desenho de Adam Grossi
Hoje, ao contrário dos outros dias, deve reflectir-se. Ninguém sabe exactamente em quê, como se faz para reservar um dia em que os nossos olhos, a nossa mente, o nosso corpo todo se inclina para o lado do pensamento.
Será de lado, de frente? Será às escuras, à janela, ao ar livre, na solidão das paredes do nosso cérebro, em silêncio ou a cantar?
Hoje, ao contrário dos outros dias, deve reflectir-se. Nos dias que passam tão iguais que praticamente não se distinguem (Não é o tempo que passa depressa, na pressa de nos esquecermos do que se passa. É o espaço onde acontece a vida que se repete, uma e outra vez, na voragem dos hábitos e das regras que espartilham a nossa sobrevivência.) apenas usamos a mecânica, o levanta e lava e escova dentes e engole comprimidos e engole café e liga a ignição e pára nos sinais e boceja e refaz os dias anteriores como um filme e faz malabarismos para adivinhar o que se vai seguir e lembra-se de que a casa pode não ser a mesma quando voltar, e acelera para chegar à rotunda e…
Mas hoje abre-se uma clareira e tudo se vê mais colorido, mais preto e branco, tudo se ouve com mais nitidez, tudo se descodifica e resolve.
Hoje, ao contrário dos outros dias, deve reflectir-se. Hibernamos na vida e reflectimos na inutilidade do dia-a-dia sem pensar e da existência de dias obrigatoriamente reflexivos, na inutilidade de suspender aquilo que nos encaminha para decisões minúsculas, minoritárias, caóticas, suaves, muitas erradas e poucas certas.
Reflictamos, pois.