05 janeiro 2010

Quando as palavras

 



Mesa


 


 


Estou além sono, num sonho de papel, fio de ópio, sombra chinesa tatuada no céu.

Hoje não me apetece ser do contra, uma enfant terrible.

Quero apenas os novos códigos, quero apenas entrar e participar.

Cruzar-me num sonho que seja possivel para ambos.


 


És o meu Anjo da Guarda e eu dou-te trabalho...

Tu és o meu "Homem-Livro", o meu agasalho:

que lê para mim todas as noites, que me levanta sempre que caio.

Como eu gostava de retribuir. Como eu gostava de aprender a pedir.


 


Quando as palavras não dizem o que somos.


 


A cidade está submersa numa manhã chuvosa.

Pântanos e dinossauros tomam de assalto as avenidas.

A menina tem insónias e só às vezes dorme.

Desaparece e acorda com fome e acorda com fome.

Esta é a minha nova dor. Diz-lhe olá, não a faças esperar.


 


Quando as palavras não dizem o que somos.

Gastamos em tinta o que prometemos em sonhos.

Quando as palavras não dizem o que somos.


 


Oh! Meu Anjo da Guarda, eu sei que te dou trabalho.

Eu e tu somos iguais... eu queria tanto fazer-te feliz...

Não esperes que eu consiga mudar da noite para o dia.


 

Propostas indecentes

 


 


 


Jorge Lacão está com o seu aspecto mais sério e mais composto na SIC - a explicar as boas e sérias intenções do governo em negociar abertamente, tão abertamente que até enviou uma nota à comunicação social publicitando essas tão sérias intenções, com qualquer um dos partidos políticos representados no Parlamento, o Orçamento de Estado para 2010.


 


A esta séria e pública proposta corresponderá certamente uma séria e privada intenção de não negociar rigorosamente nada.


 


Às sérias e públicas reacções a este convite corresponderão certamente sérias e privadas razões para recusar qualquer compromisso.


 


Mas que comédia é esta?


 


(Também aqui)


 

Referendos

 



 


Não sei no que resultaria se os nossos governantes da altura resolvessem referendar algumas coisas que nem nos passa pela cabeça questionar agora:



  • Abolição da escravatura

  • Abolição da pena de morte

  • Direito de voto para as mulheres

  • Alfabetização das mulheres

  • Direitos iguais no casamento para ambos os cônjuges

  • Divórcio com igualdade de direitos para ambos os cônjuges

  • Escolaridade obrigatória

  • Proibição do trabalho infantil

  • Etc.

  • Etc.

  • Etc.


Nota: vale apena ler.


 


(Também aqui)


 

04 janeiro 2010

Con toda palabra

 



Lhasa de Sela


(27/09/1972 - 01/01/2010)


 


 


Con toda palabra

Con toda sonrisa

Con toda mirada

Con toda caricia


 


Me acerco al agua

Bebiendo tu beso

La luz de tu cara

La luz de tu cuerpo


 


Es ruego el quererte

Es canto de mudo

Mirada de ciego

Secreto desnudo


 


Me entrego a tus brazos

Con miedo y con calma

Y un ruego en la boca

Y un ruego en el alma


 


Con toda palabra

Con toda sonrisa

Con toda mirada

Con toda caricia


 


Me acerco al fuego

Que todo lo quema

La luz de tu cara

La luz de tu cuerpo


 


Es ruego el quererte

Es canto de mudo

Mirada de ciego

Secreto desnudo


 


Me entrego a tus brazos

Con miedo y con calma

Y un ruego en la boca

Y un ruego en el alma

 

Albert Camus

 



 


A Peste foi dos livros que me mudaram. Camus foi, é, dos autores mais importantes do séclulo XX. Eduardo Graça tem sido um dos seus admiradores e melhores divulgadores, publicando uma excelente cronologia biográfica.


 

02 janeiro 2010

De 2009 para 2010

 



Jill Tatara: Paths


 


O ano que passou foi intenso em muitas vertentes. Para mim alargaram-se desafios pessoais e profissionais que fizeram com que o ano voasse e, simultaneamente, parecesse uma década inteira.


 


Foi também um ano em que me envolvi mais activamente na esfera da cidadania política, participando em blogues colectivos como o SIMpleX e o A REGRA DO JOGO.


