
escultura de Anna Jalilov
Ainda não há muito tempo a luta das mulheres pelos seus plenos direitos como pessoas humanas, passando pela dignidade de ser independente economicamente, de poder escolher uma profissão e exercê-la, de poder escolher ter ou não filhos, de ter contas bancárias, de poder viajar, de decidir cortar o cabelo ou ir tomar café com outras pessoas que não os maridos/namorados/familiares, era um factor indiscutível de modernidade e de desenvolvimento social. O ser reconhecida por si própria, o mérito e competência como profissional de qualquer tipo, a capacidade de liderança, a oportunidade de chegar aos lugares cimeiros das organizações pelo seu próprio empenho, foram objectivos de várias gerações de homens e mulheres.
Hoje em dia, apesar da lei da paridade, das quotas e da liberalização de costumes, assiste-se a um quase retrocesso naquilo que pensávamos ser um dado adquirido. As ideologias moralizadoras, os julgamentos de carácter, o escrutínio da vida privada, com especial incidência nos que têm maior visibilidade, aumenta o desrespeito pela integridade pessoal e pelo pensamento livre, assumindo novas formas de discriminação, travestido de transparência de procedimentos e de exclusão de interesses inconfessáveis, emocionais na melhor das hipóteses, obscuros e criminosos na pior.
Não há conquistas seguras, mesmo quando pensamos que ultrapassámos o cabo das tormentas. Tal como a democracia e a liberdade, que declarações de tantos excelsos defensores fazem perigar todos os dias, tal como a justiça, que tantos moralistas incorruptos gostariam que não funcionasse, o reconhecimento do outro como ser único, autónomo e merecedor de respeito é uma realidade que se pode esfumar rapidamente, na pira dos mais altos valores de falsa moralidade e de discutível interesse público.
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