Tenho lido e ouvido inúmeras reacções, considerações e confabulações sobre os resultados eleitorais. Há quem rejubile e sonhe com o regresso do PSD/CDS ao poder, há quem rejubile e sonhe com as ruas cheias de manifestantes exigindo aquilo que lhes foi negado até agora, há quem preveja o mais negro futuro e a mais instável instabilidade.
De facto, muita coisa mudou com as eleições, mas sempre muda. Podemos estar mais ou menos aleta, mas sempre que os eleitores se exprimem os representantes devem observar e pensar.
A abstenção foi grande mas, tal como já li, quem se absteve foi porque não quis votar. Sendo assim o seu não voto não conta.
Os votos em branco e nulos foram imensos. Parece-me significativo. Tal como a dona do café das minhas manhãs de fim-de-semana, que me disse que não fazia ideia em quem votar, terá havido muitíssimas pessoas que não se revêem nas propostas ou nas políticas seguidas pelos partidos concorrentes. Ou que não gostam de nenhum deles, por razões diversas e muitas vezes antagónicas.
O PSD ganhou estas eleições. Perfilam-se já no horizonte, todos os que se arredaram de Manuela Ferreira Leite à espera da derrota. E vão-se mostrando os regressados da direita, como Bagão Félix e Santana Lopes. Paulo Rangel vai mostrando de que é feito, basta ver as afirmações dele em relação à lei do financiamento dos partidos, vetada por Cavaco Silva.
O CDS vislumbra uma perspectiva de regressar ao poder. Portas soma, segue e continua.
O BE ganhou 3 deputados, uma enormidade de votos e uma hipótese de viabilizar um governo de esquerda nas próximas legislativas. Mas para tanto terá que reciclar o populismo e a demagogia que nos encheu os écrans na noite das eleições. Também o BE precisa de uma substituição de rostos – deixar cair Luís Fazenda e Francisco Louçã, por exemplo. O primeiro reafirmou de novo que o BE não se dispunha a coligar-se com o PS, enquanto houve sinais de abertura a essa possibilidade por parte de Fernando Rosas.
O PS perdeu pesadamente. Sócrates disse o que tinha que dizer. Ou o governo tem um cunho reformista e está convencido das suas razões, o que me leva a admitir que terá que mudar na forma e não no conteúdo, ou passará a guinar para o lado donde lhe parece que virão mais votos e isso só lhe tirará credibilidade e será contraproducente. E que tal se Sócrates olhasse em volta e substituísse alguns dos seus fantásticos apoiantes por outros menos fantásticos mas mais sérios? E nada de começar a falar nas esquerdas plurais e nos companheiros e companheiras. Isso soa a oco e é oco.
O acordo assinado entre os sindicatos médicos e o ministério da saúde, em que se deixou cair a necessidade de trabalho a tempo inteiro e dedicação exclusiva aos hospitais públicos, mantendo o status quo, será um exemplo das meias tintas de que fala o Saúde SA? As mais do que previsíveis manifestações de professores farão recuar o governo? Será este o caminho do PS até às eleições?
Duma coisa estou certa. Vai haver grande animação. É, pelo menos, uma oportunidade de se discutir política e alternativas. Espero que o governo e o PS tenham cabeça fria e visão das necessidades do país. As falinhas mansas não me parecem boas conselheiras.