
(Mensagem de Ano Novo - 01.01.2010)
O discurso do Presidente da República foi um bom discurso de um Presidente. De um Presidente de direita, mas ele é de direita e foi eleito como tal. Foi um discurso previsível mas verdadeiro quanto à enumeração dos problemas do país, não tanto exactamente a nível económico, e aí considero que o Presidente não resistiu a interferir na esfera do executivo, pois o diagnóstico e perspectivas filosóficas de solução são as que ele próprio e todos os economistas da sua área repetem há muitos anos (vale a pena ler, a propósito, o artigo de Carlos Santos comentando um outro de Ricardo Reis) mas principalmente a nível dos problemas políticos que o país atravessa.
Aí chamou a atenção para a responsabilidade do governo em governar, procurando os apoios de que precisa no Parlamento e, sobretudo, pediu responsabilidade às oposições para viabilizarem opções governativas em nome das necessidades do país. Todos os comentadores partidários anuíram e se mostraram sensíveis a esse apelo. E, no entanto, é sobretudo disso que mais duvido.
A opção subliminar do Presidente por um Bloco Central é óbvia e compreensível. Mas será essa a opção do governo, terá sido essa a opção do eleitorado? Cada vez mais se afigura que os partidos à esquerda do PS, aqueles cujo apoio parlamentar seria mais natural e desejável, fazendo cumprir o resultado das legislativas, não estão interessados em viabilizar políticas exequíveis e credíveis, mas apenas em gritar bem alto a incapacidade do governo responder à crise e ao desemprego, apontando medidas que agravam o défice público, nunca explicando como poderia ser resolvido esse problema. As posições demagógicas e populistas desta esquerda impossibilitam o diálogo e a concertação à esquerda.
Estará o PSD disponível para deixar o governo governar? Estará o governo disponível para acertar políticas com a direita?
Não acompanho a opinião de Carlos Santos em relação à questão presidencial. A actuação de Manuel Alegre nos quatro anos de governo socialista não dá garantias de que ele possa ser um Presidente supra partidário e que valorize a cooperação institucional, muito pelo contrário. A minha opção será prioritariamente por um Presidente de esquerda, porque é a minha área ideológica e porque penso que contribui melhor para apontar e facilitar caminhos para uma sociedade tolerante e solidária, mas dou muita importância à equidistância e à função de árbitro que o Presidente deve ter, neste sistema semipresidencialista. Não me parece que Manuel Alegre cumpra estes últimos requisitos.
Aguardemos a opção de Manuel Alegre em relação à sua recandidatura à Presidência, assim como a existência de mais algum candidato de esquerda. Penso que as próximas eleições presidenciais dependerão também muito do ou dos candidatos que se perfilarem à direita, neste momento os mais prováveis Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa.
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