Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Não sei se é a própria Manuela Ferreira Leite, se os seus assessores de campanha e estratégia política, mas da boca da líder do PSD têm-se ouvido as frases mais reaccionárias, de cunho ditatorial e de desrespeito pela democracia representativa multipartidária que tenho memória.
A acusação de Manuela Ferreira Leite ao Primeiro-Ministro de confundir as prioridades do país ao colocar como organizador das campanhas eleitorais o Ministro Vieira da Silva, é dos piores exemplos de populismo demagógico antidemocrático, por muito que Manuela Ferreira Leite a tente travestir de amor e dedicação ao país.
A existência de partidos políticos, debates, lutas políticas e eleições são a base do nosso sistema democrático. Alguém acredita que haverá menor desemprego pelo facto do Ministro do Trabalho não organizar as campanhas eleitorais do PS?
Ao contrário de Manuela Ferreira Leite eu penso que as eleições, nomeadamente as legislativas, são sempre importantes e, nestes momentos conturbados, cruciais para a definição política e governativa do país nos próximos quatro anos.
A postura de desprezo pelo debate democrático, pelos partidos políticos como excrescências mal cheirosas da democracia (em que se assemelha à de Cavaco Silva), é um péssimo contributo para a dignificação de um estado democrático.
Este editorial do The Lancet, ao qual tive acesso através do blogue A Natureza do Mal, demonstra bem a enormidade e a irresponsabilidade do Papa Bento XVI:
Tal como já escrevi num post anterior, não há fé que justifique uma mentira nem ignorância que se desculpe ao Papa sobre esta matéria.
Deve ser da ventania que faz voar a roupa das cordas, que faz abanar as janelas e bater as portas com violência. Sinto o dia desconfortável, cinzento e enervante, em que a impotência e a revolta se misturam.
Estamos todos entretidos com os casos mediáticos, com os media, divertimo-nos a comentar a liberdade de expressão, o mau jornalismo, a vigarice dos políticos, as eventuais pressões sobre magistrados, os investimentos públicos cujos pareceres técnicos vão mudando ao sabor de quem está, respectivamente, no governo ou na oposição, as compras de árbitros, as manipulações das estatísticas, etc.
Mas a verdade que me assusta é a percepção cada vez mais real da total ausência de um estado de direito. Os tribunais, os advogados, a polícia, os investigadores, parecem ser uma amálgama de gente sem definição nem valores, pertencentes a instituições decorativas e manietadas por todos, desde jornalistas, comentadores e governantes, a apaniguados partidários, enquanto o anónimo cidadão pede a todos os deuses existentes e inexistentes que o livre de, um dia, precisar deste sistema de justiça.
Irritações matutinas, cíclicas, que um dia poderão explodir, enquanto nos outros dias apenas provocam um encolher de ombros ou um pequeno tilintar distraído no fundo da memória.
O café onde tomo o pequeno-almoço aos fins-de-semana é sempre o mesmo, porque eu gosto deste tipo de rituais. É o único que vende alguns jornais aos sábados e domingos e é por isso que lá vou.
A Dona é uma mulher azeda, mal disposta e mal encarada, que muda de empregadas como quem muda de camisa, pois o perfil que se observa nelas é do mais medíocre que existe, em incapacidade de tirar cafés, besuntar torradas ou somar parcelas e descortinar um total.
Em vez de saquetas individuais de adoçantes, com 1 a 2 comprimidos ou com pó, a Dona do café tem 2 frascos grandes de comprimidos de adoçantes que, quando não decide ela mesma adoçar os cafés com o número de partículas que ela acha que os clientes querem, andam sempre de mão em mão, com os vapores que se evolam de todas as bebidas quentes, se esfrangalham e colam, levando os ditos clientes a uma enervação permanente.
Outra característica interessante é o facto de, ao fim de 18 anos, a Dona ainda não ter conseguido fixar os preços dos jornais e dos maços de tabaco que vende, tendo sempre que ser os clientes a dizer-lhos. As empregadas, ou porque não estão tempo suficiente para memorizarem preços, ou porque acham que não é das suas competências, ou porque nunca compraram um jornal, ou porque lhes é manifestamente impossível, seguem os mesmos passos.
Para além disso, a Dona tem um carro que, haja ou não haja lugares de estacionamento disponíveis nos 500m mais próximos, pára sempre em segunda fila, hábito que vem sendo generalizado, pelo menos ao pé da minha porta. As pessoas andam 100m da porta da sua casa até às portas dos cafés (há quatro cafés num raio de 200m), em segunda ou terceira fila. Quando alguém tem que sair e está fechado, os donos dos carros sentem como normal o facto de quem quer sair para o trabalho lhes ir pedir para retirarem os seus. E pedir com jeito e por favor, porque senão ainda se é insultado.
Enfim, se calhar é por ter mudado a hora, mas hoje tudo isto teve uma enorme importância, por muito que sejam ninharias e disparates. Mas penso que a falta de respeito pelo próximo é cada vez maior.
Tenho que encontrar outro café que venda jornais aos fins-de-semana.
Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...