24 julho 2010

A Escola Pública pode fazer a Diferença (II)


 


Enquanto cidadãos e enquanto eleitores, é raro ter a oportunidade de podermos ler a descrição das ideias, das razões dessas ideias, dos objectivos gerais e específicos, das metodologias usadas paras os alcançar, dos actores envolvidos, das avaliações dos resultados e das reflexões levantadas por todos estes processos.


 


Como cidadãos e como eleitores, temos a oportunidade de avaliar a política educativa do anterior governo socialista, porque Maria de Lurdes Rodrigues coloca em livro um extenso e pormenorizado relatório de actividades da sua passagem pelo Ministério da Educação. Ao longo de mais de 300 páginas, percebemos o que norteou a sua actuação, quais as dificuldades e quais os maiores desafios que se lhe colocaram e que se colocam à Escola Pública.


 


Maria de Lurdes Rodrigues acredita que a Escola Pública pode fazer a diferença. Considera que (…) não desistir de nenhum jovem, nem consentir que os jovens desistam de estudar (…) é uma responsabilidade de todos e do estado enquanto orientador e promotor da equidade, da qualidade e da eficiência.


 


Como ela própria explica, muitas das orientações daquilo que implementou durante o seu mandato já vinham de trás, com legislação não regulamentada e não aplicada. É interessantíssimo apercebermo-nos de que o problema das aulas de substituição – o assegurar por professores das aulas que não eram dadas por absentismo docente (ao nível de 10% em 2005) foi objecto de preocupação de Manuela Ferreira Leite, já em 1993, tendo sido nessa altura determinada a existência de aulas de substituição. Ou que a preocupação com a qualificação e escolarização de adultos data de 1952, sendo Francisco Leite Pinto Ministro da Educação à época, tendo-se criado um Plano Nacional de Educação Popular e, durante todos estes anos, inúmeros programas que visavam o regresso da população adulta à escolarização, como tentativa de melhorar a qualificação geral da população que continua afastada da média europeia.


 


São expostos vários dos combates a que fomos assistindo durante a legislatura anterior, do Plano para a Matemática ao Plano Nacional de Leitura, da escola inclusiva à escola a tempo inteiro, do estatuto do aluno ao estatuto da carreira docente, das aulas de substituição à estabilização do corpo docente (concursos de 4 em 4 anos), da lógica das avaliações do desempenho dos professores e das escolas, das alterações da gestão e da descentralização da gestão escolar, da autonomia das escolas à avaliação dos manuais, da requalificação do parque escolar, física e nas tecnologias de informação e comunicação aos agrupamentos escolares, do insucesso escolar ao aumento do esforço e do trabalho individual, de professores, alunos e encarregados de educação.


 


Este é um livro escrito por alguém que defende as suas ideias e está disposta a discuti-las. Gostaria de ouvir e ler muitos dos seus detractores demonstrarem o seu desacordo com as políticas seguidas justificando, tal como ela justifica, as suas razões.


 


Deixo apenas um excerto:


 


O tópico do insucesso escolar enfrenta, na política educativa, dificuldades relacionadas com a percepção pública da repetência e do chumbo. A ideia, muito divulgada – no interior da comunidade educativa e fora dela -, de que chumbar faz bem ao “carácter” das crianças e dos jovens, tem sido impeditiva do desenvolvimento de uma atitude mais exigente para com os resultados escolares dos alunos. Esta visão esquece que a alternativa à repetência e ao “chumbo” não é passar sem saber. Pelo contrário, a alternativa é exigir tempo de trabalho e de estudo para que os alunos aprendam o que não sabem, a alternativa é a diversificação dos métodos pedagógicos de ensino; a alternativa é exigir bons resultados escolares. É necessário que o objectivo da melhoria dos resultados escolares entre na agenda e nas preocupações de todas as escolas e do trabalho dos professores. Trata-se de garantir não apenas o ensino para todos, mas também a qualidade das aprendizagens de todos. (pág. 182)


 


A Escola Pública pode fazer a diferença e Maria de Lurdes Rodrigues fez a diferença.

