08 julho 2010

Trabalho e investigação

Acaba hoje um excelente congresso, de alto nível científico, em que especialistas de várias áreas apresentaram os seus trabalhos sobre os mais recentes avanços no conhecimento do Papilomavirus humano: a sua classificação, as várias estirpes, a capacidade de algumas delas infectarem várias mucosas, não só as genitais, algumas de uma forma persistente e destas, numa percentagem de casos felizmente pequena, de induzirem a transformação neoplásica dos tecidos, causando verrugas, condilomas e carcinomas. Discutiram-se estratégias de rastreio de cancro do colo do útero, estratégias de vacinação, avaliação dos vários tipos de rastreio e de vacinação, previram-se cenários vários, fizeram-se análises de custo/benefício para cada tipo de rastreio, etc.


 


Venho sempre destes encontros científicos com sentimentos muito contraditórios. Por um lado, satisfeita e maravilhada com as novas possibilidades que o avanço da tecnologia, as capacidades de trabalho e inventivas de tantas pessoas por todo o mundo, a comunicação que atravessa fronteiras, a acelerada evolução do conhecimento que nos permite saber cada vez mais, prevenindo a doença e tratando-a, quando ela já existe.


 


Por outro lado, a sensação de que a quantidade de trabalho que é feita, pelo menos nalgumas especialidades médicas como a minha, pela escassez aflitiva de médicos, nos impede de estarmos disponíveis para analisar os dados que temos, pensar sobre eles, trocar ideias com outros colegas, estudar, investigar. Já para não falar da dificuldade de financiamento dos trabalhos de investigação.


 


O conceito de SNS, para além de assegurar a igualdade de acesso aos mesmos cuidados de saúde, abrange também, pelo menos para mim, a aposta na investigação, nas terapêuticas mais arrojadas, em manter o estado da arte em todas as áreas do conhecimento médico. Neste congresso, por exemplo, todos os investigadores começavam as suas palestras com uma declaração de interesses porque, ou trabalhavam para as empresas que comercializam medicamentos e tecnologias, ou tinham os trabalhos financiados por elas.


 


As políticas restritivas da entrada de médicos nos cursos de medicina, com os serviços reduzidos ao mínimo para prestar cuidados de saúde e o desinvestimento nos recursos humanos terá consequências a todos os níveis, e este não me parece menos importante. É menos visível, mas com impacto a mais longo prazo.

06 julho 2010

O bloqueio da esquerda democrática.

Filosoficamente não podia estar em desacordo com Paulo Pedroso. É verdade que o PS deveria voltar-se para os partidos à sua esquerda (BE e PCP) assim como revisitar o movimento sindical, essencial numa democracia.


 


Só que Paulo Pedroso não deve estar a falar destes sindicatos, deste BE e deste PCP que, na realidade, são das forças mais conservadoras da sociedade portuguesa, como o têm demonstrado à exaustão. Para desbloquear a esquerda democrática ela teria que ser democrática, que não é.


 


E, já agora, também não está a falar deste PS. O vai-vem de medidas, o dizer e o desdizer, a defesa de atitudes lamentáveis, a paragem do movimento reformista do anterior governo, tudo isto tem alguma coisa de esquerda?


 


Nota: ler este post do Valupi... mais precisamente do Vega9000.

Skin is my











Andrew Bird


 


my skin is
white as parchment
drier than a downtown office building
where the air is tight
there's time spent
resting on her bones
waiting for the telephone to ring
ba-ring ba-ring ba-ring . . .
bo-ring bo-ring bo-ring . . .

my skin is
cold as her toes on the bathroom floor
run back to bed and slam the door
oh what a lovely sound
oh how it shakes the ground
oh what a lovely sound
oh what a lovely sound
oh what a lovely...

skin is my
it's the only thing
that doesn't really fly in my land
and love, oh love
is my love is
it's the only thing that
butterfly in Thailand

let it be printed on every t-shirt in this land
on the finest of cottons and the hippest of brands
in bolder letters than the capital I
it's the only thing, it's the only thing
it's the only lonely, whoa

my skin is
white as parchment
drier than a downtown office building
where the air is tight
there's time spent
waiting for that
macrame bird of prey
to come down and sing
la-ling la-ling la-ling...
oh what a lovely sound
oh how it shakes the ground
oh what a lovely sound
oh how it shakes the ground
oh what a lovely sound

oh what a lovely sound
oh how it shakes the ground
oh what a lovely sound
oh how it shakes the ground
oh what a lovely sound
oh, oh what a lovely sound

Sintonizar


Kevin Jenne


 


Trabalhar de mais tem muitas desvantagens mas a principal é perder a perspectiva do global, enrolando-nos nas pequenas coisas que não têm importância. Também deixamos de ter tempo para nos actualizarmos, esquecendo que todos os dias há coisas novas, novos conhecimentos, novos trabalhos sobre tecnologias, novas ideias e gente que investiga. Quando ouvimos tanta gente diferente a falar do que há e do que haverá, sabemos que há mesmo um objectivo no imenso trabalho que fazemos.


 


Dormimos menos, passeamos menos, apreciamos menos a beleza, o espaço, o sol, o estar só. Respiramos as novidades, abrimos as antenas, sintonizamos, e recarregamos os sonhos para os próximos tempos.


 

03 julho 2010

Magia imaginação

 







 


Graffiti: canta Maria João


 


 


Na  primeira manhã, quem vem lá?, quem tem medo?
Meu nome é Peter Pan, mas pra já  é segredo
A magia, a imaginação
Que eu trazia na minha mão 


 


Na manhã a seguir, o lugar, o segundo
Sou de Alcácer-Quibir, sou do mar, sou do mundo
A magia, as voltas do Marão
Que eu trazia no meu refrão 


 


Não sei pedir-te por favor
Só te sei falar
Com gestos e com palavrões
E seja lá isso o que for
Eu não vou ficar
A falar com os meus botões 


 


A magia, a imaginação
Que eu trazia na minha mão 


 


Na terceira manhã, o olhar, o chuveiro
Vou morder a maçã, vou estudar o teu cheiro
A magia, a força de Sansão
Que eu trazia no coração

Espada


Alberto Giacometti: mesa surrealista


 


Rei capitão


soldado ladrão


se abres as grades


irrompe um leão.


Amostras de cinza


narizes de velho


verruga chinesa


no arco vermelho.


 


Rei capitão


soldado ladrão


afagas o ninho


e torces a mão.


Rasteira de fogo


alarga a cintura


derretes a espada


no mar da ternura.

02 julho 2010

Raios invertidos


Miss Britt


 


Nunca saímos da fotografia, congelados pelas lentes de raios invertidos, bocas abertas, cabelos em ginástica de vento, parados os dedos no acariciar das mãos. Nunca saímos da fotografia pois olhamos o tempo que não conseguimos recordar, mais pálidos e esvaídos agora do que esbatidos no preto e branco do que passou.


 


Nem as árvores de lá dão frutos, nem os frutos de cá sementes. Tudo parado por uma teia sem fim que ninguém teceu.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...