 


O SIMpleX foi uma experiência interessantíssima, pelo entusiasmo e paixão de todos os participantes, numa verdadeira missão de campanha eleitoral. Conheci pessoas de grande generosidade, entrega, capacidade argumentativa e intelectual, a quem agradeço a hipótese da partilha. Fiquei também a conhecer ainda melhor o lado mais mesquinho, pidesco e de baixeza de que muitos são capazes apenas com o objectivo de denegrir o carácter de quem não conhecem, inventado e difamando sem qualquer preocupação pelos eventuais danos que possam causar.


 


O A REGRA DO JOGO está a ser uma experiência de debate de ideias diferente e estimulante, pelo gosto da discussão. Penso que pode ser um espaço de intervenção muito importante e aberto, pela variabilidade de temas tratados e pelas diversas opiniões.


 


Adivinha-se um ano cheio de combates a todos os níveis. Apesar das óbvias responsabilidades dos governantes na orientação económica, social e cultural, nenhum de nós é inocente ou está arredado do seu compromisso como pertence de uma comunidade. Cada um com o seu contributo, a verdade é que estamos todos convocados, sempre, para a tentativa de melhorar a qualidade da nossa vida, a tal busca de felicidade.


 


Nota - Saúdo o Eduardo Pitta pelo 5º aniversário do seu blogue, do qual sou seguidora, agradecendo-lhe a forma directa e elegante com que descreve a realidade.

 

Apelo subliminar ao Bloco Central

 



(Mensagem de Ano Novo - 01.01.2010)


 


O discurso do Presidente da República foi um bom discurso de um Presidente. De um Presidente de direita, mas ele é de direita e foi eleito como tal. Foi um discurso previsível mas verdadeiro quanto à enumeração dos problemas do país, não tanto exactamente a nível económico, e aí considero que o Presidente não resistiu a interferir na esfera do executivo, pois o diagnóstico e perspectivas filosóficas de solução são as que ele próprio e todos os economistas da sua área repetem há muitos anos (vale a pena ler, a propósito, o artigo de Carlos Santos comentando um outro de Ricardo Reis) mas principalmente a nível dos problemas políticos que o país atravessa.


 


Aí chamou a atenção para a responsabilidade do governo em governar, procurando os apoios de que precisa no Parlamento e, sobretudo, pediu responsabilidade às oposições para viabilizarem opções governativas em nome das necessidades do país. Todos os comentadores partidários anuíram e se mostraram sensíveis a esse apelo. E, no entanto, é sobretudo disso que mais duvido.


 


A opção subliminar do Presidente por um Bloco Central é óbvia e compreensível. Mas será essa a opção do governo, terá sido essa a opção do eleitorado? Cada vez mais se afigura que os partidos à esquerda do PS, aqueles cujo apoio parlamentar seria mais natural e desejável, fazendo cumprir o resultado das legislativas, não estão interessados em viabilizar políticas exequíveis e credíveis, mas apenas em gritar bem alto a incapacidade do governo responder à crise e ao desemprego, apontando medidas que agravam o défice público, nunca explicando como poderia ser resolvido esse problema. As posições demagógicas e populistas desta esquerda impossibilitam o diálogo e a concertação à esquerda.


 


Estará o PSD disponível para deixar o governo governar? Estará o governo disponível para acertar políticas com a direita?


 


Não acompanho a opinião de Carlos Santos em relação à questão presidencial. A actuação de Manuel Alegre nos quatro anos de governo socialista não dá garantias de que ele possa ser um Presidente supra partidário e que valorize a cooperação institucional, muito pelo contrário. A minha opção será prioritariamente por um Presidente de esquerda,  porque é a minha área ideológica e porque penso que contribui melhor para apontar e facilitar caminhos para uma sociedade tolerante e solidária, mas dou muita importância à equidistância e à função de árbitro que o Presidente deve ter, neste sistema semipresidencialista. Não me parece que Manuel Alegre cumpra estes últimos requisitos.


 


Aguardemos a opção de Manuel Alegre em relação à sua recandidatura à Presidência, assim como a existência de mais algum candidato de esquerda. Penso que as próximas eleições presidenciais dependerão também muito do ou dos candidatos que se perfilarem à direita, neste momento os mais prováveis Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa.


 


(Também aqui)

 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...