22 julho 2010

Diz que diz






 








Diz quem sabe que o calor vai aumentar
diz quem pode que os impostos vão subir
e a gente a duvidar
se foi isto que Deus quis
ou é o refrão que ao chegar
diz que diz

 


Fala quem fala e quem sempre falou
fala quem gosta de falar
e a vizinha que jamais se calou
diz que me viu a namorar
que o sol se apagou
o tempo mudou
o mundo acabou


 


Diz o povo que o futuro vai chegar
diz a sorte que o senão vem a seguir
e a gente a perguntar
se não dá pra ser feliz
ou é o refrão que ao chegar
pede bis


 


Fala quem fala e quem sempre falou
fala quem gosta de falar
e a vizinha que jamais se calou
diz que me viu a namorar
o dia voltou
o tempo passou
o mundo girou

21 julho 2010

Um dia como os outros (66)

 



O trabalho inútil só é útil para nos manter ocupados. À falta do que fazer, tratamos agora do que não precisamos, uma revisão da Constituição. Que não faz bem mas pode fazer bastante mal. (...)


 


(...) Só isso pode explicar a razão que leva o principal partido da oposição, o mais sério candidato a ser governo em breve, a enveredar por uma proposta de revisão da Constituição que em pouco ou nada contribuirá para resolver os problemas, gravíssimos, que o país atravessa. (...)


 


(...) Grave é que a revisão da Constituição, na actual conjuntura de crispação política, pode causar danos graves. Veja-se a proposta social-democrata da dita "moção de censura construtiva" em que, com a sua aprovação, os partidos estabelecem um acordo e nomeiam um novo primeiro-ministro. Uma arquitectura desenhada à medida de alguns anseios políticos recentes.


 


"Saia, senhor primeiro-ministro". Assim disse o líder do PP, Paulo Portas, no último debate desta legislatura sobre o Estado da Nação. "O que o País deveria ter", acrescentou, "era uma coligação com o PS, PSD e o CDS, por três anos, para tirar o País deste atoleiro. Consigo, engenheiro Sócrates, isso não é possível".


 


Com a "moção de censura construtiva" que o PSD agora propõe, a ideia de Paulo Portas é viabilizada sem qualquer necessidade de o primeiro-ministro ter de satisfazer o pedido para que saia de cena.


 


As revisões constitucionais que alteraram o equilíbrio de poderes foram sempre induzidas pela conjuntura, por um detentor específico do poder. Mas a moção de censura dita construtiva ameaça ser destrutiva dos poucos elementos de estabilidade política que o nosso regime ainda tem.


 


Gerar ainda mais instabilidade no regime é o pior dos trabalhos inúteis que os políticos podem fazer neste momento.


 


Helena Garrido

20 julho 2010

Fuga em frente

A discussão sobre a revisão constitucional, que foi lançada na altura do congresso do PSD por Passos Coelho, como a grande reforma que vai fazer Portugal sair do buraco socialista é, objectivamente, uma forma de desviar a atenção dos cidadãos da falta de soluções alternativas que o PSD tem para a governação do país.


 


Não significa isto que não seja importante discutir a proposta de alteração da Constituição feita por este PSD. Insere-se na área política que considera apenas serviços mínimos aqueles a que se obriga o estado, não incluindo obviamente a saúde e a educação. É importante que todos tenhamos a noção exacta do que propõe o PSD, pois preparam-se eleições antecipadas, caso Cavaco Silva ganhe.


 


Os indicadores económicos não são tão maus como o PSD esperava e a ressurreição de Sócrates começa a ser um fantasma omnipresente. Será que o PSD proporia o alargamento dos poderes presidenciais se pensasse que Manuel Alegre ou outro candidato de esquerda ganhasse as presidenciais?


 


Assim como a remodelação do governo e a aprovação do OE para 2011, estes factos políticos sucedem-se porque, afinal, tal como Paulo Portas intui, não será assim tão fácil derrotar o PS e José Sócrates em eleições. A ajuda de salvações nacionais ou de figuras providenciais são soluções preconizadas por quem não as tem.

Discussão pública - A Organização Interna e a Governação dos Hospitais

Está em consulta para discussão pública o documento A Organização Interna e a Governação dos Hospitais.


