando-se pelo ar amarelo e barrento.

26 julho 2010

Os Políticos e Salazar

 


A verdade é que já defendi que a redução dos ordenados dos políticos, embora não resolvessem nada do défice, eram uma medida simbólica para que todos se apercebessem de que o esforço de contenção pedido não tinha excepções privilegiadas.


 


Mas a realidade é que esta medida é ineficaz e populista, chamando por outros populismos que pedem cada vez mais, como se ser político signifique ser detentor de uma qualquer culpa que tem que ser purgada pelos justos, nada menos que bispos, jornalistas, médicos, juízes, grandes empresários, etc. etc. Fiz exactamente aquilo que repudio a outros – deixei-me embalar pelo populismo e pela demagogia.


 


Esta é a visão salazarista que 40 anos após a morte   de Salazar ainda persiste e é estimulada por alguns sectores da nossa sociedade. Assiste-se hoje a uma reinterpretação da história do Salazarismo e do Estado Novo pelos novos divulgadores do passado recente que, ideologicamente, são de direita, em oposição à visão esquerdista, que era predominante. Na revista Actual do último Expresso (24/07), vem um extenso artigo de Rui Ramos que ilustra o que quero dizer quanto à visão que temos dos políticos:


 


(…) Mas contou também a habilidade de Salazar. Soube usar as máximas da Antiguidade Clássica: o tirano podia ser suportável se desse a ideia de que não dominava para interesse pessoal. O “bom tirano” era, em primeiro lugar, um tirano sobre si próprio. E foi assim que Salazar se apresentou – sacrificado ao bem público, privado de ócios, de prazeres, de liberdade… (…) – pág. 12.


 


Rui Ramos consegue ainda sintetizar uma ditadura de 40 anos de uma forma extraordinária:


 


(…) O Estado Novo era, como ele [Salazar] gostava de dizer, um regime suficientemente “forte” para não precisar de ser violento. Mas nunca houve dúvidas de que podia ser implacável. Deixou morrer três dezenas de anarquistas e comunistas no campo do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 1936 e 1945. Perseguiu e exilou o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1958-1959. E pelo menos encobriu ou não investigou o assassínio do General Humberto Delgado por agentes da PIDE em 1965. (…) - pág. 10.


 


O regime democrático tem custos. A liberdade cobra-nos todos os dias a coerência e a responsabilidade, assim como o respeito pelos nossos representantes eleitos.

24 julho 2010

A Escola Pública pode fazer a Diferença (II)


 


Enquanto cidadãos e enquanto eleitores, é raro ter a oportunidade de podermos ler a descrição das ideias, das razões dessas ideias, dos objectivos gerais e específicos, das metodologias usadas paras os alcançar, dos actores envolvidos, das avaliações dos resultados e das reflexões levantadas por todos estes processos.


 


Como cidadãos e como eleitores, temos a oportunidade de avaliar a política educativa do anterior governo socialista, porque Maria de Lurdes Rodrigues coloca em livro um extenso e pormenorizado relatório de actividades da sua passagem pelo Ministério da Educação. Ao longo de mais de 300 páginas, percebemos o que norteou a sua actuação, quais as dificuldades e quais os maiores desafios que se lhe colocaram e que se colocam à Escola Pública.


 


Maria de Lurdes Rodrigues acredita que a Escola Pública pode fazer a diferença. Considera que (…) não desistir de nenhum jovem, nem consentir que os jovens desistam de estudar (…) é uma responsabilidade de todos e do estado enquanto orientador e promotor da equidade, da qualidade e da eficiência.


 


Como ela própria explica, muitas das orientações daquilo que implementou durante o seu mandato já vinham de trás, com legislação não regulamentada e não aplicada. É interessantíssimo apercebermo-nos de que o problema das aulas de substituição – o assegurar por professores das aulas que não eram dadas por absentismo docente (ao nível de 10% em 2005) foi objecto de preocupação de Manuela Ferreira Leite, já em 1993, tendo sido nessa altura determinada a existência de aulas de substituição. Ou que a preocupação com a qualificação e escolarização de adultos data de 1952, sendo Francisco Leite Pinto Ministro da Educação à época, tendo-se criado um Plano Nacional de Educação Popular e, durante todos estes anos, inúmeros programas que visavam o regresso da população adulta à escolarização, como tentativa de melhorar a qualificação geral da população que continua afastada da média europeia.


