Acaba hoje um excelente congresso, de alto nível científico, em que especialistas de várias áreas apresentaram os seus trabalhos sobre os mais recentes avanços no conhecimento do Papilomavirus humano: a sua classificação, as várias estirpes, a capacidade de algumas delas infectarem várias mucosas, não só as genitais, algumas de uma forma persistente e destas, numa percentagem de casos felizmente pequena, de induzirem a transformação neoplásica dos tecidos, causando verrugas, condilomas e carcinomas. Discutiram-se estratégias de rastreio de cancro do colo do útero, estratégias de vacinação, avaliação dos vários tipos de rastreio e de vacinação, previram-se cenários vários, fizeram-se análises de custo/benefício para cada tipo de rastreio, etc.
Venho sempre destes encontros científicos com sentimentos muito contraditórios. Por um lado, satisfeita e maravilhada com as novas possibilidades que o avanço da tecnologia, as capacidades de trabalho e inventivas de tantas pessoas por todo o mundo, a comunicação que atravessa fronteiras, a acelerada evolução do conhecimento que nos permite saber cada vez mais, prevenindo a doença e tratando-a, quando ela já existe.
Por outro lado, a sensação de que a quantidade de trabalho que é feita, pelo menos nalgumas especialidades médicas como a minha, pela escassez aflitiva de médicos, nos impede de estarmos disponíveis para analisar os dados que temos, pensar sobre eles, trocar ideias com outros colegas, estudar, investigar. Já para não falar da dificuldade de financiamento dos trabalhos de investigação.
O conceito de SNS, para além de assegurar a igualdade de acesso aos mesmos cuidados de saúde, abrange também, pelo menos para mim, a aposta na investigação, nas terapêuticas mais arrojadas, em manter o estado da arte em todas as áreas do conhecimento médico. Neste congresso, por exemplo, todos os investigadores começavam as suas palestras com uma declaração de interesses porque, ou trabalhavam para as empresas que comercializam medicamentos e tecnologias, ou tinham os trabalhos financiados por elas.
As políticas restritivas da entrada de médicos nos cursos de medicina, com os serviços reduzidos ao mínimo para prestar cuidados de saúde e o desinvestimento nos recursos humanos terá consequências a todos os níveis, e este não me parece menos importante. É menos visível, mas com impacto a mais longo prazo.