 


É um documento muito interessante e muito importante, pois não só caracteriza o momento actual de falta de adequação da organização dos hospitais públicos, como propõe soluções que modificam o paradigma da estrutura e organização do próprio SNS.


 


Este documento de trabalho centra a reforma da organização de toda a rede hospitalar no doente, na necessidade das populações servidas por determinadas unidades de saúde, observando que o hospital não deve ser uma unidade desintegrada da população que serve nem dos outros serviços de saúde. Focaliza-se na estruturação de unidades multidisciplinares, organizadas para que o doente possa ser atendido por múltiplas patologias, em vez de se deslocar a várias unidades de saúde.


 


Assume que a avaliação do desempenho deve ser rigorososa, chamando os utentes a participar nela, avaliando os responsáveis pelas direcções dos serviços/unidades, os profissionais e os órgãos de administração, mas centrando essa avaliação em indicadores de qualidade e não de produção, com rigorosos instrumentos de medição que permitam auditorias externas e internas. A avaliação de desempenho deverá ser por objectivos atingidos, medidos pelos resultados obtidos. Fala-se de incentivos à melhor performance, colectivos e individuais, da monitorização e avaliação do erro médico, da implementação de indicadores de gestão e de qualidade objectivos, que possam servir de base para perceber as limitações de processos e de decisões, alterando-as e evitando os erros.


 


Para que tal possa acontecer é preciso que o SNS seja organizado em função do doente. É também essa a visão dos signatários de um documento para a reforma do NHS - Reino Unido (e não só dos hospitais). É essencial que se faça um estudo de referenciação hospitalar baseada nas áreas geográficas, demográficas e epidemiológicas e não apenas na especialização tecnológica. É preciso concentrar e reduzir a dispersão de recursos. É preciso que todos os Colégios de Especialidade e todas as Sociedades e Associações de Especialistas organizem e publiquem standarts de boas práticas, segundo o estado da arte, que produzam instrumentos objectiváveis e realistas que possam servir para definir objectivos e medir resultados.


 


É crucial a criação de redes informáticas que comuniquem entre si e entre todos os prestadores de cuidados de saúde, agilizando a informação, reduzindo a duplicação e a redundância ou colmatando a falta dela. Os processos clínicos electrónicos, as prescrições electrónicas, os procedimentos protocolados são indispensáveis para uma verdadeira reforma das organizações e das referenciações, formação, consultadoria e ensino à distância.


 


O estudo e redimensionamento dos recursos humanos, muito escassos actualmente, mas também mal distribuídos, mal acompanhados e desmotivados, devem ser objecto de qualificação e dignificação, envolvendo-os nos processos de decisão, desde que o entendimento e o empenhamento seja em prole do verdadeiro serviço público.


 


A saúde e a educação são dois dos mais importantes deveres do estado e uma das melhores formas de promover a igualdade de oportunidades e a equidade dos cidadãos. Esta é uma oportunidade que não podemos perder, sob pena de perdermos o que de essencial significam estes valores.

menina limpa menina suja


 


Às 21h30 do dia 22 de Julho, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, inaugura-se a exposição menina limpa menina suja, de Ana Vidigal (30 anos de pintura e de trabalho paralelo).


 

Casa das Histórias






 


Júlio Pereira & Tiago Torres da Silva


canta Manuela Azevedo 


 


(para a Paula Rego)


 


Sei que existe um lugar
entre a noite e a luz
onde os meninos andam nus
dentro e fora do mar


 


Há um gato a tocar
há um cão que é mulher
e um corvo a querer voar
de um desenho qualquer


 


Uma casa no campo
uma voz, um centauro
e as asas de um anjo
que as bruxas quiseram tecer ao contrário


 


A rapariga tem
que engolir sem um ai
mais um pássaro que é também
o seu filho e o seu pai


 


No jardim de Crivelli
ao som de traviattas
os meninos perdidos
descansam no colo gentil dos piratas


 


Onde estás?
quem me faz
um feitiço?


 


O macaco vermelho
vai batendo à mulher
e eu vejo-me ao espelho
será que o macaco irá morrer velho?

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...