 


São expostos vários dos combates a que fomos assistindo durante a legislatura anterior, do Plano para a Matemática ao Plano Nacional de Leitura, da escola inclusiva à escola a tempo inteiro, do estatuto do aluno ao estatuto da carreira docente, das aulas de substituição à estabilização do corpo docente (concursos de 4 em 4 anos), da lógica das avaliações do desempenho dos professores e das escolas, das alterações da gestão e da descentralização da gestão escolar, da autonomia das escolas à avaliação dos manuais, da requalificação do parque escolar, física e nas tecnologias de informação e comunicação aos agrupamentos escolares, do insucesso escolar ao aumento do esforço e do trabalho individual, de professores, alunos e encarregados de educação.


 


Este é um livro escrito por alguém que defende as suas ideias e está disposta a discuti-las. Gostaria de ouvir e ler muitos dos seus detractores demonstrarem o seu desacordo com as políticas seguidas justificando, tal como ela justifica, as suas razões.


 


Deixo apenas um excerto:


 


O tópico do insucesso escolar enfrenta, na política educativa, dificuldades relacionadas com a percepção pública da repetência e do chumbo. A ideia, muito divulgada – no interior da comunidade educativa e fora dela -, de que chumbar faz bem ao “carácter” das crianças e dos jovens, tem sido impeditiva do desenvolvimento de uma atitude mais exigente para com os resultados escolares dos alunos. Esta visão esquece que a alternativa à repetência e ao “chumbo” não é passar sem saber. Pelo contrário, a alternativa é exigir tempo de trabalho e de estudo para que os alunos aprendam o que não sabem, a alternativa é a diversificação dos métodos pedagógicos de ensino; a alternativa é exigir bons resultados escolares. É necessário que o objectivo da melhoria dos resultados escolares entre na agenda e nas preocupações de todas as escolas e do trabalho dos professores. Trata-se de garantir não apenas o ensino para todos, mas também a qualidade das aprendizagens de todos. (pág. 182)


 


A Escola Pública pode fazer a diferença e Maria de Lurdes Rodrigues fez a diferença.

22 julho 2010

Diz que diz






 








Diz quem sabe que o calor vai aumentar
diz quem pode que os impostos vão subir
e a gente a duvidar
se foi isto que Deus quis
ou é o refrão que ao chegar
diz que diz

 


Fala quem fala e quem sempre falou
fala quem gosta de falar
e a vizinha que jamais se calou
diz que me viu a namorar
que o sol se apagou
o tempo mudou
o mundo acabou


 


Diz o povo que o futuro vai chegar
diz a sorte que o senão vem a seguir
e a gente a perguntar
se não dá pra ser feliz
ou é o refrão que ao chegar
pede bis


 


Fala quem fala e quem sempre falou
fala quem gosta de falar
e a vizinha que jamais se calou
diz que me viu a namorar
o dia voltou
o tempo passou
o mundo girou

21 julho 2010

Um dia como os outros (66)

 



O trabalho inútil só é útil para nos manter ocupados. À falta do que fazer, tratamos agora do que não precisamos, uma revisão da Constituição. Que não faz bem mas pode fazer bastante mal. (...)


 


(...) Só isso pode explicar a razão que leva o principal partido da oposição, o mais sério candidato a ser governo em breve, a enveredar por uma proposta de revisão da Constituição que em pouco ou nada contribuirá para resolver os problemas, gravíssimos, que o país atravessa. (...)


 


(...) Grave é que a revisão da Constituição, na actual conjuntura de crispação política, pode causar danos graves. Veja-se a proposta social-democrata da dita "moção de censura construtiva" em que, com a sua aprovação, os partidos estabelecem um acordo e nomeiam um novo primeiro-ministro. Uma arquitectura desenhada à medida de alguns anseios políticos recentes.


 


"Saia, senhor primeiro-ministro". Assim disse o líder do PP, Paulo Portas, no último debate desta legislatura sobre o Estado da Nação. "O que o País deveria ter", acrescentou, "era uma coligação com o PS, PSD e o CDS, por três anos, para tirar o País deste atoleiro. Consigo, engenheiro Sócrates, isso não é possível".


 


Com a "moção de censura construtiva" que o PSD agora propõe, a ideia de Paulo Portas é viabilizada sem qualquer necessidade de o primeiro-ministro ter de satisfazer o pedido para que saia de cena.


 


As revisões constitucionais que alteraram o equilíbrio de poderes foram sempre induzidas pela conjuntura, por um detentor específico do poder. Mas a moção de censura dita construtiva ameaça ser destrutiva dos poucos elementos de estabilidade política que o nosso regime ainda tem.


 


Gerar ainda mais instabilidade no regime é o pior dos trabalhos inúteis que os políticos podem fazer neste momento.


 


Helena Garrido

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...